Loading....

Cavaleiro Exorcista Spectrum-EX A Sobrevivente


Escrito por Jeremias Alves Pires

Design por Kiko Mauriz


PARTE I: O CHAMADO



Tudo começou em uma noite, quando uma onda psíquica de sofrimento me atingiu, fazendo cada músculo do meu corpo queimar em um punhado de dores excruciantes. Foram tantas que quase perdi os sentidos.



Meus poderes de fantasma me tornam talvez o maior paranormal do planeta. Tenho uma sensibilidade fora do normal — mais uma maldição do que uma bênção.



Quando algo muito ruim acontece, mesmo que esteja longe, eu posso sentir. O sofrimento é uma onda que viaja pelo espaço como o sinal de um programa de TV macabro.



Mais do que ver… eu sinto o sofrimento das vítimas na minha própria carne.



Eu vi aranhas parecidas com tarântulas, envoltas em energia demoníaca, transformadas em pequenos monstros disformes.



Vi garras dilacerando carne.

Ossos sendo quebrados.



Uma mordida arrancou parte do meu rosto…



Foi terrível. Terrível demais para que eu possa descrever com exatidão.



Quando me refiz, a Lágrima dos Anjos, meu anel de magia arcana, sentindo meu sofrimento, revestiu meu corpo com minha armadura de prata com detalhes em ouro e a capa vermelha com inscrições antifeitiço — como se eu estivesse prestes a ser atacado.



— Miguel, o que está havendo? — Meu mestre Leon, o cavaleiro lendário, entrou no meu quarto com uma espada dourada em mãos, pronto para a batalha.



— Mestre, algo aconteceu… Fui atingido por uma onda de terror tão grande que forçou minha transformação.



— Nesse nível só pode ser algo grande. Já fez o rastreio do local? Consegue ir até lá?



— Sim. Eu já estava prestes a conjurar um túnel dimensional até lá… e meu veículo espectral.



— Boa missão, meu filho… — Meu mestre entende melhor do que eu mesmo que cada segundo pode ser a diferença entre vida e morte.



— Moto-Spectrum!!!



Ao meu comando, a Lágrima dos Anjos faz surgir uma moto futurista, no mesmo estilo de todos os meus conjuros. Um túnel dimensional se abre, ligando diretamente ao ponto de origem daquela onda de sofrimento.



— Como sempre exagerado… — meu mestre diz, e apesar da tensão, abre um pequeno sorriso.



Subo na moto e atravesso a barreira entre o mundo dos vivos e o dos mortos.



Menos de um minuto depois… chego ao destino da minha missão.



O lugar é afastado de tudo, sendo um sobrado mal construído, cercado de mato. O tipo de local onde pessoas com poucas condições viveriam, onde ninguém ouviria seus gritos de socorro, o tipo de lugar que as criaturas das trevas adoram… 



Estou a poucos metros do lugar e enquanto me aproximo o silêncio e o cheiro forte de sangue me dizem que já é tarde demais, isso me entristece demais, uma das partes boas do meu trabalho é salvar pessoas.



Em frente a casa vejo o primeiro corpo. Um homem de meia idade, deitado de barriga para baixo, pernas quebradas, pele das costas arrancada e há pequenas perfurações duplas por todo o corpo. As aranhas infernais podem não ser só uma alucinação, mas uma ameaça real. Preciso estar de prontidão.



Entrou na casa, estou na “sala”, encontro mais um corpo sentado no sofá, trata-se de um homem gordo, a barriga foi aberta e suas entranhas foram puxadas para fora, ele também está sem o lado esquerdo da face. Ele também tem diversas marcas do ataque das aranhas infernais. Temos um padrão diante do qual resolvo fazer uma modificação na minha armadura, adicionando mais placas, deixando cada pequena parte do meu corpo protegida. Vou perder velocidade, mas vou ganhar proteção. Posso ser atacado a qualquer minuto.



O próximo cômodo é a cozinha, onde há uma escada que leva para o segundo andar. Vejo o corpo do que parece ser uma senhora, jugo pelos cabelos brancos, sua cabeça foi esmagada e enfiada dentro de uma panela de pressão, outra vez vejo ferimentos da mordida das aranhas. Onde será que elas estão? Penso também na existência de um segundo monstro, alguém grande e forte, que se divertiu torturando as vítimas.



Com cautela subo as escadas, Espadas-pistola em punho, o combate está cada vez mais próximo. Vejo mais um corpo no corredor entre os dois possíveis quartos, parece ser um adolescente, fora o padrão dos ataques das aranhas, seus braços e pernas foram arrancados, não cortados num golpe rápido, dolorosamente arrancados e por fim sua cabeça foi virada para trás. O padrão está claro, ataque de aranhas seguido de ataque de brutamontes.



Por fim, restam os dois quartos cujas portas estão uma de frente para outra, assim que passar por uma, estarei de costas para outra. Que se dane! Escolho começar pela porta da direita. Não há ataque pelas costas, vejo mais um corpo, o de uma mulher jovem,jogada em cima de uma cama de casal,  toda marcada por mordidas de aranhas, com um buraco no peito, seu coração foi brutalmente arrancado.



Quanto horror! Quanta maldade! Vou punir quem quer que tenha feito isso! Chuto a porta do último quarto, ansioso para brigar.



— Ahhhh! Você me assustou… — Uma garota de por volta de dez anos parece acabar de acordar. Estava deitada no chão. Ela está com um vestido branco, abraçada com uma boneca horrível, há muito sangue ao redor dela.



— Você está bem, querida? — Perguntou olhando em volta, notando que não havia nenhum corpo naquele quarto.



— Estou com minha bubu… Está tudo bem… Quer brincar com a bubu? — Ela estica os braços, mostrando-me sua boneca tenebrosa.



Fico quieto, e se a boneca for amaldiçoada? Mas nada acontece… É só uma boneca e uma menina que sobreviveu de algum modo a um massacre sangrento. Como?



— Espere aqui, querida… — Após notar que milagrosamente a menina está bem, ando de novo pela casa, ando ao redor dela e nada.



Tendo terminado seu ato diabólico, o mal havia partido, deixando para trás uma menina e sua boneca monstro… Era o começo de um grande mistério.



PARTE II: ATOS DE BONDADE



Já se passaram sete dias. A garota passou por diversos exames, tanto físicos como espirituais, tudo parecia normal. 



A boneca apesar de horrenda, não passava de pano barato, velho e sujo, costurada por alguém com gosto duvidoso. A menina tinha sempre uma reação violenta quando alguém tentava tirar seu brinquedo pavoroso, sendo o único momento em que ela tinha alguma reação. 



A sobreviventezinha passava o tempo todo ausente, cantarolando e abraçando a tal “Bubu”. Interrogá-la era inútil… Eu tentei várias vezes, nunca deu em nada.



— Qual é seu nome mesmo, querida? — Eu sempre perguntava olhando-a direto no fundo dos olhos perdidos.



— Alice… Você quer brincar com a minha Bubu? — Como em todas as vezes, ela me oferecia a “Bubu”.



— Um dia desses, eu prometo! — Como sempre eu me despedia dela com um beijo na testa.



— Coração bom.. Um dia vamos brincar… — Ela fazia uma cara de decepcionada e voltava a abraçar a boneca. “Coração Bom”, é como ela sempre me chamava.



Ela foi escondida em uma casa de acolhimento da Ordem, para adultos, por precaução, foi resolvido que não era bom a pôr  junto de crianças, já que o mal do qual ela escapou podia voltar a qualquer momento.



A Ordem da Luz, na qual sou ordenado “Cavaleiro Exorcista”, sempre me surpreende com sua habilidade de acobertar as  coisas, com contatos tanto da imprensa como na polícia e até na política. O caso saiu na grande mídia como “Uma terrível chacina cometida pelo tráfico” e todo mundo engoliu. Afinal a casa fica num ponto isolado perto de uma comunidade. Sim, é preconceito, mas todo mundo aceita quando se junta as palavras pobre e violência.



No meu universo, é comum demônios cruzarem a fronteira entre nossos mundos por um instante, se divertirem fazendo algo terrível, desaparecendo a seguir. Tudo devido a falhas temporárias entre as dimensões. 



Às vezes, nós cavaleiros conseguimos sentir e impedir, outras vezes, como no caso da pequena sobrevivente… Apenas fazemos o trabalho de limpeza… Foi decidido que se tratava de um caso desses… Eu não aceito… A coisa ainda está lá fora e vai matar de novo. Eu não vou deixar. Vou continuar investigando e vou banir mais esse mal desse mundo…



Nos dias que se passaram, voltei à comunidade e com meus poderes de fantasma sondei a mente dos moradores procurando toda informação possível. Já tenho as que consegui com a polícia. Conheço todas as vítimas. Tenho os nomes completos, idade, e sei também que todos foram envenenados por uma substância desconhecida, que não tem efeito mortal, apenas paralisante. A morte veio depois… Quando não podiam mais se mexer, se defender, foram brutalmente dilaceradas. Quem fez se divertiu no processo, com certeza.



Com a mente dos moradores descobri que a família apesar de viver isolada era querida na comunidade. Pessoas do bem que um dia encontraram uma garota perdida e resolveram cuidar. 



Nos parece estranho, mas naquela região carente, muitas famílias eram formadas assim. Acostumados a histórias tristes, nunca se perguntava dá onde tinha vindo o acolhido, ou quem o tinha abandonado. Eram muitas crianças nessa situação… Alguém ficava com pena, dava comida e dormida por um dia, que virava uma semana, que virava uma família pra sempre. 



Nos dias que passei vagando pela comunidade na minha forma de fantasma, lendo mentes, vi muitas histórias de amor como essa, confesso que cheguei a perder o meu foco. Foi quando encontrei dona Glória, a amiga mais próxima das vítimas. A recordação da última visita antes do crime foi reveladora. Narrarei a seguir.



Era um final de tarde alegre. Glória chegou trazendo consigo uma sacola com dois pacotes de arroz e um de feijão, sobra de uma sexta básica que havia ganho. 



— Joana! Você tá em casa? — Glória gritou, meio escandalosa.



— Eita… Boa tarde quase noite, minha amiga! — Joana veio atender com um sorriso no rosto, cheirando ao tempero forte típico de sua culinária.



— Trouxe umas coisinhas pra você, tô sabendo que você pegou uma menina…



— Num peguei, mulher. Ela tá lá no quarto, vamos lá pra você conhecer…



Glória foi entrando sem cerimônia, na sala viu João brigando como sempre com Davi.



— Davi, seu preguiçoso… Quando você vai se mexer e procurar um emprego? Só fica sentado nesse sofá, engordando e vendo TV, nem vira o rosto pra falar com a gente… Estou cansado de levar vocês nas costas… — Seu João estava vermelho e gesticulava como se estivesse em um palanque,  a cena era rotineira e até engraçada.



— Boa tarde, Dona Glória! — Disse Davi, sorrindo amigável para dona Glória, ignorando o pai.



— Boa tarde, Davi. Você precisa arranjar um trabalho, menino, afinal você é o que mais come aqui… — Glória falou em tom de brincadeira, fazendo cócegas na barrigona de Davi, que ria como criança, amava Dona Glória.

— É o que eu falo, Dona Glória… É o que eu falo, mas é tudo nas minhas costas… Tudo nas minhas costas… — Reclamou João, passando a mão na cabeça.



— Vem Glória, deixa os dois aí brigando… — Joana puxou Glória.



Na cozinha, alguém fuçava as panelas, cheirando a comida.



— Nossa, Henrique… Você não perde essa mania, mesmo. Faz isso desde pequeno… — Glória assustou Henrique, que deu um pequeno pulo.



— Oi… Dona Glória… É que bateu uma fome… Fico de cabeça virada quando estou com fome… — Henrique abraçou Glória com força.



— Chega de fuleragem, vai lá pra cima varrer os quartos! — Ordenou Joana que foi imediatamente atendida.



— Como esse menino cresceu? — Reparou Glória.



— A gente chama ele de espichadão… Ele fica furioso…



Glória e Joana começam a rir, quando de repente mais alguém chega com sacolas de mercado. 



— Nossa, também quero saber qual é a graça… — Rebeca coloca as sacolas de lado e abraça a visita com carinho.



— Rebeca, Rebeca, a menina do coração de ouro… Amo tanto você. — Glória dá um beijo demorado na testa da jovem.



— A Bubu, também quer beijo da mulher de orelhão… — Alice chega de surpresa e puxa o vestido de Glória.



— Olha… Você deve ser o novo membro da família! Mulher de Orelhão? — Glória faz carinho na cabeça de Alice, olhando com estranheza para a boneca Bubu.



— Desculpa, Glória! Ela faz isso com todo mundo, nunca chama a gente pelo nome, eu sou a mulher do cabeção, você acredita? — Joana acaba fazendo todos rirem de novo.



— Verdade, Dona Glória. Cada um de nós tem um apelido. Eu sou a “Coração Grande”! — Rebeca coloca as mãos na cintura e dá uma volta.



— Que chique… E os outros? — Glória pergunta pronta para rir mais.



— Bem, o João é o “Tudo nas costas”, o Davi o “Barrigão” e o Henrique, adivinha, o “Espichado”... — Joana responde gargalhando.



— Me diz uma coisa, vocês deram essa boneca… Linda… pra ela? — Glória faz uma careta.



— Não… Já estava com ela quando ela apareceu… — Joana volta no tempo — Era noite, o céu estava fechado, ia cair o maior toró… Fui tirar a roupa do Varal… Caiu um raio… Eu me assustei e de repente, ela estava lá… Olhando pra mim, segurando essa boneca… Procuramos por toda parte alguém que conhecesse ela e nada… E assim ela está aqui até hoje… 



— E ela não fala de onde veio? — Perguntou Glória, um pouco assustada



— Só diz que vem de longe… Quando perguntamos do pai e da mãe, ela diz que não tem…



Não sei dizer se isso aconteceu um dia ou mais antes das mortes e quanto às memórias dos mortos, elas são confusas, não sendo mais que um pesadelo doloroso. Meu próximo passo é sondar o mundo espiritual e tentar interrogar mais uma vez as vítimas do massacre. 



PARTE III: COISAS DE OUTRO LUGAR



O que estou fazendo não é ético, os mortos não devem ser perturbados, mas preciso solucionar esse caso. 



Voltei para o subsolo da pequena igreja na zona leste, onde costumo descansar e interajo com meu mestre. Mesmo conseguindo passar dias na forma de fantasma, uma hora preciso voltar ao normal para repor minhas forças. 



Estou sozinho, faço uma refeição, caio em um sono sem sonhos de algumas poucas horas. É importante que eu esteja totalmente forte, pois dessa vez, quando voltar a minha forma de fantasma, não vou vagar pelo mundo dos vivos, vou viajar pelo plano astral, o que é mais cansativo. Pretendo visitar as zonas superiores, em especial o hospital espiritual onde devem estar as vítimas do massacre.



Ainda estou na minha forma normal, quando começo a fazer uma prece. Penso nas vítimas, mas não em seus corpos destroçados, o foco é a imagem de quando estavam vivos e eram uma família feliz. O que estou fazendo não é uma invocação, ao contrário eu irei até eles, assim que conseguir me sintonizar. Invocações são perigosas, podem deixar portas abertas… 



Até que acontece rápido, talvez por eu estar tão envolvido com o caso. Passo para minha forma de fantasma e me deixo levar por fios dourados. A ligação é tão suave que se eu perder a concentração ela se desfaria facilmente. Sinto como se estivesse flutuando pelo espaço, de repente estou sobrevoando uma cidade espiritual linda que emana um nível alto de energias de cura. 



— Viajante, por favor espere! Sei quem você é e sei o que veio fazer… — Sou abordado por um espírito de alta luz, ele lembra um tipo de médico.



— Olá, qual é o problema? — Pergunto de modo educado, não podendo falar de outro modo com alguém que emana tanto amor.



— As pessoas com quem você quer falar estão em um estado de sono profundo de reparo que não pode ser perturbado pelos próximos seis meses.



— Eles estão bem?



— Estão sim, e vão ficar totalmente recuperados e provavelmente serão acolhidos aqui mesmo na comunidade.



— Entendo e não quero atrapalhar, mas preciso falar com eles… Preciso de mais pistas sobre o que os matou…



— O que passou na terra passou, não podemos fazer nada que atrapalhe a próxima jornada que eles vão seguir… Você pode nos visitar quando quiser, mas não com essa intenção…



— Eu preciso saber o que os matou, meu amigo. Só assim vou poder evitar mais mortes violentas. Como você já deve saber… Sou um Cavaleiro Exorcista na terra… Tenho obrigações…



— Sinto muito, mas… Nem nós sabemos que coisa terrível causou algo tão brutal…



— Como é? Como assim vocês não sabem?



Ficamos em silêncio por um segundo. O iluminado está pensando no que me dizer, pois já falou além do permitido.



— Por favor, preciso parar o que quer que seja… Apenas me diga o que você sabe! — Peço humildemente.



— Está bem… Mas você tem que me prometer que vai deixar a família em paz…



— Fechado..



— Como você sabe, as memórias deles são um pesadelo de dor indecifrável… Isso acontece em parte por causa do veneno… Uma substância que eu nunca vi… Algo que não é nem da terra, nem do inferno…



— Como isso é possível?



— Nosso universo é imenso… Pode ser de um milhão de lugares que desconhecemos, ou até de outro universo… Você precisa estar preparado pra tudo. Pegue isso! — Ele me entrega um frasco.



— O que é isso?



— É um antídoto criado por mim, funciona tanto no plano físico como no espiritual. É tudo que posso fazer por você… Agora volte para terra, por favor.



— Qual é o seu nome?



— Ah, sim… Eu nem mesmo me apresentei, me chame de André… Todos aqui me chamam assim. Sou o dirigente geral da colônia. Muito prazer! — O ser de luz me estende a mão e sorri — Desculpe ter sido tão rude, nós aqui também estamos muito tensos com esse caso…



— Eu entendo… Você me ajudou bastante, espero que não tenha te causado nenhum problema… — Aperto a mão dele e me preparo para partir.



— Apenas ajude o máximo de pessoas que puder… E por fim não se esqueça, se de um lado existem seres das trevas que querem o mal, do outro lado, em equilíbrio há os que vivem na luz, cheios de amor com quem sempre podemos contar…



Começo a voltar para terra, para a minha forma normal, meu coração está em profunda agonia… Estou mais cheio de dúvidas do que de respostas. Vou interrogar a garota pela última vez…




PARTE IV: CONFRONTO DIRETO



A Ordem da Luz combate o mal em todas as suas formas, por isso ela tem lugares onde se prática a caridade, onde os necessitados são acolhidos. Alice foi enviada para um desses lugares, um lugar pequeno que abriga pouco mais de cem pessoas, todos adultos, não se considerou seguro enviá-la para um local com crianças. “Abrigo Coração de Luz” é o nome do lugar. Trata-se de uma antiga pensão, foi totalmente reformada. 



Cada quarto abriga até quatro pessoas de maneira confortável. São todas pessoas que perderam tudo na vida e precisam de uma força para recomeçar. Por coisas assim é que acredito na ordem… Voltando ao assunto, Alice está num quarto com uma mulher que perdeu uma filha em um incêndio. Ela foi escolhida de propósito, para que se tivesse certeza que Alice seria bem tratada.



Assumo minha forma normal e assumo a identidade de um dos responsáveis pelo abrigo.



— Bom dia, Dona Ana! Sou o Miguel, vim ver como está nossa hospede… — Me apresento a doce senhora que me recebe na porta.



— Ah… Bom dia… Tinham me avisado que alguém vinha ver a princesinha. Pode entrar.



Assim como todos os apartamentos, aquele é pequeno mas ajeitadinho, feito para parecer um lar de verdade e não um lugar temporário. Alice está sentada no sofá de frente a televisão, olhar inocente, perdido, a boneca horrorosa jogada ao seu lado, como um demônio da guarda… 



— Oi Alice… — Me dirijo logo a ela.



— Coração Bom… Você demorou? — Alice me olha no fundo dos olhos com um lindo e suave sorriso, me reconhecendo quando não deveria. Ela me viu somente como Spectrum-EX…



— Como ela tem se comportado, Dona Ana? — Me volto a Ana, tentando parecer que não fiquei surpreso.



— Eu e a “Mão Grande”, nos damos muito bem… — Alice responde e dá uma risadinha.



— Essa menina… Nunca me chama pelo nome e dá apelidos para todo mundo. Fez isso aqui no prédio todo. Você acredita? — Ana sorri, sem notar o arrepio na minha espinha.



Todas as vítimas receberam apelidos sobre partes do corpo que foram arrancadas enquanto elas estavam vivas e imóveis por causa de um tipo de veneno. A história estava se repetindo.



— Dona Ana… A senhora poderia dar uma volta? Quero falar só com a nossa pequena princesa… — Falo com Ana, usando um pouco dos poderes de fantasma para hipnotizá-la temporariamente. 



— Claaaro… Já volto… — Ela parte como um zumbi.



Eu espero que ela saia… Então visto minha armadura…



— Tá legal… Chega dessa farsa!!! Vem me encarar!!! Sua criatura imunda!!! — Conjuro minhas “Sword-Pistols” e provoco a besta.



— Hahaha… Coração Bom, você é divertido… Sabe fazer truques… — Alice bate palmas.



— Revele-se agora!!! — A cruz no peitoral da minha armadura se ilumina.



— Que luz bonita!!! Amei!!! Amei!!!



Não pode ser, que tipo de coisa estou encarando? 



— Bubu… Vem brincar?! — Faço disparos laser na Bubu, abrindo vários buracos nela.



Alice fica séria, baixa a cabeça e então… Gargalha.



— A Bubu… A Bubu tem buracos… hahahahah. Coração Bom é divertido… Hahahaha…



— Anda logo!!! Vem brigar!!! —  Continuo provocando.



Alice se levanta e me encara.



— A Bubu quer brincar, mas não com você… Ela quer brincar com a Mulher do Orelhão…



É a vez da Bubu se levantar, como se tivesse vida própria. Me dá um tchauzinho e some…



— Anda… Vai lá… Seu lerdo… Hahahahahaha… — Alice me mostra a língua.



— A comunidade… Que droga!!! — Conjuro minha moto-foguete, um portal e parto para salvar vidas… Chegou a hora da batalha final…



PARTE V: MULHER-BONECA



Dona Glória estava voltando para casa, fez faxina o dia todo, estava exausta. As ruas da comunidade estavam escuras, meio desertas, ela estava com um certo medo, mas como conhecia todo mundo, ficou tranquila. Lembrou de Joana e João, da morte terrível que tiveram e se perguntou como alguém poderia fazer aquilo.



— Só pode ser coisa do cão… — Pensou em voz alta.



Um arrepio a tomou, veio uma pequena onda de terror. Se ao menos houvesse mais gente na rua, um nóia que fosse, mas não havia ninguém. De repente algo mordeu sua perna esquerda. A dor insuportável a fez cair, ficar molenga. Ela viu a primeira aranha monstruosa, do tamanho de um cachorro. Não consegui gritar, estava paralisada. Vieram mais duas, três, quatro aranhas. Subiram em seu corpo, começaram a picar mais e mais…



— Gargh… — Emitiu um som estranho na tentativa de pedir socorro.



— Eu quero suas orelhas… Eu quero suas orelhas… — Brotando de uma sombra no chão, surgiu a “Mulher-Boneca”, um brinquedo do tamanho de uma pessoa de quem as intenções assassinas envenenavam o ar. 



— GARGH… GARGH… — Ela estava indefesa, podia apenas esperar pelo seu final. Reconheceu a Mulher-Boneca, era o brinquedo de Alice, o maldito brinquedo, mas do tamanho de uma pessoa.



As aranhas foram abrindo caminho. A Mulher-Boneca esticou os braços e foi pegando o alvo de seus desejos, as orelhas de Glória.



— GAAARRGH… — Glória começou a sentir as orelhas sendo puxadas, numa dor agonizante.



— SPECTRUM PUNCH!!! — Para sorte da Glória eu cheguei a tempo. Acertei a “Mulher-Boneca” com um soco carregado de energia, jogando-a para longe.



As aranhas voltam a se aproximar, mas dessa vez envolvo a mim e a Dona Glória em uma esfera de luz e voamos um pouco mais para frente, numa posição estratégica vantajosa para mim.

— Calma senhora, vai ficar tudo bem! — Materializo uma seringa com o antídoto criado por André.



O efeito do antídoto é muito rápido, Dona Glória começa a se sentir melhor a ponto de poder correr.



— Anda logo! Vai embora daqui! — Ordeno a Dona Glória que foge como uma garota de vinte anos.



— Minhas orelhas!!! Peguem!!! — A Mulher-Boneca grita cheia de ódio.



— SPECTRUM GUNBLADES!!! — Conjuro minhas armas favoritas e começo a disparar feixes de luz.



As aranhas monstro, são muitas, mas pego todas e ainda acerto a Mulher-Boneca duas vezes, que não cai…



— Você não pode estragar a brincadeira! — A Mulher-Boneca faz surgir nas pontas de cada dedo, lâminas de pelo menos dez centímetros.



Faço disparos dos quais minha inimiga se esquiva com um tipo de dança. De repente sou atingido por dois golpes de garras, finalizados com um chute. A maldita sabe lutar.



Mudo o meu foco de combate para as minhas próprias lâminas e começamos a trocar golpes. Eu abro rasgos na boneca, enquanto ela atinge as placas da minha armadura, fazendo soltar faíscas. Não sou cortado, mas cada golpe é uma pancada forte e dolorosa. 



De repente a Mulher-Boneca cospe um belo punhado de pequenas aranhas, bem no meu rosto. Isso me distrai por um instante, o que me leva a ser atingido por dois fortes golpes de garras, que me jogam para trás.



As pequenas aranhas começam a percorrer meu corpo, procurando frestas na minha armadura, enquanto a Mulher-Boneca avança.



— SPECTRUM AURA-TROVÃO!!! — Conjuro uma aura elétrica, cujo choque queima as aranhas e as joga longe, também atingindo a Mulher-Boneca, assim que a lâmina dela acerta meu corpo.



Num golpe rápido, corto fora o braço direito da Mulher-Boneca.  Ela se defende dos meus outros golpes por um segundo, mas logo também perde o braço esquerdo. Finalizo com um golpe giratório que a decapita. Sou o vencedor…



— Você quebrou a Bubu… Maldito!!! — A voz de Alice vem de lugar nenhum, sendo um eco emocional, vindo do coração distorcido de uma criança perversa, muito perversa…



O vento começa a soprar forte, quase como se fosse me empurrar para trás. Ouço patas batendo rápido no chão, antes de ver pequenos malditos olhos me encarando de novo, brotando do chão calmamente, me dizendo que assim poderia ser por toda a eternidade. 



A Mulher-Boneca, sem cabeça, sem braços se levanta. Nasce outra cabeça, outros braços. Mais delas também brotam do chão. Pelo menos dez. Me encarando com um largo sorriso.



Estou cercado por Mulheres-Boneca, por aranhas.



— A mamãe vai vir… A mamãe vai vir.. — As mulheres-boneca dizem em uma só voz enquanto as aranhas se agitam, como se estivessem comemorando.



— Coração bom… Você é muito levado…



Olho para trás e vejo Alice, olhos brilhando, cabeça mexendo de um lado para outro de modo perturbador, como se uma corrente elétrica estivesse percorrendo seu corpo. 



— Mamãe vai bater! Mamãe vai bater! — Gritam as bonecas.



Alice começa a esticar seu corpo de um modo distorcido, até ficar no dobro do meu tamanho. Dedos se transformam em garras, dentes humanos se tornam pontiagudos, os olhos ficam vermelhos como brasas.

As luzes das casas acendem, pessoas começam a vir ver o que está acontecendo. 



— Vamos brincar com todo mundo… Todo mundo!!! — Alice monstro com sua voz grotesca ordena.



— Não vou deixar!!! — corro na direção da Boss para atacá-la. 



Nem mesmo vejo quando ela me acerta, apenas caio longe.

 

Pessoas começam a gritar. As aranhas invadem as casas, seguidas pelas bonecas. Tudo vira um inferno, mais do que minha própria vida, tenho que salvar a comunidade.



— Eu já disse, não vou deixar você fazer mal às pessoas! — Faço disparos de laser precisos na Alice monstro.



Alice some. Reaparece atrás de mim. Recebo um golpe que me joga pra frente. Levanto. Ela ressurge atrás de mim e me golpeia de novo. Me transformo em uma “bola”, com a qual ela brinca feliz. 



— Ai, minha mão… Desgraçado! — Conjuro novamente minha “Aura-Trovão”, dando um choque em Alice e me livrando daquela situação.



Estou tonto, a armadura começa a apresentar pequenas rachaduras, se ela quebrar de vez, estou morto. Por baixo dela sou apenas um simples e mortal humano. Não posso ficar apanhando. Preciso ir além dos meus limites. Acompanhar a velocidade dos ataques dela.



— Coração Bom… Você é um chato!!!! — Ela vem pra cima de mim com tudo.



Consigo me esquivar uma, duas vezes.



— Para de pular… SEU CHATO!!!! — Ela se irrita, abre a guarda.



— Você acha que isso é uma brincadeira? — Consigo fazer dois cortes nela e um disparo de laser. Ela cai para trás e fica de joelhos.



— Oxi, claro que é… Isso é só diversão… Não é? — Alice parece confusa por um instante.



— Alice… O que você está fazendo é muito feio… Muito mal… Você tem que parar agora!



— Alice não é má… Alice só se diverte!!! SÓ SE DIVERTE!!!



Ao ser chamada de má, Alice perde o controle. Consigo me esquivar só mais uma vez, o golpe seguinte me acerta com tanta força que saio fazendo um rasgo no chão.



— Coração Bom é irritante! — Alice salta sobre mim.



Assumo minha forma de fantasma e acabo escapando. Alice começa a dar murros no vazio, procurando por mim. 



Fico planando no ar, sem ser visto, sem poder ser tocado. O certo seria fugir, buscar reforços, mas vejo as bonecas e aranhas atormentando as pessoas e quanto a Alice? Quantas vítimas ela faria antes do meu retorno? 



Tenho que voltar ao combate, mas o que posso fazer? Minha armadura está se quebrando, estou com tão pouca energia que mal posso manter minha forma de fantasma. Preciso me acalmar… Preciso pensar! Pense cavaleiro, pense!



A conversa com André me vem à cabeça. Ele disse que não existem só os povos das trevas, existem muitos seres de luz que querem nosso bem… É isso… Não sou um simples cavaleiro de uma ordem qualquer, sou um representante dos “anjos”. Esse é meu verdadeiro poder… Fecho os olhos e rezo. Expulso o medo, todas minhas preocupações. Sinto uma nova onda de energia chegar até mim, energia arcana. A armadura brilha, se recupera. Estou renovado, não, estou mais forte.



A energia nova é muito forte, difícil de controlar. Preciso dar a ela uma forma, uma espada gigante, uma “zanbatou”, como nos meus queridos animes.



Volto a forma material, diante da Alice monstro. Antes que ela possa fazer algum movimento, faço nela dois cortes de energia, um horizontal e um vertical.



— Não, não, não, não!!! — Alice grita, voltando a ser uma menina, aranhas e bonecas desaparecem.



Encaro Alice que está sentada no chão, chorando, ela já não é mais um monstro. Apenas uma criança. Eu deveria destruí-la, mas não posso.



— Alice, malvada! Está de castigo! Você fez uma coisa muito feia… Muito feia!



— Coração bom, está bravo comigo?



— Muito bravo!



Alice começa a chorar ainda mais. Chego a ter pena.



— Eu não quero mais brincar… Não quero mais ficar aqui… Pai, vem me buscar!!!



Um calafrio percorreu meu corpo. Atrás de Alice um portal se abre. Uma criatura metade homem, metade aranha surge. 



— Oi, você é a babá? 



— Eu? Babá?



— Tanto faz, vem princesa, sua mãe está doida atrás de você, é o segundo século que você escapa.



— Tchau, Coração Bom… Dá próxima vez eu vou vencer. — Alice assume sua forma de “Criança Aranha”.



— É… Tchau…



— Seu serviço de babá é muito bom. Nunca vi ela tão cansada. Espero que ela não tenha causado problemas demais nesse mundo. Ela costuma fazer uma sujeirada… Adeus, vou garantir que ela não volte mais.--- Alice e o outro aracno atravessam o portal, que se fecha num piscar de olhos.



Já se passaram três dias. A ordem conseguiu apagar a memória dos moradores que se envolveram na batalha, e tratar de seu bem estar. Felizmente, ninguém morreu. Ainda não acredito no que aconteceu… Contra o que foi que eu lutei? Existem mais no nosso mundo? E se ela voltar? Como assim ela era uma criança, e se eu tiver que lutar com um adulto? Espero que o tempo não responda essas perguntas…



FIM?


0 Comentários