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A Cidade dos Espelhos - Reflexo 5

 

Boa noite a todos.

Aqui está mais um capítulo deste conto. Espero que gostem.

 

...

5. A Verdade Refletida

  

 

“Seja bem-vindo ao Salão das Vozes”, disse Lira pouco depois de os dois chegarem em frente ao prédio espelhado. A forma como ela pronunciou o nome do lugar carregava respeito, quase reverência. Mas, para Davi, aquilo não significava nada além de mais um ambiente desconhecido que provavelmente o colocaria diante de algo que ele não queria enfrentar.

Por mais que o prédio tivesse uma aura especial, Davi não acreditava que poderia melhorar ali. O que quer que aquele salão abrigasse, ele duvidava que fosse benéfico para alguém como ele. A sensação de inadequação o acompanhava como uma sombra.

“Somente tenha cuidado com o que pensa aqui dentro. Pode te prejudicar”, aconselhou Lira, com uma seriedade que fez Davi engolir seco. Ele não entendeu o que ela queria dizer, mas a expressão dela deixava claro que não era exagero. E, cedo ou tarde, ele entenderia — porque sentiria na pele o que aquele salão era capaz de fazer.

Assim que atravessaram a entrada, tudo mudou.

Davi se viu sozinho.

Lira havia desaparecido como se nunca tivesse estado ali. Ele piscou várias vezes, tentando se acostumar ao ambiente. O salão era completamente preto. Não havia iluminação, não havia sombras, não havia sequer a sensação de espaço. Era como estar suspenso no vazio. Ele não conseguia ver um palmo à frente do próprio rosto.

O pânico veio rápido, como um soco no estômago. O coração acelerou, a respiração ficou curta. Ele chamou por Lira, mas sua voz parecia ser engolida pelo escuro. O silêncio era tão absoluto que parecia ter peso.

Mas Lira o via. Ela estava ali, em algum ponto além da escuridão, o observando. Aquela era a intenção do salão: expor Davi a si mesmo, sem interferências.

Depois de alguns minutos que pareceram horas, o silêncio se quebrou.

Davi começou a ouvir palavras — projetadas com sua própria voz.

Palavras que ele conhecia bem.

[Não sou suficientemente bom.]

[Sou um erro desde que nasci.]

[Não sei como as pessoas me aturam.]

E muitas outras. Tantas que ele já havia perdido a conta ao longo da vida.

No início, ele não se importou. Estava acostumado. Aquilo era apenas o eco do que sempre ouviu dentro da própria mente. Era quase familiar.

Mas então percebeu algo que gelou seu sangue.

Ele não estava ouvindo a voz em sua mente.

Ele estava ouvindo sua voz fora dela.

Os sons vinham de todos os lados, como se o salão inteiro estivesse repetindo suas inseguranças. Era sua voz, mas distorcida pela dor, pela memória, pela repetição. Davi se apavorou. Como alguém poderia imitar tão perfeitamente sua voz? Como aquelas frases podiam soar tão internas e externas ao mesmo tempo?

“Confronte as palavras! Não se deixe levar pelos seus sentimentos antigos! Liberte-se dessas palavras, que não são a verdade!”

A voz de Lira ecoou ao longe, firme, mas sem se aproximar. Ela não podia interferir diretamente. O teste era dele.

Num primeiro momento, Davi rejeitou o que ela dizia. Achou que era mais uma ilusão, mais uma armadilha do salão. Talvez até a voz dela fosse falsa, projetada para confundi-lo.

Mas então algo mudou.

As frases começaram a vir acompanhadas de lembranças. Ele se lembrava de quando cada uma delas havia sido dita pela primeira vez — e por quem. Lembrava do tom, do contexto, da dor. E, ao revisitar essas memórias, percebeu que cada frase parecia menor. Menos verdadeira. Menos ligada a quem ele realmente era.

Ele começou a entender que era maior do que aquilo. Que aquelas palavras eram apenas fragmentos de um passado que tentaram impor a ele. Mas se libertar delas seria difícil.

Muito difícil.

Os inimigos ali presentes não tinham forma nem rosto. Eram feitos de memória. De lembranças. De tudo o que o feriu. As boas e as ruins. As envoltas em luz e as mergulhadas em trevas.

Sua mente se encheu de insegurança e medo. A ansiedade o paralisou. A culpa o esmagou. Davi se encolheu no chão, em posição fetal, tentando se proteger de algo que não tinha corpo, mas tinha força.

Mas, mesmo ali, no fundo do poço, ele sabia que aquilo não era real. Eram ecos. Eram restos de pessoas que não queriam que ele crescesse. Pessoas que o diminuíram para se sentirem maiores. Pessoas que tomaram seu espaço — e que, na maioria das vezes, conseguiram.

Mas hoje era diferente.

A sala transformava seus pensamentos em som. E ouvir aquilo externamente era devastador. Sua pele vibrava com cada palavra. Seus ouvidos recebiam o impacto. Sua mente decodificava tudo. Era impossível ignorar.

E foi então que Davi começou a lutar.

Ele confrontou cada frase com perguntas simples, mas poderosas:

“Se não sou suficiente, por que ainda sou chamado?”

“Se sou um erro desde que nasci, por que não fui eliminado?”

“Se as pessoas me aturam, é porque precisam de mim. E por que precisam? Eu sou especial? Eu sou necessário?”

“Eu não deveria estar dividido…”

A cada frase confrontada, um pequeno traço de luz surgia no espelho preso ao seu pingente. Era como se cada vitória interna limpasse um fragmento da névoa que o cobria.

Quando finalmente caiu de joelhos, arfando, exausto, o espelho já não estava tão opaco. Ainda não era cristalino, mas a turbidez havia diminuído. E, pela primeira vez em muito tempo, Davi sentiu algo diferente.

Ele se sentia mais inteiro.

Mais dono de si.

Como nunca antes.

Mas também estava cansado. Um cansaço profundo, quase espiritual.

Foi então que a luz voltou.

O salão escuro então se dissolveu, revelando um espaço oval, iluminado por janelas altas. Havia várias cadeiras dispostas em círculo, e Davi estava no centro, dentro de um círculo de conjuração. Lira estava sentada em uma das cadeiras, o observando com lágrimas nos olhos.

Ela tinha visto tudo. Tinha visto como seu coração estava ferido. Como sua mente estava quebrada. Mas também tinha visto o primeiro passo sendo dado.

As frases turvas que o aprisionavam haviam sido removidas.

Davi estava desacordado no chão — não por derrota, mas por exaustão. Ele havia gasto energia demais lutando contra anos de dor acumulada.

Ainda havia muito a enfrentar. Ele não sabia como aquilo terminaria. Mas sabia que não havia mais volta.

Ele nunca mais seria o mesmo.

Depois de algum tempo, recuperando forças, Davi abriu os olhos. O sol invadia o salão. As paredes de cristal deixavam a luz entrar com facilidade. Ele havia passado a noite inteira lutando contra seus demônios — e dormido ali mesmo, no chão.

“Eu fui bem?”, perguntou ele a Lira, com um tom quase infantil, como se esperasse uma recompensa.

E recebeu a melhor possível.

“Pode não ter sido o mais rápido, mas sem dúvida foi o mais efetivo.” Lira chorava abertamente agora. Ela sabia exatamente contra o que Davi lutava. Sabia que seria um processo longo, difícil e doloroso. Como vencer algo que o corroía há tantos anos?

Mas ele havia conseguido.

E isso a enchia de esperança.

“Agora podemos seguir para o próximo salão desta construção, Davi.”

1 Comentários

  1. Esse capitulo me fez chorar
    Tocou na minha alma

    As perguntas que Davi fez sãos as que faço a mim mesmo.

    Você me emocionou de verdade.

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