Cavaleiro Exorcista Spectrum-EX
O VELHO DO MATO
Escrito por Jeremias Alves Pires
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Parte I — O Sopro no Mato
Era uma noite escura, sem lua. Nuvens negras se moviam no céu como espíritos malignos enquanto o vento sussurrava maldições.
Na chácara dos Simões ninguém notava o mover das trevas em busca de uma alma inocente. Era o aniversário de cem anos de dona Gertrudes e a festa na chacarazinha da família, que tinha começado cedo, parecia desconhecer as horas, pretendendo virar dois ou três dias, terminando só quando não houvesse mais uma só gota para beber.
Alheia a tudo, mesmo sendo seu grande dia, Gertrudes olhava para o matagal escuro, como se algo lá estivesse olhando de volta para ela, algo que a fazia tremer de medo.
— Bisa… Qual é o problema? Aproveita a festa que tá boa demais… — Disse o jovem Gustavo, o único que parecia se preocupar com a doce velhinha.
— Ele tá lá… Não consigo ver, mas sei que ele está lá… — Gertrudes se encolheu toda.
— Quem, bisa ?
— O Velho do Mato… Essa é a noite que ele gosta de caçar. Não tem nem lua… Só tem treva. É mais fácil pra ele se esconder e levar a gente num sopro forte de vento, pra comer na toca dele…Pedaço por pedaço…
— Que isso, bisa? Não existe Velho do Mato … É só uma história que o povo conta pra assustar criança arteira .
— Tem muita moça bonita aqui… Ele gosta… A carne é firme… Macia… — Gertrudes forçava a vista cansada, pra ver algo na escuridão da mata, enquanto tremia.
— Gustavo, vem dançar comigo! Está tocando nosso forró… — Disse Lia, namorada de Gustavo, vindo buscá-lo.
— Bem… O dever me chama — Gustavo deu um beijo na testa de Gertrudes — Deixa essa conversa de Velho do Mato e vai aproveitar sua festa — Gustavo foi dançar com Lia.
— Moça bonita… Carne firme… — Gertrudes murmurou olhando para Lia.
Lia arrastou Gustavo não para uma simples dança, mas para compartilhar uma vida inteira, esse era o sentimento que queimava no peito de ambos. Sequer ouviam a música alegre que tocava, prestavam atenção somente um no outro, no calor que seus corpos emanavam.
— O que foi? Porque você está me olhando assim? — Lia olhava diretamente nos olhos de Gustavo.
— Estou pensando na sorte que tenho por ter encontrado você… Não consigo mais viver sem você…Fica comigo pra sempre? — A sinceridade na voz de Gustavo tocou Lia no fundo da alma.
— Meu coração sempre vai bater junto ao seu… Sempre… — Lia beijou Gustavo com desejo.
Continuaram ali por segundos eternos repletos de olhares e sorrisos. Lia abraçou Gustavo com força, deitando sua cabeça e seu peito, fechando os olhos, respirando fundo. Gustavo a envolveu fazendo juras de amor em pensamento. Quem estava em volta se comoveu e parou para admirar aquele amor jovem e intenso.
— Vamos dar uma escapada? — Gustavo sussurrou no ouvido de Lia.
— Safado… — Lia concordou com um sorriso malicioso.
Disfarçaram e foram pouco a pouco se afastando de todos, até sumirem um pouco no mato, para saciar o desejo que lhes ardia. Pararam quando chegaram em uma arvore, estavam perto o bastante para ver e ouvir os sons da festa, mas longe o bastante para ter o punhado de liberdade que precisavam para sua aventura.
— Nossa… Que escuro danado… Dá até medo… — Lia sentiu um arrepio na espinha
— Não se preocupe, vou proteger você…
— Vamos voltar, estou com uma sensação ruim.. — O tremor de Lia parecia aumentar.
— O que foi, está com medo do Velho do Mato? Você sabe que é só uma história, não é?
— Não sei… Tem muita gente que some nessa região… — Lia olhava para os lados, tentando enxergar naquela treva demoníaca que os cercava.
— Peguei vocês? Seus safados!!! — Um primo de Gustavo apareceu de repente, assustando o casal com a lanterna de seu celular.
— André!!! Sai daqui, você tá filmando? — Gustavo ficou furioso.
— Estou filmando sim e vou por no grupo da família… — André deu uns passos para trás, procurando um ângulo melhor.
— Me dá esse celular… Seu bêbado idiota!!! — Gustavo foi pra cima de André tentando tirar o celular de sua mão.
Gustavo sentiu um líquido quente jorrar em sua nuca enquanto o vento soprou forte, balançando as folhas da mata, como se um veículo em alta velocidade tivesse passado por ele.
— Lia?!!! — Gustavo gritou, sua amada havia desaparecido.
— Que merda foi essa? — André entrou em pânico.
Gustavo por intuição correu para dentro do mato, no sentido do soprar do vento. Correu desesperado, quando tropeçou pela primeira vez, notou que o líquido quente em sua nuca era sangue… O sangue de Lia.
— Meu Deus… O que é isso? Lia!!!! — Gustavo voltou a correr.
Não demorou muito os festeiros estavam com ele. Perguntando o que aconteceu, procurando por Lia em seguida. Foram diversas horas, para não achar nada. Gustavo se viu congelado em um pesadelo. Chamaram a polícia, que também buscou e nada achou, pelos sete dias que se seguiram.
Não havia explicação para o ocorrido e as coisas ficaram mais estranhas quando checaram o celular de André. Foi possível ver primeiro dois estranhos brilhos vermelhos, como se fossem olhos atrás da árvore…
Se passaram dias, semanas, depois meses. Chegaram a cogitar que Gustavo e o primo tinham matado Lia e escondido o corpo em algum lugar, o que obviamente não pode ser provado. A única pista era um par de olhos vermelhos, filmados sem querer.
Gustavo parou a vida nos meses que se seguiram. Tudo o que fazia era procurar na mata e beber, beber muito. Rapidamente se tornou não mais que um farrapo humano. Certo dia, caiu de joelhos no meio do mato mesmo, totalmente entregue ao desespero.
— Meu Deus… Por favor, me ajude! Eu não aguento mais… Me mostre pelo menos o corpo dela… Me ajude!!! Mande seus anjos em meu socorro, pois eu já não aguento mais… Não aguento mais… Não aguento. — Gustavo orou e chorou, totalmente entregue a providência divina, esperando que o céu lhe desse uma resposta.
Suas orações percorrem o cosmo e em algum lugar um guerreiro escolhido pelos anjos ouviu seu lamento…
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Parte II — O Chamado
Subsolo secreto da igreja de São Bento, em um bairro da zona leste de São Paulo. Leon, o cavaleiro lendário da Ordem da Luz, está dando aulas de tiro a Miguel dos Anjos, o herói conhecido como “Cavaleiro Exorcista Spectrum-EX”.
— Vamos lá Miguel, quanto mais você treinar com armas reais, melhor você materializa suas próprias armas e ainda fortalece sua habilidade de luta. Já treinamos com as katanas, agora vamos treinar com duas pistolas automáticas. Hoje vão ser duas Glock, uma das armas mais utilizadas do mundo e vistas nos filmes de ação que você tanto gosta.
— Certo, mestrão! Depois vou assistir uma série… Assim relaxo e ganho mais inspirações para minhas conjurações. — Miguel sorriu ao pensar em qual série do antigo acervo da “Rede Manchete” iria escolher. Com certeza um metal-heroe e depois um kamen rider.
Miguel revezava disparos com a mão direita e esquerda, depois com as duas mãos juntas, estava divertindo-se muito.
— Por favor… Socorro…
Uma voz se fez ouvir mesmo com o som dos disparos.
— Mestre… Você disse alguma coisa?
— Não, garoto. Foque no treino.
Miguel voltou a disparar, pensou que poderia ser só sua imaginação.
— Não aguento mais essa dor… Deus, por favor me ajude… Por favor!!!
Voz que terminou em um derramar de lágrimas desesperado dominou a mente de Miguel.
— Quem é você? O que você quer? — Miguel largou as armas.
— O que foi Miguel?
— Uma voz… Eu ouvi uma voz… Era um pedido de socorro…
— Não ignore… Deve ser a oração sincera de um coração aflito. Seu poder vem do anel “Lágrima dos Anjos”, lembra… Dos Anjos… Se concentre alguém está precisando de ajuda…
Miguel não fez mais perguntas, não apenas pelo profundo respeito que tinha por seu mestre e amigo, mas por ter sentido a aflição do pedido. Em sua mão direita, no dedo médio, a joia de topázio azul de seu anel de ouro branco, a “Lágrima dos Anjos”, começou a brilhar e Miguel ouviu…
— Por favor, Deus! Me ajude a encontrar nem que seja o corpo da minha noiva.. Me envie um de seus Anjos…
Miguel viu o jovem caido de joelhos no meio de um matagal, maltrapilho, do jeito que se fica quando se perde todas as esperanças, num choro sentido, emanando uma dor profunda que o tocava. Deu uns passos na direção do rapaz, mas antes que pudesse dizer algo… Um lobo negro gigante de olhos vermelhos saltou sobre ele e interrompeu a visão.
— Miguel, o que houve? — Leon segurou Miguel que tinha caído para trás, como num desmaio.
— Eu vi a pessoa que pediu ajuda… Parece que alguém está desaparecido… No final fui atacado por uma fera e perdi o elo… — Miguel se recompôs, sentindo uma forte dor de cabeça.
— Sabe quem é e onde ele está?
— Nossa… Eu sei sim… Sei até o nome dele e dá garota que desapareceu… Como? — Miguel estava confuso, duvidando um pouco de si.
— É a magia da Lágrima, você recebeu um “chamado arcano”. Uma alma boa orou ao céu e você é a resposta.
— Que coisa doida… Ele está em uma cidadezinha do interior… Vou para rodoviária agora mesmo.
Leon deu uma gargalhada que deixou Miguel sem graça. Leon então deu-lhe um ensinamento.
— Veja… Quando você faz esse tipo de ligação, pode simplesmente criar um portal até o local do pedido, percorrendo através do mundo espiritual uma grande distância física em segundos… Para fazer isso conjure um cavalo mágico que vai levá-lo correndo até lá.
— Legal… Mas ao invés do cavalo tenho uma ideia bem melhor… Moto-Spectrum apareça!!!
Um feixe de luz saiu da Lágrima dos Anjos, começou a rodopiar gerando um ciclone de luz que se transformou em um tipo de moto-foguete, parecida com as dos Metal-Heroes que Miguel tanto amava. “Meu Deus! Qual o limite dos poderes desse garoto? Nunca vi um cavaleiro materializar algo tão sofisticado e tão rápido”, Leon pensou, mas não disse nada, não queria inflar o ego de seu pupilo, que estava empolgado feito um menino vivendo o sonho de ser um herói.
— Bem, lá vou eu, mestre!
— Vá na sua forma de fantasma, imagine aparecer com um troço desse…
— Ok! — Miguel montou na moto e assumiu sua forma de fantasma, tornando invisível a si e a seu veículo. Então o portal se abriu e ele o atravessou a barreira entre o mundo dos vivos e dos mortos, para viver mais uma aventura.
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Parte III — De Joelhos
Miguel estava eufórico. Cruzar o mundo espiritual em sua “Moto-Spectrum”, era extraordinário. Era como viajar pelo espaço, do mesmo jeito que seus heróis faziam nas séries que tanto amava. Se estivesse no plano físico normal, certamente já teria se acidentado gravemente, mas no mundo espiritual passava até mesmo por dentro de edifícios inteiros, como se fosse uma bala. Era divertido, divertido demais.
Tinha na intuição o local exato de quem havia orado pedindo ajuda. Se tratava de uma cidadezinha a poucas horas da capital de São Paulo, na qual ele chegou em minutos. Logo estava na mata onde Gustavo estava ainda de joelhos, sem forças para se levantar, tomado por uma tristeza quase mortal.
Gustavo não percebeu a chegada de Miguel e nem poderia, uma vez que ele estava em seu “modo fantasma”. Miguel desceu da moto que se desfez em uma espiral de energia. O sentimento de diversão de ainda pouco havia sumido, já que a dor da alma de Gustavo emanava dele como se fosse gás venenoso.
Quando está em sua forma de fantasma, os sentidos espirituais de Miguel se amplificam, por conta disso sentia todo aquele sofrimento na própria alma, como se os tivesse vivido. Imagens de uma garota bonita dançando e depois desaparecendo, deixando só um jorrar de sangue planavam em sua mente.
Miguel cambaleou, quase perdeu a concentração, o que seria terrível. Ele passaria imediatamente para o plano físico, assustando Gustavo. Para resolver aquele problema, precisava dos dons mediúnicos da forma fantasma. Conteve as lágrimas que queriam rola em descontrole, respirou fundo e elevou seus pensamentos, tentando alcançar a dimensão em que vivem os anjos.
— Por favor, intercedam por essa alma sofredora. Deem-lhe paz… Abrandem seu sofrimento… — Miguel num movimento automático, como se estivesse sendo usado por forças superiores, estende as mãos sobre Gustavo e delas saem uma luz suave.
Gustavo começa a se sentir bem, como quem toma um remédio de gosto agradável.
— Quem está ai? — Gustavo sente que alguém está presente, alguém que ele não pode ver.
— Vá pra casa! Já chega por hoje… Descanse! Logo tudo estará resolvido! — Sem ser visto Miguel fala diretamente a mente de Gustavo.
— Esse mato dos infernos está mexendo com a minha cabeça… Melhor ir pra casa… Já chega por hoje… — Gustavo se levanta e apenas vai pra casa, tão leve que poderia cantarolar.
— Vá em paz, meu amigo! — Miguel acompanha o partir de Gustavo com um olhar protetor. É bem melhor para o rapaz não estar por perto. Pelo menos é o que ele sente ao fazer a leitura de uma outra energia que impregnava aquele lugar. Uma energia maléfica demais…
— Vingue-nos… Vingue-nos… Nós queremos justiça..
Miguel se vê cercado de almas perdidas, mergulhadas em ódio, seus corpos estão mutilados, revelando uma morte brutal. São corpos rasgados, cujas entranhas parecem ter sido devoradas.
— Me mostrem o que aconteceu com vocês!
Pensamento é a linguagem dos mortos. Aquela dezena de cadáveres, envia ao mesmo tempo para Miguel seus últimos momentos em vida.
— Argh… — Miguel sente sua garganta ser rasgada, mas não morre de imediato. Algo o carrega pelo mato numa velocidade absurda. Ele sente seu corpo ser jogado violentamente no chão, suas costelas se quebram. Tudo é escuro, ele não pode ver seu agressor, apenas sente seus dentes afiados arrancando sua carne. Pedaço por pedaço, Miguel é dilacerado, devorado…
Quando termina, Miguel está no chão em posição fetal, tremendo de dor. O sofrimento o fez passar para o plano material. É uma sorte que Gustavo está muito longe.
— O desgraçado que fez isso com vocês… Onde ele está? — Miguel exige que os mortos revelem seu alvo, voltando à forma fantasma. É hora de caçar…
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Parte IV — Justiça Final
Seguindo uma procissão de espíritos destroçados, Miguel, o Cavaleiro Exorcista Spectrum-EX foi sendo conduzido por dentro da mata. A cada passo o desejo de punir o responsável por aquelas mortes aumentava mais e mais. Ele faria justiça a qualquer custo.
A comunicação com os mortos, ainda mais os em estado tão lastimável como estavam aquelas almas, nunca é fácil. É como falar com pessoas em estado de demência, presas em pesadelos que se repetem. Nem sempre o que os mortos dizem é coerente, e sendo sua linguagem o pensamento, essa comunicação é uma troca de visões e sentimentos muitas vezes tenebrosos.
Spectrum estava conectado com diversas almas sofredoras ao mesmo tempo, de modo que era difícil distinguir seus próprios pensamentos. Não era possível saber quem ou o que era o assassino, já que os crimes foram todos cometidos na mais profunda escuridão, ele duvidava até que os mortos soubessem com exatidão o que lhes havia ceifado a vida. Tinham somente a memória de muita dor e desespero.
O adentrar da mata foi se tornando cada vez mais um andar para dentro de uma treva tenebrosa, que devora as cores, entregando no lugar um tipo de névoa não natural. Estava explicado o porquê de ninguém encontrar aquele mal, ele estava protegido por aquela névoa demoníaca, não natural.
O ar ficava cada vez mais pesado, mais fedido a morte. Ele estava chegando ao local onde as vítimas tinham sido abatidas e devoradas vivas com violência brutal. “Quantas vítimas você matou desgraçado? Quantas?”, Spectrum pensou, cerrando os punhos com força enquanto a Lágrima dos Anjos piscava, emitindo um sinal crescente de perigo.
Em dado momento viu um cemitério de covas e cruzes malfeitas, da onde se podia ouvir choros e lamentos, revelando que quem ali estava não descansava em paz. “Você vai pagar por cada gota de dor que impôs a essas almas, eu juro”, o espírito de luta de Spectrum estava a ponto de explodir.
A caminhada pelo cemitério não foi longa, mas foi significativa, eram muitas vítimas, logo ele viu uma cabana, tão mal construída quanto o cemitério, revelando serem feitas pela mesma “pessoa”. Ali onde ele estava entrando a luz era parca, como uma chama de vela lutando contra seu fim.
—Acabou, desgraçado!!! — Spectrum-EX chutou a porta, levando-a a baixo em pedaços. Continuava na forma de detetive, mas não estava na sua forma de fantasma, pois queria sentir seus punhos pulverizar o mal.
Parou por um instante ao ver uma adolescente bem vestida com blue jeans, tênis rosa e uma camiseta branca, abraçada a um idoso sinistro de cabelos e barba longa, vestido como um mendigo, muito sujo.
— Vovô, quem é esse? — A adolescente se encolheu toda de medo, escondendo o rosto por baixo dos cabelos longos e castanhos, como uma criança se escondendo debaixo de um lençol. Os olhos negros se arregalavam em pleno susto.
— Não se preocupe, minha querida Alice. Volte para cidade, seu avô tem que trabalhar. Você concorda com isso “herói”? Essa inocente é a última gota de humanidade que me resta na alma… — O Velho pediu com humildade.
— Por mim tudo bem… Começamos quando ela estiver longe… — Spectrum concordou.
— Vô, eu não quero ir… — A garota que demonstrava um comportamento carinhoso e infantil abraçou o velho com força.
— Vá, minha neta querida… Vai ficar tudo bem… É só trabalho, nada mais… — O velho beijou a testa da garota.
— Por favor, não mate meu avô, ele no fundo é uma boa pessoa… — Alice olhou bem no fundo dos olhos brilhantes de Spectrum que nada respondeu.
A garota saiu correndo, o velho e o detetive se encararam por alguns segundos.
— Bem… Posso saber seu nome? Me chamo Luiz Almeida de Albuquerque Souza, estou a seu dispor, meu jovem… — O velho fez uma reverência educada, mas debochada.
— Sou o “Cavaleiro Exorcista Spectrum-EX” e vou banir você desse mundo… Me diga porque você matou aquelas pessoas, porque matou Lia? Você tem ideia do sofrimento que causa? — Spectrum quase se engasgou de tanta raiva.
O velho olhou para o alto e respirou fundo, depressivo.
— Não é por escolha, eu garanto… É só a minha natureza… Eu apenas sinto fome e me alimento… Nada mais… — O velho começou a tremer.
— Acaba hoje, seu desgraçado! Eu juro que acaba hoje!!! — Spectrum fez pose de herói e conjurou sua armadura.
O velho começou a mudar, foi ficando maior, musculoso, enquanto o corpo se cobria de pelos. Surgiram garras em suas mãos e seu rosto se contorceu e formou uma cara de lobo, com olhos vermelhos em brasa, enquanto Spectrum materializava sua armadura prateada, elmo de visor único, capa vermelha com inscrições mágicas e com a Lágrima dos Anjos mudando de anel para um cinturão, em suas mãos suas armas favoritas surgiram, suas famosas Espadas-Pistola. A luta ia começar…
— Você vai se arrepender de ter vindo aqui… — O lobisomem foi o primeiro a se lançar.
O mover da fera foi tão rápido e forte que zuniu, enquanto uma pequena explosão de ar se fez quando seu pé tocou o chão. Spectrum foi atingido no peito e jogado para fora da cabana, atravessando a parede de madeira que pareceu atingida por uma bala de canhão.
— Nem doeu… — Spectrum se levantou rapidamente, fazendo disparos de energia arcana das espadas-pistolas.
O lobisomem se esquiva da maioria dos disparos, mas um atinge seu rosto, momentos antes de acertar Spectrum, mais uma vez. Spectrum aproveita esse momento e faz dois cortes verticais de cima para baixo no peito do Lobisomem, fazendo-o sangrar.
— Essa também não doeu… — O lobisomem abre mão do ataque de garras e simplesmente soca Spectrum no rosto, várias vezes…
Spectrum se joga para trás e faz dois disparos com suas armas, conseguindo atingir o lobo no estômago. Spectrum cambaleia, tonto pela sequência de golpes que recebeu, enquanto o lobo fica de joelhos por um instante, contendo o sangramento nos dois disparos que recebeu, assim como os cortes no peito.
— Já chega!!! — O lobisomem carrega seu próprio corpo com um grande volume de energia sombria.
O lobo começa a atacar Spectrum em supervelocidade, atingindo o herói de modo que ele não consegue ver seus movimentos. Os golpes, mesmo sendo absorvidos pela armadura que vibra e solta faíscas, são dolorosos. “Ele vai quebrar minha armadura, vai ser o meu fim… Tenho que reagir…”, Spectrum pensa em uma nova estratégia.
— Spectrum Aura-Trovão!!! — Saída da Lágrima dos Anjos no cinturão, uma corrente elétrica percorre todo o corpo do nosso herói.
Ao acertar novamente Spectrum, o lobo leva um choque que o faz parar, momento que o heroi aproveita para fazer vários cortes no corpo do monstro. Para se defender, o lobo emite um urro alto como uma bomba de som.
— Eu vou quebrar essa maldita armadura!!! — Outra vez o vilão troca o ataque de garras por socos rápidos, objetivando despedaçar e não rasgar.
A armadura de Spectrum começa a rasgar, ele então assume sua forma de fantasma para evitar ser mais atingido, no seu movimento de defesa absoluta. É inútil, o lobo faz um ataque de garras que o acerta, devolvendo-o para forma material.
— Seu idiota… Acha que é a primeira vez que mato um cavaleiro… Minhas garras são místicas… Sua forma de fantasma é inútil contra mim! Agora eu vou te rasgar todo!!!
Outro ataque de garras em supervelocidade acontece. “Não pode ser, eu vou perder… Vou morrer aqui…”, Spectrum começa a pensar nas almas das vítimas, no sofrimento de Gustavo… Então ele vê o fantasma de Lia, não todo esfolado como os outros, mas cheia de luz.
— Por favor, guerreiro, não desista… Lute por nós!!! — Lia tenta motivar Spectrum.
As almas das vítimas do Lobo começam a se juntar enquanto Spectrum é atacado. Elas emanam suas energias para o cavaleiro exorcista.
— Eu não vou desistir!!! — Uma onda de energia explode saindo do corpo carregado de Spectrum.
O lobo cai longe, esgotado. Usou todas as suas forças no último ataque e ainda recebeu o impacto de uma grande explosão.
— É hora de pagar monstro… Prepare-se para o seu fim… — Spectrum prepara suas armas para o golpe final.
— É isso aí… Aproveite esse momento… Me dê paz… Faça isso acabar… Apenas diga a Alice que eu a amo muito — O lobo fica de joelhos, pronto para morrer.
Spectrum para por um instante…
— Eu não vou hesitar… JUSTIÇA FINAL!!! — Spectrum-EX desfere dois golpes de espada, um vertical e um horizontal.
O lobo grita… Se retorce… Um tipo de fumaça preta sai pela sua boca, dissolvendo-se no ar…
— Mas o que é isso… A fera se foi… Eu estou livre… Obrigado — Agora liberto, Luiz começa a chorar.
— Você deu sorte… Se sua alma estivesse de acordo com os atos do lobo, você teria sido destruído. Meu trabalho acabou aqui… Seja feliz… — Spectrum desfaz sua armadura voltando a forma de detetive e depois se torna um fantasma.
Ao passar para o mundo dos espíritos, nosso herói vê as almas das vítimas serem envolvidas por uma luz suave, sendo finalmente levadas para um plano superior.
— Obrigado, cavaleiro… Diga ao Gustavo que eu o amo muito! — O espírito de Lia é o último a desaparecer.
— Moto-Spectrum!!! — Spectrum conjura sua moto-foguete e parte de volta para seu QG, o subsolo secreto da Igreja de São Bento.
Algumas horas depois…
— Então o “Justiça Final”, curou um lobisomem? Que coisa incrível e muito, mas muito rara.. — Leon se impressiona com o relato da missão.
— Pois é, eu também fiquei admirado… Ai…
— O que foi garoto?
— Meu braço direito, está doendo e tremendo, como se uma corrente elétrica passasse por ele… E eu sinto os pensamentos de Lia sobre mim… — Miguel passava a mão esquerda no braço direito, tentando banir a dor.
— Eu sei o que é isso, vou pegar papel e caneta… — Leon deixa Miguel por um instante sabendo exatamente o que fazer.
Dia seguinte…
Gustavo está em casa, ainda triste, mas não desesperado como antes. Está jogado no sofá, sem animo para nada. De repente alguém bate em sua porta e ele vai atender.
— O que você quer? — Ele pergunta ao homem parado em frente a ele, vestido como um detetive de filmes antigos, fazendo-o pensar que se trata de algum doido.
— Ela disse que te ama muito… — O homem entrega a ele um envelope.
— Mas o que é isso? — Gustavo apanhou o envelope, desviando sua atenção do homem que desaparece quando ele olha de volta.
Sem entender nada, ele volta para dentro de casa, senta-se de novo no sofá, abre o envelope e começa a chorar. Trata-se de uma carta de Lia:
“Meu querido Gustavo
Por favor, não chore mais por mim. Eu estou em um lugar muito bonito, sendo muito bem tratada. Não sinto dor e nem rancor, estou em paz. Guardo na lembrança eternamente nossa última dança, nosso último beijo. Por favor, viva por mim, volte a sonhar e realize seus sonhos. Vejo você daqui e sua tristeza me machuca. Sou e sempre serei apaixonada por seu sorriso, traga-o de volta, para que eu e você possamos seguir nossas jornadas. Um dia vamos nos encontrar e vou querer ouvir suas histórias, então tenha muitas para me contar.
Eternamente sua
Lia”
Mais do que palavras, a carta continha um tipo de energia que trouxe conforto a Gustavo e devolveu sua vontade de viver. O trabalho do Cavaleiro Exorcista, que é trazer paz à vivos e mortos, estava completo.
FIM










3 Comentários
Grande Jeremias!.
ResponderExcluirÉ muito bom vê-lo retornando à Mindstorm.
Como sempre, você, com textos sombrios , consegue emocionar, tocando no fundo da nossa alma falando sobre ass tragédias humanas, as quais estamos sujeitos, se não vigiados.
Spectrum-EX, casa vez mais sombrio.
Spectrum-EX, casa vez mais humano.
Adorei.
Opa... Muito obrigado... É bom estar de volta
ResponderExcluirMuito boa o conto. Gostei de ter sido separado em partes e ter postado tudo de uma vez, ficou muito bacana.
ResponderExcluirPrá mim o destaque foi o modo diferente de ter apresentado um lobisomem e a forma como o Spectum lidou com ele. Confesso que queria ter visto mais desse personagem, de como um lobisomem tão maligno mantinha a neta junto de si e ela, aparentemente, não via as monstruosidades causadas por ele, algo assim, com flashs postados aqui e ali, poderiam ter deixado mais impactante a revelação dele e a posterior ação do herói.
O final também, com a "carta do além" ficou muito tocante e bonito.
Meus parabéns cara. Mandou muito bem.