CAPÍTULO 03 – TREINAMENTO, MISTÉRIOS DO PASSADO, SENTIMENTOS DESABROCHANDO

 

Passados cinco dias desde o início do treinamento, Mai se encontrava deitada numa clareira às margens do lago Hamanako, completamente exausta e sem energia. Seu kimono rosa (ela não abria mão da cor nem mesmo no treino) estava sujo de terra e suor (*01). Não se sentia tão cansada desde o duro treinamento sob o Sargento Ibuki antes de se tornar uma Changeman.

Mesmo sendo apenas uma “relembrada” do seu treinamento ninjutsu, o tio de Mai não tornava a coisa nada fácil. Shiunsai a fazia levantar bem cedo da cama, antes do sol nascer. O café da manhã era rápido para não consumir horas de treino. O treino em si sempre começava com uma corrida ao redor do campo de treinamento, com pesos amarrados no corpo, “para acordar os músculos” dizia Shiunsai.

No primeiro e segundo dia, Mai teve que relembrar o básico das artes ninjas, como o arremesso de projéteis e técnicas de luta corpo a corpo. Mas esta foi a parte fácil. Depois teve que passar por uma série de exercícios para aumentar a agilidade, como correr por pistas de obstáculos (que incluía até mesmo explosivos de baixa intensidade, “para motivar” também dizia Shiunsai), tudo cronometrado e indo até altas horas da noite (o que significava pouco tempo para dormir). (*02)

O terceiro e quarto dia foram para relembrar as técnicas de furtividade de sua família. Inicialmente ela teria que atravessar uma parte da floresta patrulhada por outros ninjas em treinamento, sem que estes a vissem. Para isso, ela deveria se valer de uma combinação de técnicas de camuflagem, distração, substituição e até incapacitação temporária dos oponentes (além é claro, de usar um kimono de cores menos chamativas, para contragosto de Mai). Se fosse vista, teria que começar todo o trajeto de novo. Uma vez realizado, o desafio era refeito, mas com ninjas mais experientes e mais numerosos a cada turno.

Finalmente no quinto dia, Mai estava relembrando as técnicas de combate passadas por gerações de seu clã. Ao contrário de muitos clãs ninjas, que favoreciam a ninjatou (espada ninja reta) ou a katana (espada longa curva), o clã Tsubasa preferia o uso de duas tantou (adagas curtas), uma em cada mão (*03). Isso era também um contraste com a Change-Espada, com a qual Mai estava mais acostumada.

E era exatamente em um treino de combate que Mai estava minutos atrás. Tendo como oponente seu próprio tio.

Mesmo tendo sua força e vigor físico aumentados pela Força Terrena, Mai não conseguia derrotar Shiunsai. O velho ninja, mesmo em idade avançada, tinha reflexos surpreendentemente rápidos. Por mais força que possuísse, de nada adiantaria se não conseguisse atingir o adversário. Shiunsai ora se esquivava dos golpes com uma flexibilidade impressionante para alguém de sua idade, ora usava suas adagas de madeira para desviar a força dos ataques.

Foi neste momento que Mai estava percebeu o quanto estava destreinada nas artes ninjas. Acostumada a lutar como Change Fênix, com movimentos que priorizavam poder de fogo e sincronização com seus companheiros, e tendo à disposição a proteção da Change Proteck e os demais equipamentos dos Changeman, Mai percebeu o quanto precisava deste treinamento para ter sucesso na missão de resgate das crianças.

- Levante-se! – ordenou Shiunsai, com um tom autoritário que lembrava o Sargento Ibuki.

Com alguma relutância, Mai se levanta e prepara para atacar mais uma vez, segurando suas adagas de madeira como se fossem duas espadas. Ela avança contra o tio que, ao contrário dela, segurava suas adagas de maneira reversa, com as lâminas ao longo dos braços.

Num movimento rápido, Shiunsai desvia o ataque de Mai, fazendo com que as adagas dela escorregassem pelas suas próprias e, rapidamente adentrando no espaço pessoal de Mai, lhe dá uma rasteira que a derruba. Antes que ela percebesse que está no chão, Shiunsai lhe põe a adaga no pescoço, encerrando a luta.

- Você ainda está pondo muita força no braço direito e pouca no esquerdo! – Shiunsai corrige Mai, removendo a adaga de seu pescoço – Lembre-se que lutar com adagas não é o mesmo que lutar com espadas.

- Eu não entendo, tio, por que nosso estilo usa adagas ao invés de espadas? – questiona Mai, se levantando. – Não seria mais vantajoso ter uma lâmina maior?

Shiunsai fica em silêncio por alguns minutos, e daí responde:

- Mai, você sabe da onde vem o nome do nosso clã?

- Sim, “Tsubasa” significa “asas”.

- Exato. Assim como um pássaro não voa com apenas uma asa, nosso estilo necessita o uso das duas mãos para ser efetivo. Nosso estilo exige destreza em ambas as mãos para se aproveitar de uma fraqueza comum dos adversários.

- Fraqueza? Qual fraqueza?

Mas Shiunsai responde com outra pergunta:

- Mai, por que você escreve com apenas uma mão?

Mai fica confusa com aquela pergunta. O que isso tinha a ver com a questão anterior?

- Porque foi assim que aprendi na escola. – ela responde simplesmente.

- Porque se uma criança fosse aprender a escrever com as duas mãos ao invés de uma só, levaria o dobro do tempo para dominar a escrita. – completa Shiunsai. – Da mesma maneira com as técnicas de espada, se um aprendiz tentasse desenvolver a mesma destreza com a espada nas duas mãos, levaria o dobro do tempo para se tornar um espadachim experiente.

Mai fica estarrecida com a explicação de seu tio. Assim como escrever, usar a Change-Espada com uma mão sempre foi o natural para ela, mas nunca havia pensado daquela maneira.

Shiunsai continua:

- Assim, a maioria dos adversários que você encontrar dominará a técnica da espada em apenas uma mão. É disso que nosso estilo tira vantagem: ao utilizar adagas em ambas as mãos, podemos focar no lado em que ele é mais vulnerável. Em uma luta direta, um espadachim destro é condicionado a esperar ataques pelo seu lado esquerdo, achando que o oponente também o é. Mas se for atacado pelo lado direito, poderá ser surpreendido e as chances de ser atingido são maiores. É uma maneira de usar o próprio condicionamento do adversário contra ele mesmo.

Realmente Mai não havia pensado desta maneira. Mas ela indaga:

- Mas isso não faria com que o treinamento do nosso clã levasse o dobro do tempo como consequência?

- Sim, se usássemos espadas. Daí a nossa preferência por adagas. Elas são mais leves e requerem menos força que espadas para manejar. Mas em contrapartida, lâminas mais curtas colocam você mais próxima do adversário, o que requer reflexos rápidos se quiser sobreviver.

Foi aí que a ficha caiu para Mai: o estilo de luta do clã Tsubasa se focava em agilidade, e não em força física. O objetivo era surpreender o adversário, e não em causar danos massivos ao mesmo.

Com isso em mente, Mai pôde finalmente avançar no treino, conseguindo lutar de igual para igual com seu tio.

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Ao final do dia, Mai e Shiunsai retornaram à residência do velho ninja. A jovem estava cansada, mas feliz por um treino produtivo. Só que não esperava encontrar um certo alguém esperando por ela, sentado na varanda em frente à casa:

- Hayate! – Mai exclama ao ver seu colega de esquadrão.

O jovem galanteador sorri ao ver sua colega:

- Mai, aí está você!

- O que está fazendo aqui, Hayate? – Mai questiona, claramente surpresa por ele estar ali. – Não deveria estar treinando com os outros na base?

- O sargento me enviou para ver como seu treino estava indo. – ele responde, com o ar galanteador que sempre lhe fora próprio. – Ou melhor, eu me voluntariei para vir. Sempre quis conhecer o Lago Hamanako, e quando soube que seu vilarejo era aqui, não pensei duas vezes.

Mai põe a mão no rosto, em frustração:

- Você veio aqui fazer turismo enquanto os outros estão se preparando para a missão?

- Opa, calma aí, gracinha! Assim você me ofende. – Hayate brinca, sabendo como Mai detestava ser chamada assim. – Eu vim também para te levar de volta assim que puder. Houve uma mudança de planos.

Mai, que já ia esbravejar com ele pelo “carinhoso” apelido, fica séria de repente:

- Mudança de planos? O que houve?

- Mais uma criança foi raptada por Gozma. O sargento disse que é arriscado esperar mais e quer começar o resgate o quanto antes.

Mai tensiona ao ouvir isso. Parece que o seu treinamento seria interrompido antes do planejado. Mas ainda não se sentia pronta para tal missão. Eis que seu tio intervém:

- Mai, vá tomar um banho e descanse. Amanhã de manhã finalizarei seu treinamento e então pode partir.

- Mas, tio, as crianças...

- Não poderá ajudar ninguém exausta como está. Precisa descansar o corpo e a mente. Fique tranquila que a última parte do seu treinamento amanhã não será tão exaustiva.

Mai pensou em recusar, mas Hayate põe a mão em seu ombro e a encoraja:

- Mai, ele está certo. Precisa estar em condições para salvar as crianças. Pode deixar que eu aviso o sargento que estaremos de volta amanhã. No mais tardar, a missão se inicia amanhã de tarde. – Hayate então se dirije ao velho ninja. – Olá, meu nome é Shou Hayate, companheiro de esquadrão da Mai. O senhor deve ser o tio dela.

- Sim, sou Shiunsai Tsubasa, atual patriarca da família Tsubasa. Eu lhe dou as boas vindas ao vilarejo. – Shiunsai então se dirije a sua sobrinha. – Mai, como eu disse, tome um banho e descanse. Eu farei sala ao senhor Hayate.

Vendo que seu tio tinha razão, e estando realmente cansada, Mai solta um suspiro e nada diz, simplesmente acenando com a cabeça e entrando na casa, onde um banho quente a esperava.

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- Então quer dizer que os ninjas do clã Tsubasa remontam desde antes da Revolução Meiji, e já serviram de guarda costas até para o imperador? – pergunta um espantado Hayate, sentado com um copo de chá verde em mãos. Nas últimas horas, Shiunsai lhe contara toda a história da família.

- Sim, e nossa técnicas vêm sendo passadas de geração em geração da família, sendo que sou o atual sucessor.

- E Mai é próxima sucessora, imagino?

Shiunsai, por um instante, abandona sua expressão austera e severa, deixando transparecer tristeza. Mas que desapareceu tão rápido quanto apareceu:

- Na verdade, a sucessora era para ser minha filha...

Hayate percebe que tocou num assunto delicado e se desculpa:

- Oh, sinto muito. Ela está...

Shiusai balança a cabeça:

- Não, ela não está morta, até onde me lembro. – ao ver a expressão confusa de Hayate, Shiunsai detalha melhor. – Minha filha desapareceu há anos, poucos meses depois de nascer. Ninguém sabe do paradeiro dela desde então.

Hayate ficou estarrecido com tal revelação. Principalmente com a semelhança com a atual situação das crianças raptadas.

- E não acharam nada? Nenhuma pista?

Shiunsai novamente balança a cabeça:

- Nada, e o que é pior, eu próprio não me lembro bem das circunstâncias do desaparecimento dela... – O velho ninja então dá um discreto, porém amargurado sorriso. – Eu sei, “casa de ferreiro, espeto de pau” como dizem. Nós ninjas nos especializamos em obter informações sobre qualquer coisa, mas não conseguimos saber do paradeiro dos nossos próprios familiares... Tudo o que me lembro foi de algumas luzes estranhas, e de mais nada depois... (*04)

- Luzes estranhas... – pensa Hayate, intrigado. Foi aí que lhe veio à mente a conversa que teve com o Sargento Ibuki na base, sobre as crianças raptadas anos atrás.

- Senhor Shiunsai, quando sua filha desapareceu, mais ou menos?

- Há uns 19 anos atrás mais ou menos. Minha esposa faleceu poucos anos depois, então não tive mais filhos. Por isso, gostaria que Mai fosse a sucessora do clã...

Mas Hayate não ouvira o resto da fala de Shiusai. Sua mente estava divagando:

- 19 anos!! Será possível que... não, não, é improvável. Seria coincidência demais...

Seria mesmo?

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Na manhã seguinte, antes mesmo do Sol nascer, Mai se encontrava sentada sozinha, em posição de meditação, numa cabana isolada numa montanha próxima.

Era este a última parte do treinamento passado por seu tio: entrar num profundo estado de meditação, ao ponto de integrar-se com a natureza ao seu redor. Este treinamento tinha duas funções: aguçar sua percepção do ambiente ao redor sem depender da visão (tanto que usava uma venda sobre os olhos), e descansar sua mente racional (o lado do cérebro que controla os pensamentos conscientes) para a importante missão que lhe aguardava à tarde.

Claro, tal ato era mais fácil falar do que fazer. Mai sempre foi muito “esquentada”, sabia disso e, portanto, esvaziar a mente para alcançar tal ponto de meditação não era tarefa fácil para ela. E a ansiedade da missão de resgate também não ajudava.

Surpreendentemente, havia também mais um pensamento que atrapalhava sua meditação. Pensamento sobre um certo rapaz atualmente no vilarejo, cuja presença não era esperada (embora não fosse indesejada).

Mai não tinha muita certeza em que pé estava o relacionamento entre ela e Hayate. Sabia que havia um sentimento entre eles maior que o simples companheirismo entre irmãos de armas durante uma batalha. Mas não se lembrava ao certo quando tal sentimento surgiu. (*05)

Na verdade, Mai nunca foi do tipo que ligara muito para isso. Até conhecer o Dr. Naoto Togo (*06), a jovem não parecia ligar para o sexo oposto, chegando até a pensar que os homens não a achavam atraente, devido ao seu jeito marrento e invocado. Neste ponto, Mai admitia que possuía uma ponta de inveja de sua melhor amiga, Sayaka, que sempre foi feminina sem deixar de ser profissional. Mai nunca poderia imaginar que chegaria a chorar pela partida do Dr. Naoto, quando ele foi para o planeta Rindo, para ajudar na cura de uma doença que assolava o planeta, e provavelmente nunca mais voltar.

Coincidentemente, Mai sabia que Hayate também passara por uma situação parecida antes. Ele havia se apaixonado por Sakura (*07), uma sobrevivente do planeta Meril, que fora destruído por Bazoo. Sakura, entretanto, devido aos poderes únicos de sua raça para apaziguar violência, tinha um dever para com outros povos espaciais que desejavam se libertar de Gozma. Então, muito a contragosto de ambos, ela e Hayate não puderam ficar juntos.

No final, foram provavelmente estes dois eventos que acabaram aproximando Mai e Hayate. Eles tinham um sofrimento em comum: um amor platônico rompido porque a pessoa amada tinha um dever mais importante a cumprir.

E por mais mulherengo que fosse, Mai sabia que Hayate a via de forma diferente das outras mulheres. Volta e meia, Hayate ainda dava suas cantadas por aí, mas nunca ia além disso (até porque as garotas riam de tais cantadas). Mai tinha a impressão que ele fazia isso mais para manter sua imagem de galã bad boy. E ela certamente se lembrava das vezes em que Hayate se deu algumas “liberdades” com ela, como tocá-la em “locais inapropriados” não uma, mas duas vezes (*08), coisa que ele nunca fez com outras mulheres. Claro que, mesmo assim, Mai não deixou tais “liberdades” baratas, prontamente enfiando um sorvete na cara dele como punição.

Mai sacudiu a cabeça. Estes pensamentos não estavam ajudando na tarefa atual. Ela precisa esvaziar a mente para meditar, coisa que nunca achou fácil. Precisava atingir o tal ponto de integração com o ambiente para passar no treinamento.

Foi aí que lhe veio uma ideia. Por que não usar a conexão que tinha com Hayate para auxiliar na tarefa? Após tantas missões juntos, Mai já se acostumara, de certa forma, a sentir a presença única do Change Griffon, algo que era facilitado pelo fato dele também ter sido banhado na Força Terrena. Mai sabia que o rapaz estava próximo ao sopé da montanha onde meditava, provavelmente aguardando para levá-la de volta à base assim que terminasse. A jovem ninja então se focou em sentir a presença dele de onde estava e, partindo deste ponto, expandiria sua percepção para as outras formas de vida que estivessem entre ele e ela. Faria algo como uma integração em etapas com o ambiente, começando pelas presenças que lhe fossem mais familiares. Aos poucos foi sentindo a presença dos pequenos animais que habitavam a floresta ao redor, dos pássaros e, finalmente, dos insetos.

Quando finalmente conseguiu tal integração, Mai sentiu uma presença se aproximando da cabana onde estava. Não era Hayate, pois ele permanecia no mesmo lugar no sopé da montanha. E tal presença se aproximava rápido, mas era tão silenciosa que quase não fazia som. Quanto o misterioso indivíduo chegou à entrada da cabana, Mai não podia vê-lo (pois estava vendada), mas sabia que ele estava ali. O indivíduo sacou algo nas mãos e atirou contra ela que, mesmo não sabendo do que se tratava, se jogou para o lado, desviando do projétil. Um barulho de algo metálico cravando em madeira se seguiu, o que fez Mai concluir que o projétil era uma faca ou um shuriken. Mas ela não teve tempo de pensar muito a respeito, pois o indivíduo imediatamente saltou sobre ela, com intenção clara de atacar.

O tempo pareceu desacelerar neste momento. Quando o atacante chegou bem perto, Mai segurou o braço dele, parando uma lâmina a milímetros de seu rosto e, num instinto, o arremessou para o outro lado da cabana. O atacante rapidamente se levantou, mas não atacou. Ficou parado lá, enquanto Mai se preparava para um ataque.

Foi então que ouviu o atacante falar:

- Muito bem! Você passou no teste!

E a voz era bem conhecida de Mai:

- Tio Shiunsai! – ela exclamou, removendo a venda dos olhos.

Shiusai estava lá, vestindo um traje ninja camuflado, sua expressão austera, mas com um traço de orgulho em seus olhos.

- Você conseguiu sentir minha presença se aproximando, mesmo eu tendo usado todas as técnicas em meu arsenal para escondê-la. E foi perceptiva o bastante para inclusive bloquear meus ataques. Agora você está pronta para sua missão!

Mai abre um largo sorriso e, entusiasmada, corre para abraçar seu tio:

- Muito obrigada, tio. Não vou me esquecer das suas lições!

- Pois bem, agora você deve partir. O senhor Hayate a aguarda lá embaixo. Salve aquelas crianças.

Uma expressão de determinação cruza a face de Mai:

- Pode deixar! Prometo que salvarei aquelas crianças, mesmo que custe a minha vida.

Mas Shiunsai franze a testa. Não era bem esta a resposta que queria ouvir:

- Mai, salve aquelas crianças, mas prometa que cuidará de sua própria vida também. Não quero perder uma filha de novo...

Ao ouvir estas palavras, o entusiasmo que Mai sentia dá lugar a uma profunda tristeza, que lhe aperta o coração. Realmente não devia ter se expressado daquela maneira. Afinal, naturalmente sabia da dolorosa perda de seu tio, que lhe era quase como um pai. Ele ajudara sua mãe a criá-la desde que seu verdadeiro pai havia morrido, tratando Mai como a verdadeira filha que perdera anos atrás...

Os dois ficam em silêncio por alguns segundos, até que Mai diz:

- Tio, sobre a questão da sucessão da família, eu...

Mas Shiunsai a interrompe:

- Eu sei, Mai. Eu gostaria muito que você fosse a sucessora de nosso clã, mas sei que seu trabalho com os Defensores do Planeta Terra toma praticamente todo o seu tempo, e não posso colocar mais responsabilidades sobre seus ombros. Apenas... prometa que vai pensar a respeito, sim?

Mai responde com um aceno da cabeça, mas mentalmente proclama:

- Quero fazer melhor que isso, tio! Um dia vou encontrar sua filha desaparecida e trazê-la de volta!

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No trajeto de volta até a base, Hayate ia dirigindo para permitir a Mai um tempo a mais de descanso. Ela ia sentada no banco do lado, de olhos fechados, como se estivesse dormindo. Até que fala de repente, quebrando o silêncio:

- O que você e meu tio conversaram na noite passada?

Momentaneamente surpreendido, pois achava que ela estava dormindo, Hayate responde:

- Bom, ele me contou sobre a história da sua família, sobre como suas técnicas foram transmitidas por muitas gerações.... – ele pausa, ponderando se deveria prosseguir. – Ele também me falou sobre sua prima...

Mai, agora de olhos abertos, tem uma expressão triste neles:

- É meio que um tabu na família. Meu tio nunca se esqueceu da filha desaparecida, mesmo que não se lembre dos detalhes do sumiço...

- Acha que sua prima é uma das crianças raptadas pelas tais ameaças espaciais que o sargento falou?

A jovem ninja balança a cabeça:

- Não sei, eu era pequena demais para entender o que aconteceu na época, e, depois de todos estes anos, não gosto muito de ficar trazendo isso à tona com meu tio.

Hayate concorda. Há 19 anos atrás, nos idos dos anos 60, se uma criança desaparecesse sem rastro e sem testemunhas como foi o caso, certamente seria quase impossível recuperá-la. A tecnologia não era tão avançada como atualmente. Passado tanto tempo, a maior probabilidade é que a criança já estivesse morta. Talvez por isso Mai preferia não ficar relembrando o tio deste assunto.

- Ele também mencionou que gostaria que você o sucedesse nas artes ninjas.

Mai suspira:

- É, ele quer. Mas além do meu dever como Changeman, não sei se tenho condições de assumir esta responsabilidade. Não me sinto pronta, sabe? Depois deste treinamento, percebi o quanto tenho a aprender ainda... Por isso pedi ao sargento para vir relembrar meu treinamento aqui...

Hayate olha estarrecido para Mai. Em todos estes anos que a conhecia, ela sempre fora confiante em suas próprias habilidades (a ponto de parecer arrogante às vezes), nunca demonstrara insegurança. E ali estava ela, expressando dúvidas sobre si mesma e quanto à missão.

Ele nota que a mão dela estava repousando perto da divisória entre os bancos, então tira uma das mãos do volante e a posiciona sobre a mão dela.

Mai fica surpresa com o gesto de Hayate.

- Você vai conseguir, - diz ele, num tom firme. – Você não sabe, mas cheguei a ver uma parte do seu treino, quando você estava lutando com seu tio no lago. E quando vi seus movimentos, rápidos e precisos, não tenho dúvida de que Gozma não terá a menor chance contra você.

Hayate mentalmente admitia que veio até Hamamatsu não apenas para buscar Mai e repassar as ordens do sargento, mas também para prestar apoio moral, que ela sabidamente precisaria numa missão difícil como a que estava prestes a realizar.

Mai, da sua parte, estava se sentindo surpreendentemente confortável em conversar sobre estes assuntos pessoais com Hayate. Normalmente ela não deixaria ninguém ver este lado dela. Apenas Sayaka, como sua melhor amiga, sabia das inseguranças delas. Para todos os outros, ela passava uma imagem de uma motoqueira marrenta e orgulhosa.

- Mas talvez não seja tão ruim que Hayate saiba deste meu lado também... – ela pensa, segurando a mão dele durante todo o trajeto de volta.


 

NOTAS:

(*01) O figurino de Mai foi inspirado na kunoichi Ayame, da série de games de ninjas Tenchu

(*02) Esta parte do treinamento foi inspirada no treino de Touha Yamashi (episódio 02 de Jiraya)

(*03) Mais uma vez, as armas também usadas por Ayame, em Tenchu

(*04) Ideia baseada na obra “A verdadeira história do rapto dos Flashman quando pequenos”, do autor Tripa_Seca, na plataforma Spirit

(*05) A relação entre Mai e Hayate foi baseada na obra “Changeman – A Batalha do Amor”, do autor Bison_Shadowlaw, na plataforma Spirit

(*06) Episódio 26 de Changeman – “Toque da Primavera”

(*07) Episódio 16 de Changeman – “O Anjo do Planeta Meril”

(*08) Cenas finais do Episódio 44 de Changeman – “Mai em Ação”