Quando não se enxerga a culpa.
Olá tokuleitores.
E vamos a mais um capítulo desse novo Metal Hero.
Aqui o foco será na detenta 012 e o que a levou até a mais segura prisão do mundo, preparando o terreno para o que virá nos próximos capítulos, tentando estabelecer o ritmo dessa obra.
Portanto, sem mais delongas...
Boa leitura!
Prisão Hades.
Sentença final #2.
Crime e castigo.
— Emma Laurent? Por favor, siga até o guichê número seis. Emma Laurent, guichê número 6.
O Paris Saint-Joseph Hospital não estaria nem nos primeiros cinquenta lugares onde ela queria estar naquele momento, mas era necessário, dizia para si mesma, pois com o resultado daqueles exames, ela poderia esfregar na cara das familiares e colegas de trabalho que ainda não havia engravidado, muito provavelmente, por causa dos ex-maridos e do atual.
Só podia ser isso.
— Sinto muito senhora Laurent, segundo todos os exames que fizemos, não há dúvidas quanto à infertilidade, mas podemos realizar novos e…
Sem dizer mais nada, nem sequer dar qualquer satisfação ao médico que a atendia, Emma se levantou de repente e foi embora, deixando-o falando sozinho.
Pelas ruas próximas do hospital, alguns transeuntes não conseguiram deixar de reparar na mulher que andava de cabeça baixa, uma das mãos segurando firme nos cabelos, murmurando baixinho.
“Ela parecia muito perturbada” algumas pessoas chegaram a dar entrevistas para televisão ou internet, quando o caso Laurent ganhou as principais manchetes do mundo.
Naquele momento, entretanto, quem quer que tivesse cruzado o caminho da mulher, apenas desviou dela, enquanto Emma seguia em frente, a cabeça num turbilhão de emoções que iam enevoando seus pensamentos.
“A culpa não pode ser minha. Eu sou perfeita. Não pode ser algo comigo. Esse doutorzinho de merda está errado.”
Seu celular vibrou, conforme soava o alarme para o horário de entrada do seu plantão na clínica e maternidade Clinique de la Vie, fazendo com que ela entrasse em modo automático, seguindo para seu trabalho como enfermeira.
— Bom dia Emma! Como vai? Hoje os pequeninos estão chorões.
Ignorando o cumprimento da recepcionista, a mulher, ainda sentindo seus pensamentos em um caos completo, logo se trocou e, numa tentativa inútil de se concentrar, começou a realizar, de forma completamente automática, suas funções.
— Nossa, como a Emma tá estranha hoje né?
— Você também reparou? Pelo jeito alguém não se divertiu na noite passada…
Ao ouvir, devidamente escondida, tal conversa entre duas colegas, a mulher começou a andar às cegas pela clínica, ela sentia um calor se espalhando por seu corpo, parecia febre, mas de um tipo que ela nunca sentira antes.
Os pensamentos estavam cada vez mais turvos, o ódio que sentia parecia criar uma névoa avermelhada diante de seus olhos, o sentimento de que estava sofrendo uma injustiça divina ia pesando cada vez mais.
“Não foi culpa minha.”
Lembranças iam inundando sua mente.
A morte “acidental” do peixinho da irmã, quando ela negou compartilhar uma boneca.
O empurrão dado em uma coleguinha da escola, depois dela insistir em permanecer no balanço após Emma dizer que queria ir no brinquedo, que resultou num braço quebrado.
Aos dez anos o cachorro do vizinho sumiu, justamente uma semana após mordiscar de leve a mão de Emma, quando ela quis fazer um carinho nele, mesmo com o dono avisando que ele não gostava de estranhos.
Já adulta, nem mesmo o desaparecimento da noiva de um ex namorado ficou tempo demais pesando em sua consciência, as imagens das bolhas de ar, que foram diminuindo gradativamente da superfície do lago, resultaram em pouco mais de cinco dias de um sono levemente agitado.
Os dois casamentos fracassados, antes do atual, terminaram com dois homens apresentando ferimentos profundos e ambos sendo mantidos fora do país, um silêncio não apenas comprado, mas forçado.
“Não foi culpa minha.”
Essa foi a verdade que Emma construiu para si mesma ao longo de uma vida cheia de violência e morte, por muitas vezes acobertada por seus pais, que fizeram de tudo para, segundo suas consciências pesadas, proteger sua filha.
— Não. Foi. Culpa. Minha!
O grito ecoou pelo corredor da clínica, vazio àquela hora, mas que foi ouvido pelos quinze recém-nascidos que estavam na maternidade, cuja porta foi esmurrada por Emma, durante seu ataque.
Ela permaneceu alguns instantes ali, parada, olhos injetados e com lágrimas a estragar sua maquiagem, dando a ilusão de que ela estava chorando um líquido preto.
Assim que entrou na sala onde as crianças continuavam a chorar, sentindo a típica calma que antecedia suas ações violentas do passado, Emma seguiu até um armário de instrumentos cirúrgicos e logo uma tesoura chamou sua atenção.
Um imenso sorriso surgiu em seu rosto.
Depois tudo ocorreu como borrões, onde ela só se lembrava da alegria de estar, segundo suas palavras, devolvendo ao mundo toda a injustiça cometida contra ela.
Quando terminou, um cansaço tomou conta de seu corpo e Emma só queria dormir, por isso se irritou quando uma de suas colegas entrou na sala e começou a gritar histericamente, atraindo uma verdadeira multidão até o local.
— Ah, por favor, você pode calar a porra da boca? Tô exausta.
Ela estava sentada no chão, o uniforme completamente vermelho e encharcado, em uma das mãos a tesoura e na outra, resquícios de um dos crimes mais horrendos da história de Paris.
O julgamento foi rápido e nada poderia impedir sua condenação, nem a influência dos pais ricos, nem a tentativa de conseguir alguma simpatia do júri, aparecendo com os hematomas resultantes de quando ela tentou agredir os policiais que foram chamados para prendê-la.
Sem conseguir chegar a um veredito satisfatório, graças à influência e intervenção de Theodore Zeus, o idealizador, principal financiador e coordenador da Prisão Hades, a justiça francesa entregou a criminosa, cuja identidade prisional passou a ser simplesmente 012.
No presente ela mal podia acreditar no que estava acontecendo, pois havia ido dormir em sua cela e agora fora jogada no que parecia ser uma arena, enquanto o detento 001 entrava no local por outra porta, tirava suas roupas, já a deixando preocupada com o que poderia acontecer.
Sua reação inicial foi esbravejar, ofender, colocar para fora toda a sua frustração pela, segundo sua visão distorcida dos fatos, injusta condenação.
Isso até que uma luz intensa surgiu às suas costas, chamando sua atenção, apenas para, quando ela se virou, mal ter tempo de gritar, pois logo uma massa avermelhada e amorfa atravessava um portal e caía sobre seu corpo.
A primeira sensação foi de estar mergulhada em algo que lembrava uma massa de pão, mas logo o nojo deu lugar ao desespero, quando sentiu primeiro um ardor se espalhar por sua pele, como se estivessem passando um ferro quente por todo seu corpo, logo sendo substituído pela sensação de que algo estava puxando sua carne, descolando-a dos ossos, que começaram a ser quebrados e reajustados em outras formas, a boca permanecia aberta em um grito mudo, conforme sua garganta foi sendo preenchida pela massa, dando-lhe uma sensação de vomitar, mas ao contrário, com uma queimação descendo por sua garganta.
Por fim as laterais de seu rosto pareciam liquefazer e se espalhar, conforme uma imensa criatura ia se erguendo, exibindo pernas pequenas e retesadas, tão musculosas quando os imensos braços, que iam se mexendo como quem testa os primeiros movimentos após um período de paralisação.
No lugar da cabeça apenas um amontoado de carne avermelhada, onde se destacava uma imensa boca sorridente, com alguns dentes amarelados que faziam par com uma energia que brilhava na ponta de um tentáculo brotando das costas da criatura.
O mais bizarro, entretanto, era que bem no meio do peito do monstro, estava o rosto de Emma Laurent, a detenta 012, congelado em uma expressão de agonia, a boca, muda, completamente aberta, olhos de onde escorriam lágrimas fartas e pouco mais de seis dedos de suas mãos, espalhados ao redor daquela face retorcida.
Ela havia sido convertida em uma Erínea, também conhecida como Fúria, uma criatura que enfrentaria o campeão de Hades, o Magistrado Íxion.
— Você sabe bem o caminho que trilhou até esse merecido castigo, 012, portanto, lembre-se de toda a dor que provocou, pois agora ela retorna para você.
A resposta do monstro foi agitar o tentáculo de suas costas e, ao apontá-lo para o homem de armadura, antes que ele conseguisse esboçar alguma reação, uma rajada de energia foi disparada, acertando-o em cheio.
Um som rouco e parecido com o de pedaços de metal em atrito, algo como uma risada diabólica, ecoou pela arena, conforme a criatura, com um andar cambaleante, se aproximava da imensa nuvem de poeira e detritos, resultante de seu ataque energético, pretendendo confirmar a morte de seu inimigo
— Dâmocles! Incendeie!
A névoa ainda se erguia pelo ar da arena, mas logo o monstro viu uma figura avançando em sua direção.
O Magistrado Íxion empunhava um objeto metálico, de forma cilíndrica, que emitia um brilho vindo de um triângulo localizado em uma das laterais e, segundos após ele dar a ordem, um pequeno foco de chamas azuis se projetou, primeiro como fogo descontrolado, mas, pouco a pouco, foi se concentrando, até formar uma lâmina brilhante.
A armadura exibia diversas rachaduras e partes quebradas, alguns pedaços haviam ficado para trás, principalmente dos antebraços, que o guerreiro havia conseguido erguer no último instante, antes do raio de energia o atingir.
— Isso acaba agora!
E, de fato, acabou.
Mas não do jeito exato que ele imaginara.













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