Caçador Escarlate.
Episódio #06.
Dias de terror.
Akiko Emi sempre teve muito medo.
De tudo.
Na escola tinha medo de fazer amigos, de perguntar aos professores sobre algo que não sabia, em casa tinha medo até de falar bom dia para seu severo pai, ou de pedir alguma ajuda à mãe.
Levou esse medo pela vida adulta, não conseguindo falar nada para seu chefe abusivo, ou para os colegas que sempre a deixavam lotada de trabalho para poderem vagabundear.
Quando a invasão vampírica começou não foi diferente.
Akiko mal consegui encontrar abrigo quando a cortina de trevas cobriu o Japão, precisando correr ao máximo que sua fraca constituição física permitia, se escondendo onde conseguia se espremer.
Isso até encontrar uma casa onde outros sobreviventes a deixaram entrar e se abrigar, depois de ter fugido durante horas de um grupo de vampiros.
— Muito obrigada gente.
Mal sabia ela os diversos abusos pelos quais passaria naquele lugar infernal.
Hirata, que na vida anterior à invasão, era apenas contador em uma empresa e sempre dava um jeito de abusar de seus subordinados, logo ascendeu na hierarquia do refúgio e tratava de fazer o mesmo com os demais sobreviventes.
Do grupo inicial de quase vinte pessoas, restavam apenas cinco, pois a grande maioria havia resolvido que seria muito melhor se arriscar com os vampiros do que continuar seguindo as ordens do auto intitulado Chefe Hirata, que havia conseguido manter ao seu lado dois homens da Yakuza, muito mais fortes que os demais.
Acostumados a acatar ordens, foi relativamente fácil para o ex contador os manipular e comandar, de modo que logo ele conseguiu que todos no refúgio seguissem suas ordens, por piores ou mais absurdas que fossem.
Pelo menos dois outros sobreviventes tentaram contrariar Hirata.
Seus gritos, após serem atacados pelos vampiros, minutos após os capangas jogarem-nos para fora, devidamente espancados, foi incentivo suficiente para que os demais ficassem ainda mais “cooperativos”.
Perto do fim, haviam sobrado apenas Akiko e outra garota, que ela nem lembrava do nome, ambas mal sobrevivendo a uma rotina de abusos, físicos e psicológicos, suficientes para que se tornasse suscetível ao que veio a acontecer em seguida.
“Acorde…”
As palavras, ditas com uma sensualidade que Akiko nunca ouvira em toda sua vida, ecoaram em sua mente durante uma madrugada em especial, quando a pobre garota fora dormir com o corpo todo dolorido e cheio de hematomas, após horas de castigos recebidos, por ela absurdamente dizer para o Chefe Hirata, que ele e seus homens deveriam poupar as moças da casa, ao menos, naquele dia, pois as duas estavam no limite e poderiam morrer em breve se tudo continuasse daquele jeito.
“É hora da vingança… Mas você precisa de forças…”
A garota despertou assustada, o olho direito se manteve fechado devido ao inchaço, mas ela conseguia sentir aquela voz e, apesar de saber de onde deveria vir, era impossível ignorar.
“Quando descansar, daqui a segundos, será a melhor noite de sua vida. E, em breve…”
Se mais algo foi falado em sua mente, Akiko já não escutava, tão mergulhada estava no mundo dos sonhos e, como a voz prometera, realmente teve a melhor noite de sono em anos.
Nos dias seguintes ela apresentou uma recuperação quase milagrosa, as olheiras profundas deram lugar a um olhar mais penetrante, controlado, até mesmo capaz de afastar seus agressores, que passaram a se concentrar na outra garota, que Akiko passou a ignorar, pois sabia que não poderia proteger as duas.
Com o tempo ela nem mais ligava para isso, na verdade.
Seu foco era em sobreviver e se vingar.
Para isso precisava continuar viva.
As vozes continuaram a visitá-la no sono, tanto que Akiko já não conseguia sequer diferenciar se as escutava apenas na cabeça ou não, se eram reais ou algo fabricado por sua mente, cada dia mais fragmentada.
Mais de um mês se passou e o inevitável aconteceu quando, não aguentando mais tanto sofrimento, a outra garota, acabou se matando.
O chefe Hirata mandou sua última serva pegar o corpo da banheira e jogá-lo para fora da casa, pretendendo que, dessa forma, os vampiros que rodeavam a casa dessem umas noites de descanso a eles, que já não aguentava mais as batidas nas portas e janelas, as ameaças, ou simplesmente os urros de fome dos predadores.
Aproveitando que os vampiros pareciam realmente incapazes de entrar em uma casa sem a permissão de quem vivia ali, Akiko arrastou o corpo com certa facilidade, dada a forma como estava magra e desnutrida, abriu a porta e a empurrou com cuidado para que nada de seu próprio corpo chegasse a tocar o lado de fora, alguns dos sobreviventes da casa haviam perdido a vida dessa forma, colocando um pé para o lado de fora que fosse, sendo arrastados com violência pelos vampiros.
Seus temores, ao menos a respeito de ter alguma parte de seu corpo agarrado, foram infundados, mas assim que ela acabara de colocar a garota morta para fora, a mesma voz que atormentava seu sono ecoou novamente.
“É hora da vingança… Diga agora que nos permitirá entrar…”
Ao olhar para o lado de fora da casa, três pares de olhos brilhando em vermelho a fitavam e pouco a pouco as forças da garota foram diminuindo drasticamente, até ela cair de joelhos.
— Po-podem… Entrar…
No instante seguinte três garotas vampiras invadiram a casa em suas formas de névoa, saltando nos pescoços do chefe Hirata e seus subordinados, estraçalhando carne e ossos, para mantê-los sem resistir, conforme sugavam totalmente seus corpos.
Akiko derramava lágrimas por toda sua face, apenas aguardando a sua vez, mas logo uma das vampiras se aproximou e afagou o alto de sua cabeça, bagunçando de leve os cabelos da garota.
— Nada tema pequenina, temos outros planos para você.
E seriam planos que mudariam o rumo daquela invasão de uma vez por todas.











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