— Festejem meus filhos! A Torre da Luz caiu e agora sim poderemos dominar completamente essa ilha e, em pouco tempo, estenderemos nossas trevas ao redor do restante do mundo!
Lorde Gaki estava sentado em um trono feito de ossos humanos, adornado com dezenas de crânios em suas extremidades, um deles na ponta de um dos braços, onde o mestre e senhor dos vampiros ficava passando lentamente a comprida unha do dedo indicador da mão direita.
Pequenos sulcos já haviam se formado no tampo ósseo, mostrando o costume do monstro de ficar desenhando círculos no alto daquela caveira, de uma forma que, ele acreditava, ninguém era capaz de perceber.
Era assim que ele lidava com o stress e a pressão de ter finalmente saído do imaginário humano, do campo das lendas, para o mundo real e, indo além dos sonhos de qualquer ser da sua espécie, estava prestes a realizar seu primeiro grande objetivo.
— Mas mestre, nós eliminamos a ameaça dos humanos que usavam a tal torre como esconderijo, mas e os robôs protetores? Eles ainda estão por aí e, com certeza, não deixarão a queda da torre sem uma retaliação.
A resposta foi um ataque repentino, quando Gaki saltou de seu trono, cobriu a distância que o separava de seu servo e, sem dar chance alguma para que ele se defendesse, agarrou sua garganta e apertou.
O vampiro foi erguido do chão, tentava se libertar segurando e apertando o pulso de seu mestre, mas sua força era nada diante da apresentada pelo outro, que seguia tentando fechar o punho, enquanto não largava do pescoço.
Todos os presentes pararam de festejar, mantendo seus olhares avermelhados fixos no conflito que se desenrolava, todos antecipando qual seria o resultado.
Resultado esse que se revelou surpreendentemente rápido, quando Gaki finalmente conseguiu fechar o punho, ficando com parte da traqueia de seu servo, que ele jogou fora, enquanto o corpo caía para trás lentamente.
Antes mesmo de tocar as costas no chão, o pescoço do vampiro já estava em avançado estado de recuperação, tal injúria mal o manteria fora de ação por algumas horas, quando sua consciência voltaria, junto com a lição de nunca interferir na diversão de seu mestre.
— Eu jamais me esqueceria daqueles dois bonecos.
Com apenas um movimento de sua mão direita alguns servos mais fracos surgiram de buracos localizados nas paredes, chão e teto do local, arrastando o vampiro caído, cujo corpo começava a apresentar pequenos tremores, sinais do esforço para se curar.
— O que vocês, criaturas rastejantes e de mente pequena, não conseguem enxergar é que, mesmo se dizendo seres racionais, sem emoções, eu os acompanhei em sua cruzada contra o destino em várias ocasiões e percebi que eles possuem sim os mesmos defeitos dos humanos.
Naquele momento todos os vampiros apenas encaravam seu mestre, as palavras soavam como algo hipnótico, para eles, nada mais existia no mundo.
— Eles virão. Cheios de ódio. Descuidados. Exatamente como eu os quero. Eles virão e eu os destruirei facilmente.
Dizendo isso, Gaki desceu alguns andares do edifício que transformou em seu ninho, indo até um local que deixou reservado para manter presos os humanos mais fortes que ele encontrara, aqueles que pareciam mais aptos a se tornarem servos poderosos e não apenas alimento.
Assim que tomou o assento principal, de frente para uma espécie de arena, o mestre ergueu a mão direita e, após realizar um breve movimento com os dedos indicador e médio, alguns servos vampiros se colocaram a arrastar pesadas portas de metal para os lados, dando passagem para o que ele mantivera guardado ali nas últimas semanas.
Poucos a pouco e com passos hesitantes vários homens e mulheres iam entrando do campo de visão de Gaki, que exibia um sorriso triunfante na face, ao reconhecer e saborear o medo que vinha de seus prisioneiros.
— Estão aqui pois vi um laivo de potencial em vocês, uma possibilidade, ainda que pequena, de que vocês poderiam ser mais do que são.
Foi então que ele percebeu o que queria, vindo dos olhares dos humanos assustados, que continuavam a entrar na arena improvisada, incertos sobre o futuro, mas com algo despertado por causa das palavras do vampiro.
Esperança.
Na opinião de Gaki, a única coisa mais doce e saborosa de se arrancar de um humano do que o sangue.
— Lutem. Lutem entre si e mostrem que merecem a gloriosa vida eterna! Lutem!
O grito ecoou pelo lugar fazendo vários dos humanos se sobressaltarem e levou pouco mais de um minuto até que o primeiro soco fosse dado.
Um homem musculoso e cheio de tatuagens típicas usadas pela Yakuza, se aproximou de um jovem, também de constituição mais forte e sem aviso algum disparou o punho contra o queixo do rapaz, fazendo-o cair longe.
Sem dar a menor chance de recuperação para seu primeiro oponente escolhido, o criminoso nem deixou que ele se levantasse, sentando sobre sua barriga e desferindo vários golpes contra seu rosto, tingindo o chão de vermelho.
Do alto de seu trono, Gaki passava a língua pelos lábios de forma lenta, deixando claro o quanto seria saboroso acompanhar aquela disputa sangrenta.
Seus devaneios, no entanto, foram interrompidos quando uma explosão ecoou pelo lugar, separando os humanos que haviam começado a se engalfinhar, forçando-os a correr em busca de abrigo, uma vez que destroços começavam a cair do teto.
Sem dizer uma palavra sequer, Gaki transformou seu corpo em uma névoa escura e em poucos instantes alcançara o topo de sua morada, de onde conseguiu ver quem e de onde estava vindo o ataque.
— Finalmente.











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