Boa tarde.
Espero que gostem do novo capítulo.
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3. Reflexos Turvos
Explorando aquele novo lugar, Davi caminhava devagar, observando tudo com um misto de curiosidade e timidez. Cada ser que passava por ele carregava um espelho pendurado no peito, como um pingente vivo. Mas não eram camafeus comuns, daqueles que guardam retratos estáticos de entes queridos.
Os espelhos dali
revelavam algo muito mais íntimo: cores pulsantes de emoções, fragmentos de
memórias, verdades interiores que pareciam dançar na superfície brilhante.
Era algo que Davi jamais imaginara ver — e muito menos possuir.
Quando finalmente olhou para o seu próprio espelho, sentiu o estômago afundar. A superfície estava completamente embaçada. Nenhuma forma, nenhuma cor, nenhuma luz. Apenas um borrão opaco, como se alguém tivesse passado tinta cinza sobre sua alma. E aquilo o atingiu com força, porque era exatamente assim que ele se sentia: um corpo vivo carregando um vazio, um desperdício de existência.
Enquanto tentava entender o funcionamento daquela pequena cidade espelhada, começou a perceber olhares. Alguns curiosos, outros desconfiados, outros claramente julgadores. Mesmo não sendo humanos, aqueles seres agiam como tais — e talvez até pior. Nada parecia mais universal do que o medo do desconhecido, o impulso de julgar antes de compreender, a tendência de criticar aquilo que não se entende.
Davi puxou a barra da camiseta e tentou limpar o espelho. Uma vez. Duas. Dez. Esfregou com força, com raiva, com desespero. Nada. A imagem permanecia imóvel, turva, indiferente ao seu esforço. Era como tentar limpar neblina com as mãos.
E então ele entendeu: não era sujeira. Era ele.
Era sua alma refletida ali — turva, embaçada, sem definição. Um conjunto de imagens em preto e branco, sem cor, sem emoção, sem brilho. Seu coração exposto de maneira cruel, sem filtros, sem máscaras. E ver aquilo o apavorou mais do que qualquer julgamento externo.
Como organizar seus
pensamentos? Como arrumar seus sentimentos, seu humor, sua vida? Ele nunca
soube. Nunca aprendeu a se relacionar consigo mesmo, muito menos com os outros.
Mas, paradoxalmente, aquele lugar o impelia a tentar. A ser melhor. A sair da escuridão
que o acompanhava há tanto tempo.
Mas havia outro lado.
A beleza daquela cidade — seus reflexos, suas luzes, seus habitantes tão cheios de cor — amplificava sua dor. Era como estar em um museu de obras-primas enquanto se sentia um rabisco malfeito. Davi se sentou no chão, perto de uma sarjeta espelhada, curvando o corpo em posição quase fetal. O silêncio ao redor parecia zombar dele. Ele respirava rápido, tentando conter o choro que ameaçava escapar.
Foi então que ouviu uma voz suave chamando seu nome.
No início, não deu atenção. Sua mente estava mergulhada em desespero, em autodepreciação, em um turbilhão de pensamentos que o puxavam para baixo. A voz insistiu, mas parecia distante, abafada, como se viesse debaixo d’água. Ele chegou a pensar que era imaginação — mais uma peça cruel que sua mente lhe pregava.
Até que sentiu uma mão tocar seu ombro.
Ele ergueu o rosto devagar e encontrou o sorriso mais cálido que já vira em toda a sua vida.
A mulher — ou o ser — se apresentou como Lira, a Guardiã das Almas. Seu espelho, porém, estava rachado. Davi arregalou os olhos. Alguém ali tinha um problema semelhante ao dele — talvez até pior. As rachaduras pareciam cicatrizes profundas, feridas que o tempo não conseguira curar.
Mas, para sua surpresa, o espelho dela brilhava mais do que qualquer outro. Mesmo quebrado, exibia imagens vibrantes através das fissuras, como se a luz encontrasse caminhos próprios para escapar.
“Você não quer caminhar comigo?”, ela perguntou, estendendo a mão.
Davi engoliu em seco. “Mas… o que você vê em mim que eu não vejo? O que eu tenho de tão interessante?”
Sua voz saiu carregada de dor, de autopiedade, de uma resignação que ele carregava desde a infância.
“Eu vejo possibilidades”, respondeu Lira. Sua voz era suave, quase musical, mas firme. Havia autoridade nela — não de imposição, mas de sabedoria. Seu papel como guardiã era evidente na postura, no olhar, na serenidade que irradiava.
O que mais confundiu Davi foi que ela não o olhava com reprovação. Não havia julgamento, nem medo, nem desprezo. Havia compreensão. Havia curiosidade. Havia afeto. Era o tipo de olhar que uma mãe daria a um filho perdido dentro de si mesmo, tentando encontrar um caminho.
E aquilo aqueceu o coração de Davi de um jeito que ele nunca tinha sentido antes.
“Quais possibilidades?”, ele perguntou, ainda hesitante. Ele queria acreditar. Queria saber que havia algo nele que valia a pena. Queria, pela primeira vez, ter esperança.
“Infinitas”, respondeu ela, sorrindo. Um sorriso tão belo que quase doía de olhar. Uma luz verde irradiou do espelho rachado dela, como se confirmasse a sinceridade de suas palavras.
Algo dentro de Davi começou a se mover. Pequeno, tímido, mas real.
Lira não o apressava. Caminhava ao lado dele, esperando que ele desse cada passo por vontade própria. Queria que ele se sentisse melhor, que seu espelho deixasse de ser turvo. Queria ajudá-lo — e isso era visível, quase palpável.
E isso confundia Davi. Seu coração, já machucado por tantos anos de preconceito e julgamento, não sabia como lidar com gentileza verdadeira.
“Tem certeza de que são tantas possibilidades assim?”, ele perguntou, quase infantilmente. Era como se buscasse reafirmação, como se ela fosse uma boia salva-vidas que o impedia de afundar.
“Absoluta. Por que hesita tanto?”, Lira perguntou, inclinando a cabeça com curiosidade genuína.
Davi olhou ao redor. Ele ainda estava perto do lugar onde o portal havia surgido. Não conseguia se afastar dali. Era como se temesse que, ao dar alguns passos a mais, perdesse a chance de voltar para casa — mesmo que sua casa fosse um lugar onde ele sofria.
“Porque já me disseram, mais de uma vez, que eu não valho a pena”, confessou. A frase saiu pesada, mas verdadeira. Ele já ouvira isso tantas vezes, de tantas formas diferentes, que começara a acreditar.
Lira se aproximou um pouco mais. “Eu vejo o contrário. Vejo você como uma lousa ou um papel em branco — escolha o que preferir — pronto para receber os desenhos mais bonitos que eu já tenha visto.”
A metáfora o atingiu em cheio. Lousa. Papel. Quadro em branco. Aquilo falava diretamente ao seu coração de artista adormecido. Era como se ela soubesse exatamente quais palavras usar para alcançá-lo.
“Você me conhece tanto assim?”, ele perguntou, temendo ouvir algo que o machucasse. Parte dele queria que ela dissesse sim, para poder se culpar de novo. Era o padrão que conhecia.
“Na verdade, não”, respondeu Lira com serenidade. “Mas, apesar do que você carrega no peito, apesar do que nubla seu espelho… eu tenho fé que você pode ser muito mais do que pensa que é.”
A fé dela o desmontou.
Davi sentiu os
olhos marejarem. Não chorou, mas ficou perto disso. Pela primeira vez, desejou
que alguém estivesse certo sobre ele. Rezou — mesmo sem acreditar em nada —
para que as palavras dela fossem verdadeiras.
“Tomara…”, murmurou. A esperança era tão forte que parecia quase física, como se pudesse ser segurada com as mãos.
“Por quê?”,
perguntou Lira, com a simplicidade desconcertante de uma criança.
E aquela pergunta — tão pequena, tão direta — fez Davi perceber que talvez, pela primeira vez, alguém realmente queria entender sua resposta.
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2 Comentários
Que texto sensível !
ResponderExcluirGrande Falcão Flamejante, fiquei impactado, com a delicadeza de abordar um tema tão difícil quanto a depressão profunda.
A chegada de Lira e seu real interesse pela dor de Davi, algo que ele nunca teve, representa uma virada narrativa, que foi escrita com brilhantismo.
Melhor capítulo até aqui!
Profundo sem ser invasivo !
Verdadeiro
Parafraseando a tela de Davi, uma obra de arte em construção.
Aplaudo de pé!
Caro Rider, você tem sido cirúrgico em alguns comentários a respeito do conto. É importante pra mim você pegar alguns pontos da escrita que eu tenho usado para melhorar.
ResponderExcluirObrigado e peço que continue acompanhando.