Bom dia, boa tarde, boa noite.
Espero que gostem.
7. Fragmentos de Infância
“Você tá bem?”, perguntou Lira, a preocupação evidente em sua voz. Ela ainda estava assustada com a intensidade dos golpes que Davi havia recebido do Golem da Culpa. Por um momento, temeu que algum ferimento tivesse escapado da magia restauradora da sala.
“Tô bem”, respondeu ele, respirando fundo. “O Salão da Culpa parece ter curado meu corpo e restaurado minha energia física. Só a minha energia mental que continua baixa. Eu me sinto cansado…”
E ele realmente soava cansado — não apenas fisicamente, mas como alguém que havia carregado o peso de uma vida inteira e, pela primeira vez, o colocou no chão.
“Você quer pausar o teste e continuar depois de se alimentar?”, sugeriu Lira, com gentileza.
“Eu posso parar o teste no meio para recuperar as forças? Achei que tinha de ser feito todo de uma única vez.”
Davi parecia genuinamente surpreso. A ideia de poder descansar no meio do processo era quase um alívio inesperado.
“Ninguém nunca conseguiu fazer o teste todo de uma única vez”, explicou Lira. “Ainda mais você, que tinha tudo na sua mente elevado ao extremo.”
Ela não deixava de se surpreender com a vida que Davi havia levado antes de chegar ali. Era como se ele tivesse sido moldado por dores que ninguém deveria suportar sozinho.
“Agora você não precisa se preocupar, Lira”, disse ele, com um sorriso tímido. “Eu estou me sentindo mais leve do que nunca. Extremamente bem. Esses testes que você está me ajudando a passar estão me redefinindo como pessoa. Eu não sinto mais minha mente pesada e nublada como antes.”
E era verdade. Davi se sentia mais leve do que jamais imaginou ser possível. A culpa não havia desaparecido por completo, mas estava mais silenciosa, mais distante. Ele conseguia respirar sem sentir o peso esmagador no peito. Conseguia se aceitar um pouco mais.
Lira e Davi deixaram o Salão das Vozes. Algumas pessoas haviam ouvido os sons vindos de dentro — ecos de luta, de magia, de dor — e ficaram surpresas ao ver o jovem sair inteiro. Seu espelho ainda não era cristalino, mas estava muito mais claro do que antes.
Lira estava cumprindo seu papel como guardiã das tradições com maestria. Alguns observadores murmuravam entre si, mas ninguém ousava expressar abertamente suas opiniões. Havia respeito — e talvez um pouco de medo — pelo processo que Davi estava enfrentando.
A dupla foi se alimentar. Davi estava há dois dias sem comer, então devorou a comida com uma fome quase desesperada. Lira pagou tudo sem hesitar. Ninguém sabia ao certo quanto dinheiro ela possuía, apenas que vivia bem, sem luxos, mas também sem preocupações.
Davi passou um dia inteiro fora do Salão das Vozes. Ele precisava. O esforço emocional e mental havia sido tão intenso que seu corpo exigia descanso. Foram horas de reflexão silenciosa, revisitando tudo o que ele havia sentido, enfrentado e compreendido. Pela primeira vez, ele estava aprendendo a entender suas dores — e a entender a si mesmo.
Algo que ninguém nunca lhe ensinou.
E que, no fundo, ele percebeu que precisava enfrentar sozinho.
No quarto dia desde que chegara àquele mundo de espelhos, Davi voltou ao Salão das Vozes. Lira o guiou até o próximo ambiente, chamado de “Jardim das Memórias”. Ela não explicou mais nada. Como sempre, ele teria de descobrir por si mesmo o propósito daquele lugar.
Davi já sabia que tudo ali girava em torno de autoaceitação e autocompreensão. Ele precisava aprender a gostar um pouco mais de si mesmo. Então, por mais que estivesse apreensivo, sentia-se mais preparado para o que viesse.
Mas ele não fazia ideia do que o aguardava.
O lugar era realmente um jardim. Lindo, vibrante, cheio de flores que pareciam feitas de luz. Mas, entre as plantas, surgiam cenas — como janelas abertas para o passado.
Ele viu seu pai indo embora, deixando sua mãe e ele para trás. Viu o amigo que se mudou de cidade sem se despedir. Viu aniversários solitários, dias em que esperou por alguém que nunca apareceu, momentos em que se sentiu invisível.
Ele percebeu, com um aperto no peito, que havia sido deixado para trás muitas vezes. O abandono do pai era o mais doloroso, mas não o único. E, embora fosse triste, não era tão devastador quanto os testes anteriores.
Em vários momentos, Davi se viu sozinho, sem ninguém para ajudá-lo. Professores que viam potencial e, por isso, exigiam demais. Pessoas que esperavam dele mais do que ele podia dar. Situações em que ele se isolou porque achava que era o melhor — quando, na verdade, estava apenas fugindo.
Mas então, raios de sol atravessaram o jardim, e lembranças doces começaram a surgir.
Amigos que ele fez ao longo da vida. Pessoas que o apoiaram, mesmo que ele não tenha percebido na época. Pequenos momentos de alegria que ele havia ignorado porque estava sempre focado na dor.
Agora ele entendia o quanto estava errado.
Ele precisava pedir desculpas a essas pessoas quando tivesse a chance.
Era simples: nem tudo havia sido dor. Ele tinha vivido momentos felizes, mas nunca lhes deu valor porque estava sempre preso ao sofrimento.
E, naquele instante, ele entendeu que podia — e devia — valorizar as pequenas coisas boas.
Aquilo o reconfortou profundamente. Ele sempre acreditou que sua vida tinha sido apenas perdas e cobranças. Mas não era verdade. Havia luz também.
As cenas mais bonitas foram deixadas para o final. Talvez o intuito daquele lugar fosse justamente esse: oferecer um bálsamo para o espírito, um alento depois de tantas batalhas internas.
Mas havia também momentos em que ele se sentiu sozinho — e, em muitos deles, foi ele mesmo quem escolheu ficar assim. Ele confundiu solitude com solidão. E agora entendia a diferença.
Solitude era estar consigo mesmo.
Solidão era sentir-se abandonado.
E tudo em excesso fazia mal.
Foi ali que ele compreendeu o significado de moderação. A solitude era boa, mas, quando prolongada demais, se tornava solidão. E ele havia vivido nesse extremo por tempo demais.
O jovem começou a repensar todas as suas ações. Percebeu que muitas decisões que achava ter tomado por si mesmo foram, na verdade, para agradar os outros ou evitar conflitos. Ele nunca havia enfrentado seus problemas de verdade — apenas fugido deles.
Depois de uma reflexão profunda, Davi entendeu que se cobrava demais. E se cobrava por coisas que nem eram responsabilidade dele. E, ao mesmo tempo, esquecia de valorizar as pequenas alegrias.
Quando voltou à sala, Davi tinha um novo mindset. Ele valorizava as pequenas coisas. As pessoas que o valorizaram. As memórias boas que ele havia ignorado. O próprio conceito de valorização havia sido redefinido.
Lira estava radiante com a evolução dele. Davi estava fazendo uma autoavaliação profunda, revisitando sua forma de pensar e reconstruindo sua identidade.
E seu espelho finalmente encontrou um feixe de luz definitivo — um que atravessou as nuvens escuras, agora muito mais claras.
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