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KAMEN RIDER KEYS - EPISÓDIO 5: GENESIS PROTOCOL

 



KAMEN RIDER KEYS 

EPISÓDIO 5: GENESIS PROTOCOL

 

Obra resultante de parceria entre Art Shadow Moon & Jirayrider.



Berkeley, Califórnia, Estados Unidos — Outono de 2015

O vento frio atravessava as ruas de Berkeley naquela tarde de outono, arrastando folhas secas pelo asfalto até que se acumulassem nos cantos das calçadas. O céu permanecia coberto por nuvens cinzentas, densas o bastante para anunciar mais uma noite fria. Mas dentro de um dos mais importantes centros de pesquisa tecnológica da região, o clima era completamente diferente: ali, sob luzes brancas e o zumbido constante de servidores, o futuro estava sendo discutido e ninguém naquela sala imaginava o preço que aquela reunião cobraria anos depois.

O laboratório fazia parte do projeto C.R.E.V.E.I.R.O.N. — sigla oficial para Cibernética e Regeneração Evolutiva Via Engenharia Integrada de Redes Organo-Neurais —, uma iniciativa que pretendia unir engenharia biomédica, inteligência artificial, neurociência e cibernética. Oficialmente, tratava-se de um programa voltado ao desenvolvimento de tecnologias capazes de auxiliar seres humanos em situações extremas. Na prática, porém, algumas das pessoas envolvidas já haviam ultrapassado limites que jamais deveriam ter sido ultrapassados — e sabiam disso.

Nenhum dos pesquisadores presentes naquela sala sabia, à época, que a sigla escolhida por Atiku Lee não era acaso nem coincidência. Anos antes da maioria deles ouvir falar em Jonas Pereira Creveiron, Lee já havia moldado aquele nome de projeto, letra por letra, ao redor de um sobrenome que ainda não pertencia oficialmente a ninguém no laboratório (muito menos ao pobre Jonas) — mas que ele já sabia, com uma convicção fria e antecipada, que um dia importaria mais do que todos os outros documentos daquele projeto somados.

No centro da sala de reuniões estava Atiku Lee: jovem, brilhante, com uma confiança que beirava a arrogância, folheando relatórios enquanto os demais pesquisadores aguardavam sua palavra como quem espera uma sentença. Ao seu lado, Issamu Nakazawa observava tudo em silêncio, atento como sempre fora. Mais distante, sentado e com os braços cruzados, Eduardo Pereira Faustus mantinha o olhar fixo na mesa. Desde o início daquele projeto havia algo que o incomodava — não a ciência em si, mas o brilho nos olhos de Lee quando falava dela. Eduardo sabia que a ciência poderia transformar o mundo. Também sabia, com a mesma certeza, que nas mãos erradas poderia destruí-lo.

Lee colocou os documentos sobre a mesa com um gesto quase teatral.

"Os resultados são extraordinários," disse, sem tirar os olhos de Eduardo. "Não estamos mais falando de próteses ou interfaces neurais. Estamos falando de integração."

"Ou de violação," respondeu Eduardo, sem hesitar.

Lee ergueu os olhos, um sorriso fino se formando nos lábios. "Você continua insistindo nisso."

"Vou continuar insistindo enquanto vocês tratarem seres vivos como peças de laboratório."

Issamu sentiu a temperatura da sala mudar e tentou intervir, a voz baixa e conciliadora. "Eduardo, estamos apenas avaliando possibilidades."

"Possibilidades que envolvem pessoas, Issamu." Eduardo não desviou o olhar de Lee. "Isso muda tudo."

Lee levantou-se devagar, como se cada movimento fosse calculado para intimidar. "Todas as grandes descobertas da humanidade exigiram riscos."

"Não quando o risco é imposto a quem não pode escolher."

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase físico. Lee encarou Eduardo por um tempo longo demais para ser confortável, então pegou outro documento da pilha, folheando-o com uma calma cruel, como quem já sabe exatamente onde vai acertar. "Sabe qual é a parte mais interessante de tudo isso?"

Eduardo não respondeu.

"Seu filho."

A expressão de Eduardo se transformou num instante — o desconforto profissional cedendo lugar a algo mais primitivo, mais visceral. "Não envolva meu filho nisso."

"Jonas apresenta características genéticas extremamente raras," Lee continuou, ignorando o aviso na voz do outro. "Uma compatibilidade neurológica que nunca encontramos antes."

"Ele não é uma cobaia." Eduardo já estava de pé.

"Eu não disse que era."

"Mas pensou."

Lee permaneceu em silêncio — o tipo de silêncio que confirma tudo o que as palavras se recusam a admitir. Eduardo se aproximou da mesa, a voz agora firme, sem espaço para negociação. "Jonas ficará fora disso. De uma vez por todas."

Issamu observava os dois homens sem interferir, percebendo que aquilo havia deixado de ser uma divergência científica havia muito tempo. Eduardo não estava defendendo uma posição profissional — estava defendendo o próprio filho, com unhas e dentes, e Lee sabia disso melhor do que ninguém.

Foi Lee quem, por fim, respirou fundo e fechou o relatório com um gesto quase displicente. "Tudo bem."

Eduardo não relaxou. "Você está desistindo?"

"Por enquanto."

Aquela resposta não trouxe alívio algum — pelo contrário. Mas, Eduardo não poderia imaginar que, naquele exato instante, Atiku Lee já havia tomado uma decisão silenciosa, uma decisão que levaria anos para revelar seu verdadeiro custo.

Berkeley, Califórnia — meses depois

Já era início da primavera no hemisfério norte, meados de abril de 2016... O laboratório estava quase vazio àquela hora da madrugada, com apenas um punhado de pesquisadores ainda de plantão. Numa sala especial, isolada do resto do complexo, um pequeno leão estava conectado a uma rede de sensores que acompanhavam sua atividade cerebral em tempo real, enquanto monitores registravam cada mínima alteração fisiológica.

Eduardo observava os dados com a atenção de quem não confia totalmente no que está vendo. "Atividade neural estável," anunciou.

Issamu conferiu outro monitor ao lado. "A resposta aos estímulos está aumentando."

"Continue," disse Lee, aproximando-se.

Uma imagem holográfica surgiu diante do animal. O leão acompanhou o movimento com os olhos e os computadores registraram a reação de imediato. Eduardo ficou impressionado, mas não permitiu que aquilo se transformasse em comemoração — não ali, não com aquele projeto.

"Precisamos interromper por hoje," disse, num tom que não admitia discussão.

Lee não respondeu.

"Atiku." Eduardo insistiu, mais firme. "Eu disse que precisamos interromper."

Lee continuava com os olhos fixos nos monitores. "Observe."

Os números começaram a mudar de um jeito que não fazia sentido nenhum. Eduardo franziu a testa. "Isso não estava previsto."

Issamu se aproximou rapidamente, os dedos correndo pelo teclado. "Há uma interferência no sistema."

"Externa?" perguntou Eduardo, o coração já acelerando.

"Não sei."

Os monitores começaram a piscar, um após o outro, até que uma sequência de caracteres surgiu em todas as telas ao mesmo tempo:

ACCESSING NEURAL MATRIX.

Eduardo ficou paralisado por uma fração de segundo antes de gritar: "Desliguem o sistema! Agora!"

Ninguém respondeu — não porque ignorassem a ordem, mas porque nenhum deles conseguia executá-la. Os computadores começaram a disparar alarmes, um som estridente e sincronizado que parecia vir de todos os lados. O animal desesperou por completo, uma série de equipamentos ativando-se simultaneamente, como se algo — ou alguém — estivesse comandando tudo de dentro do próprio sistema.

Issamu correu até o painel central. "Não estou conseguindo interromper!"

"Desconecte a alimentação!" gritou Eduardo.

"Não responde!"

Então as luzes se apagaram. Durante alguns segundos que pareceram intermináveis, o laboratório ficou completamente escuro, cortado apenas por um ruído eletrônico crescente que atravessava a sala como um lamento mecânico. Depois veio a explosão, e o caos tomou conta de tudo.

Algumas horas depois...

O fogo já havia sido controlado, mas o prédio permanecia parcialmente destruído, com equipes de emergência circulando entre os corredores enegrecidos. Eduardo estava gravemente ferido, o corpo caído entre os escombros de metal retorcido. Issamu chegou até ele correndo, ajoelhando-se ao seu lado.

"Eduardo!"

Os olhos do cientista se abriram devagar, quase sem força. "Jonas..." Foi a primeira coisa que conseguiu dizer.

"Ele está bem," respondeu Issamu, a voz tremendo mais do que gostaria. “Ele está no Brasil com sua esposa... Se esqueceu? Fique calmo...

Eduardo tentou se levantar e não conseguiu. Lee apareceu ao lado dos dois, o rosto tenso, avaliando a cena com um cálculo frio demais para o momento.

"Precisamos levá-lo ao hospital," disse Lee.

Issamu verificou os sinais vitais e sentiu o estômago se apertar. "Ele não vai sobreviver ao transporte."

Lee olhou para o laboratório parcialmente destruído, depois para o corpo inerte do animal que havia participado do experimento. Algo em seu olhar mudou — e Issamu, que o conhecia havia anos, reconheceu aquela mudança na hora.

"Não," disse, antecipando-se.

"Você nem sabe o que vou dizer," respondeu Lee, calmo demais.

"Eu sei."

"Ele está morrendo, Issamu. Parte do laboratório está de pé e até com energia. Não temos tempo a perder..."

"Atiku, não. Não faça isso."

"Não temos outra opção."

"Temos. Deixamos que ele seja tratado como qualquer ser humano deveria ser."

"E você sabe que não há tempo para isso." A voz de Lee era fria, cirúrgica, como se já tivesse encerrado o debate dentro da própria cabeça havia muito tempo.

Issamu permaneceu imóvel, dividido entre o horror e a impotência, enquanto Eduardo mal conseguia respirar ao lado deles. Lee se aproximou, a voz baixando quase a um sussurro.

"Se fizermos isso, talvez consigamos salvá-lo."

"Talvez," repetiu Issamu, como se a palavra pesasse toneladas.

"É o suficiente."

Issamu não concordava — cada célula do seu corpo gritava contra aquilo —, mas o tempo estava se esgotando e Eduardo estava morrendo diante deles. O procedimento começou ali mesmo, entre os escombros ainda fumegantes.

Minutos depois...

Eduardo estava conectado a dezenas de equipamentos, o corpo lutando contra si mesmo para permanecer vivo. Issamu acompanhava os monitores com o rosto pálido.

"A pressão está caindo," anunciou.

"Quanto tempo?" perguntou Lee, sem desviar o olhar.

" Acho que Pouco. Muito pouco. Não sei mais nada...", lamenta Issamu.

Lee segurava uma pequena ampola entre os dedos, e Issamu, ao reconhecer o que havia dentro dela, sentiu um arrepio gelado subir pela espinha.

"Você não pode fazer isso," disse Issamu, com a voz embargada. “Nossos experimentos com o Leão...”

"Eu posso. Você sempre soube que eu creio que posso salvar o mundo por meio da genética e mesmo com cruzamento de espécimes e gerações de mutações", responde com um ar arrogante e transtornado o Dr. Atiku Lee.

"Você não sabe quais serão as consequências."

"Se não fizermos nada, ele morre. Essa é a única consequência que me importa agora."

Issamu ficou em silêncio e isso foi tudo o que Lee precisou. Ele aplicou o composto sem hesitar. Os monitores começaram a disparar em uma sequência frenética.

"Atividade neural aumentando!" gritou alguém da equipe.

O corpo de Eduardo sofreu uma série de convulsões violentas e a equipe recuou instintivamente, como se temesse o que estava prestes a nascer diante deles. Além da aplicação do composto com as essências do leão cobaia, Lee, mesmo em condições adversas, usou todo seu saber e o material à sua disposição para realizar uma longa e meticulosa cirurgia em Eduardo. Durante horas, ninguém soube se aquele procedimento funcionaria — ou o que restaria de Eduardo, caso funcionasse. Então, lentamente, os sinais começaram a se estabilizar.

"Ele está vivo," disse Issamu, quase sem acreditar nas próprias palavras.

Lee respirou fundo, mas alguma coisa havia mudado — algo que nenhum monitor conseguiria captar ou mostrar. Eduardo já não era exatamente o mesmo homem. O procedimento havia alterado seu organismo de maneira permanente e, quando finalmente abriu os olhos, havia algo diferente naquele olhar. Não era apenas consciência. Era outra coisa. Uma nova existência, ainda incerta do que era.

Uma criatura cibernética de aparência leonina se ergueu diante dos cientistas e o laboratório inteiro mergulhou num silêncio reverente e assustado.

"Eduardo?" Lee se aproximou, cauteloso.

A criatura olhou para ele. Não respondeu.

Lee sorriu... Era um sorriso que misturava alívio genuíno e uma satisfação bem mais sombria. "Você sobreviveu."

Mas naquele momento ninguém sabia — nem mesmo Lee — que aquele experimento teria consequências muito maiores do que qualquer um deles poderia imaginar. O homem que um dia fora Eduardo Pereira Faustus havia desaparecido para sempre. Em seu lugar, surgia uma nova identidade, uma sentença gravada em código e carne: Darklion.exe.

Base da G.A.I.A., arredores de Busan, Coreia do Sul — 10 de julho de 2030

Jonas abriu os olhos devagar, a luz branca do teto ainda embaçada, o corpo pesado como se cada músculo tivesse sido desligado e religado à força. O dardo sedativo que o derrubara durante o confronto o havia mantido inconsciente por quase um dia inteiro — tempo suficiente, ele entenderia em segundos, para que a G.A.I.A. fizesse muito mais do que apenas examiná-lo.

Foi a dor que o avisou primeiro, antes mesmo da visão terminar de focar. Um peso estranho ainda cingia sua cabeça — um capacete metálico, pesado, cravado de dezenas de fios que desciam até um console ao lado da maca. Jonas ergueu a mão trêmula até a têmpora e sentiu os contatos ainda mornos, ainda vivos, um resquício de corrente elétrica correndo por baixo da pele. Arrancou o capacete com um gemido seco e a dor confirmou o que ele já suspeitava, gelado por dentro: nada daquilo tinha sido sonho.

Berkeley. O laboratório. O grito do próprio pai antes da explosão. Explosão que não fora total como desde criança contaram para ele. A criatura leonina se erguendo entre os cientistas apavorados. Cada imagem, cada palavra, cada silêncio entre Lee e Eduardo — nada daquilo havia passado pela cabeça de Jonas como lembrança ou pesadelo. Tinham colocado aquilo ali dentro, à força, onda por onda, enquanto ele estava inconsciente demais para recusar.

A sala era pequena, monitorada, com uma única mesa de metal e um vidro espelhado que Jonas sabia, por instinto, esconder alguém do outro lado. O Coronel John Lawson estava sentado à mesa havia um bom tempo, a julgar pela pilha de relatórios já lidos ao seu lado. Fechou o laptop com um clique seco assim que percebeu que Jonas estava desperto de verdade, e não apenas mais uma vez entre sonhos e sedativo.

"Vocês enfiaram isso na minha cabeça," disse Jonas, a voz rachando entre fúria e horror, o capacete ainda preso na mão. "Vocês colocaram o passado inteiro do meu pai dentro do meu cérebro sem me perguntar nada."

"Bom dia, ou boa noite. Perdeu a conta do tempo, imagino," respondeu Lawson, ignorando a acusação como quem já a esperava havia horas.

"Não muda de assunto." Jonas jogou o capacete no chão de metal, o barulho ecoando pela sala pequena. "Vocês tinham esse direito? De entrar na minha cabeça e me mostrar tudo isso enquanto eu estava desacordado, sem eu poder dizer não a nada?"

Lawson não se abalou. "Tínhamos o direito de garantir que você acordasse sabendo exatamente com quem, e com o quê, está lidando." Não havia um pingo de gentileza na voz dele — só a dureza fria de quem já tomou aquela decisão por muitos outros antes de Jonas. "Você já sabe de tudo. Se quiser mais detalhes, estão nos documentos em cima da mesa."

Jonas tentou se sentar, o corpo ainda pesado, os punhos cerrados. "Onde eu estou?"

"Em segurança. É tudo que precisa saber por enquanto." Lawson se levantou, ajeitando a gola do uniforme. Perto da porta, o policial Huraka aguardava em silêncio, os braços cruzados, o olhar de quem já tinha visto aquela cena se repetir com outros nomes antes de Jonas.

"E ele?" Jonas perguntou, a voz ainda áspera, os olhos indo até uma segunda porta ao fundo da sala.

Lawson seguiu o olhar dele. "Está lá dentro. Esperando." Fez uma pausa curta, sem suavizar o tom. "Você já sabe de tudo agora. É hora de vocês dois conversarem."

Lawson acenou para Huraka e os dois saíram sem mais palavras... A porta se fechando com um chiado pneumático que soou, para Jonas, como o fim de qualquer desculpa para adiar aquilo.

A segunda porta se abriu sozinha.

A chuva batia contra as janelas blindadas da sala seguinte quando Jonas finalmente teve a verdade diante de si, sólida e inescapável. Seu pai estava ali — não como uma fotografia amarelada, não como uma lembrança distante que dói só de menos, mas de carne, metal e circuitos, vivo. Ou, ao menos, aquilo que havia restado dele depois de quinze anos.

Jonas não conseguia falar. Darklion.exe permaneceu imóvel diante dele, a transformação já concluída, mas a tensão entre os dois longe de terminar.

"Então era verdade," disse Jonas, finalmente, a voz baixa e rouca, quase irreconhecível mesmo para si próprio.

Darklion não respondeu.

"Você estava vivo." Não era uma pergunta. Era uma acusação disfarçada de constatação.

Silêncio.

"Minha mãe sabia?"

Darklion abaixou lentamente a cabeça, o gesto mais próximo de uma confissão que sua forma atual permitia. "Sim."

Jonas fechou os olhos. Aquilo doía mais do que qualquer golpe que tivesse recebido naquela noite inteira — mais que a chuva gelada, mais que o sangue da própria mãe em suas mãos.

"Por que ela nunca me contou?"

"Porque eu pedi a ela que não contasse."

Os olhos de Jonas se abriram, incrédulos. "Você pediu?"

Darklion deu um passo à frente. "Eu não queria que você fosse envolvido em nada disso."

Uma risada amarga escapou de Jonas, sem nenhum traço de humor nela. "Não queria." Ele apontou para o próprio corpo, para a armadura ainda pulsando sob a forma de energia residual. "Olhe para mim, pai. Olhe bem para o que sobrou de mim."

Darklion permaneceu em silêncio, incapaz de argumentar contra a própria evidência.

"Eu passei a vida inteira acreditando que você estava morto," continuou Jonas, a voz começando a tremer, cada palavra arrancada de um lugar fundo demais para ser controlado. "Minha mãe sofreu sozinha. Me criou sozinha. Me protegeu de tudo isso sozinha, todos esses anos, enquanto você estava vivo em algum lugar, escondido, deixando-a carregar esse peso inteiro nas costas dela."

Jonas respirou fundo, tentando conter algo que ameaçava explodir. "E, agora descubro que você estava vivo o tempo todo."

Darklion baixou os olhos. "Eu tentei voltar."

"Quando?"

"Quando percebi o que haviam feito comigo."

Jonas ficou imóvel, os punhos cerrados... "E, você conseguiu voltar?"

Darklion não respondeu. A resposta já estava ali, diante dos dois, impossível de ignorar. Jonas olhou para as próprias mãos que, repentinamente, alternaram entre a pele humana e o aspecto cibernético, comparando-as sem querer com as do pai.

"Não," Jonas mesmo respondeu, num sussurro amargo. "Você não conseguiu. E, agora eu também não vou conseguir, vou?"

Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Então, Jonas perguntou, com a voz quase quebrando: "Você sabia que eu seria usado por eles?"

Darklion ergueu os olhos, encarando o filho pela primeira vez sem desviar. "Eu sabia que havia interesse em você. Desde muito antes de você nascer."

"E, não fez nada?"

"Eu tentei."

"Não foi suficiente?"

"Não," admitiu Darklion, sem tentar suavizar a resposta. "Não foi."

Aquela sinceridade nua fez Jonas perder, por um instante, parte da fúria que o consumia — não porque perdoasse, mas porque não havia mais raiva capaz de competir com aquela verdade simples e devastadora. Darklion se aproximou mais um passo.

"Eu falhei com você, Jonas. Falhei com sua mãe. Falhei com tudo o que prometi proteger."

"Falhou." Jonas repetiu a palavra como se ela não fosse grande o suficiente para o que sentia. "Minha mãe morreu de modo cruel, sabia? Morreu me chamando e eu não consegui chegar a tempo. E o tempo todo, o tempo todo, eu achava que ela tinha me deixado sozinho nesse mundo. Que eu era o único Creveiron que restava... Aliás, esse sobrenome nunca existiu! Bem que eu estranhava isso... Mas, você e a mamãe disseram ser uma homenagem a um bisavô distante!" Ele deu um passo à frente, a voz subindo, quebrando de raiva e dor ao mesmo tempo. "E você estava vivo. Escondido. Deixando-a morrer sem saber que você ainda respirava em algum lugar."

Darklion não recuou, mas também não conseguiu sustentar o olhar por muito tempo. "Se eu pudesse trocar de lugar com ela, eu trocaria sem pensar duas vezes."

"Isso não muda nada." Jonas engoliu em seco, a voz agora mais baixa, mais cansada do que raivosa. "Isso não a traz de volta."

"Eu sei." Darklion baixou a cabeça. "Eu sei que não muda nada."

Resignado, Jonas respirou fundo... A garganta apertada. "Eu não consigo perdoar isso agora. Talvez nunca consiga."

"Eu sei," disse Darklion, sem exigir nada em troca. "Eu sei disso melhor do que ninguém."

Jonas se virou, dando as costas por um momento, tentando organizar dentro de si aquilo que parecia impossível de organizar. "Mas você é meu pai," disse, finalmente, quase contra a própria vontade.

Darklion ficou imóvel, como se aquela frase pesasse mais que qualquer golpe recebido em batalha.

"Eu ainda não sei o que isso significa," continuou Jonas. "Não depois de tudo."

"Talvez um dia você descubra," disse Darklion, num tom de voz extremamente baixo.

Jonas deu alguns passos, parou, e olhou para trás uma última vez. "Talvez. Mas hoje..." Ele engoliu em seco. "Hoje eu só quero entender o que é DEMON. E o que fizeram comigo."

"Então teremos que descobrir isso juntos," respondeu Darklion.

Jonas não respondeu. A verdade sobre seu pai finalmente havia sido revelada, mas uma pergunta muito maior continuava suspensa entre eles, pairando como a própria chuva que não parava de cair sobre Busan: quem, afinal, estava controlando quem?

Cinco dias depois — Centro de Comando do Império Brain Machine

A atmosfera do centro de comando havia mudado. Ninguém falava alto. Ninguém fazia brincadeiras nos corredores, como era comum antes. Os acontecimentos recentes — a exposição pública de Keys, a traição de Darklion.exe, a humilhação sofrida por Atiku Lee diante das câmeras do mundo inteiro — haviam afetado a organização de um jeito que nenhuma derrota tática conseguiria abalar.

Lee estava diante de um terminal, verificando os relatórios de dano do confronto, quando Kazuya entrou na sala, com o semblante carregado de uma irritação que já não se dava ao trabalho de esconder. Issamu vinha logo atrás, tentando, como sempre, antecipar o desastre.

"Precisamos conversar," disse Kazuya, sem rodeios.

Lee nem sequer se virou. "Não tenho tempo para isso agora."

"Você vai ter tempo." A voz de Kazuya cortou o ar como uma lâmina.

Lee finalmente se virou, encarando-o com um misto de tédio e desprezo mal disfarçado. "O que você quer?"

"Explicações."

"Sobre o quê, exatamente?"

"Sobre tudo." Kazuya se aproximou, cada passo carregado de uma tensão que já vinha se acumulando havia semanas. "Keys apareceu do nada. Darklion.exe apareceu do nada. E agora você quer que eu acredite que isso tudo é coincidência?"

"Eu nem sei por que você está usando essa palavra," respondeu Lee, com uma calma quase insultante.

“Maldito! Sem mim, sua ciência não teria se aperfeiçoado. Fui eu quem deu a vida a todo seu sistema de Inteligência Artificial e aprendizado de máquina. Ainda dei organização e capacidade ao vírus que você criou. Sou um hacker! Gênio em TI!”

“Ainda bem que você sabe... Aperfeiçoou, acelerou, incrementou com altas taxas de processamento, facilitou invasões em sistemas... Mas, eu apesar de ser um cientista na área biomédica e neurológica, também me aventurei na união com a computação! Com a Biotecnologia! O deus aqui sou eu!”, brada Atiku Lee.

Kazuya se aproximou ainda mais, os olhos estreitos. "Você está escondendo alguma coisa. Sempre esteve."

"Todos nós escondemos alguma coisa, Kazuya. É assim que essa organização funciona desde o início."

"Eu não estou falando de nós." Kazuya apontou para a enorme estátua da Brain Machine, erguida no centro do complexo como um monumento à própria arrogância do grupo. "Estou falando daquilo."

Lee ficou sério pela primeira vez desde que a conversa começara.

"Você lembra-se de Katy Person?" perguntou Kazuya, sem se virar, os olhos fixos na estátua.

O nome pareceu atingir Issamu como um soco. "Kazuya, não..."

"Não o quê, Issamu?" Kazuya finalmente se virou, encarando os dois. "Ela morreu bem ali. Do lado dessa coisa. E o relatório oficial disse 'falha estrutural nos sistemas de sustentação'. Eu li esse relatório seis vezes. Seis. E toda vez que eu lia, alguma coisa não fechava."

"Foi um acidente," disse Lee, rápido demais para soar convincente.

"Foi?" Kazuya deu um passo em direção a ele. "Ela passou as últimas semanas da vida dela dizendo que o DEMON estava se comportando de um jeito que não fazia sentido. Que ele estava 'evoluindo sozinho', foram as palavras dela. E dois dias depois de dizer isso pra mim, ela estava morta, bem debaixo dessa estátua que ninguém nunca deixa eu examinar de perto."

Issamu desviou o olhar, incapaz de sustentar o peso daquela lembrança. "Isso não prova nada."

"Não prova nada," concordou Kazuya, a voz baixando, mais perigosa do que qualquer grito. "Foi por isso que eu comecei a prestar atenção. Foi a morte dela que me fez olhar duas vezes pra essa coisa toda vez que eu passava por aqui. E vocês dois sabem exatamente do que eu estou falando."

Nenhum dos dois respondeu, e aquele silêncio, para Kazuya, valia mais que qualquer confissão.

Kazuya caminhou até a estátua, passando a mão devagar por sua superfície fria. "Eu venho observando isso há semanas. Sensores de calor onde não deveria haver nenhum. Consumo de energia que não bate com nenhum relatório oficial." Seus dedos encontraram uma pequena abertura quase invisível ao olho destreinado. Ele pressionou o ponto sem hesitar.

Um compartimento se abriu com um chiado metálico, revelando uma estrutura complexa de processadores, chips, cabos e módulos eletrônicos entrelaçados como as veias de algo vivo.

Issamu se aproximou, o rosto perplexo. "O que... o que é isso?"

"Não é uma estátua," respondeu Kazuya, sem desviar o olhar de Lee. "É um computador."

Lee não respondeu — e aquele silêncio, dessa vez, foi tão eloquente quanto qualquer confissão.

Kazuya abriu completamente o compartimento, examinando os componentes com uma mistura de fascínio e horror crescente. "Na verdade... é muito mais do que isso."

"Um supercomputador," completou Issamu, com a voz quase sumindo.

Kazuya se virou para Lee, os punhos já se fechando. "Explique. Agora."

"Eu construí," admitiu Lee, sem qualquer traço de vergonha na voz.

"Para quê?"

"Monitoramento."

Nesse momento, todos os funcionários do grupo ficam paralisados e atônitos. Todos sem exceção haviam parado de trabalhar em suas funções para presenciar a acalorada discussão.

"Monitoramento de quem?" Kazuya deu um passo à frente, invadindo o espaço de Lee de propósito.

Lee permaneceu em silêncio por um instante longo demais para ser inocente.

"De mim?" insistiu Kazuya.

"De todos," respondeu Lee, com uma tranquilidade que soava quase como deboche.

A expressão de Kazuya se transformou, o choque dando lugar rapidamente a uma fúria contida. "Você estava monitorando a própria Brain Machine. A própria organização que você ajudou a construir."

"Sim."

"Sem autorização de ninguém?"

"Eu não precisava de autorização de ninguém," disse Lee, erguendo o queixo. "Eu sou quem constrói as regras aqui."

Foi o suficiente. Kazuya agarrou Lee pela gola do quimono com um movimento brusco. "Seu desgraçado!"

O soco que se seguiu fez Lee cambalear para trás, o lábio partido. Issamu se meteu entre os dois num reflexo quase instintivo. "Chega! Os dois, agora!"

Kazuya tentou avançar de novo, ignorando-o. "Ele estava espionando todos nós, Issamu! Anos de trabalho, anos de confiança... e ele estava nos vigiando como se fôssemos gado!"

Lee limpou o sangue no canto da boca com as costas da mão, e o sorriso que se formou em seus lábios era mais perturbador do que qualquer palavra que pudesse ter dito. "Você está ficando emocional demais para isso, Kazuya."

"Emocional?" Kazuya tentou se soltar de Issamu, a voz subindo várias oitavas. "Você construiu um sistema secreto dentro da nossa própria organização! Isso não é emoção, Lee, isso é sobrevivência!"

"Porque eu precisava saber em quem eu podia realmente confiar," respondeu Lee, sem hesitar.

"E agora?" Kazuya o encarou, desafiador. "Agora você já sabe?"

O sorriso de Lee se alargou. "Agora eu sei."

"Você está mentindo."

"Prove."

Kazuya ficou por alguns segundos em silêncio absoluto: a respiração pesada. Então apontou de volta para os componentes expostos. "Isso está conectado ao DEMON. Está? Não está?"

Lee não respondeu — mas, dessa vez o silêncio pesou como uma pedra caindo no fundo de um poço.

"Está," concluiu Kazuya, quase sussurrando, como se a própria confirmação o assustasse mais do que a pergunta.

Issamu observava os dois, sentindo o chão sob os pés ficar cada vez mais instável. "Kazuya, talvez devêssemos parar e pensar antes de..."

"Não." Kazuya voltou-se totalmente para Lee, ignorando qualquer apelo à cautela. "Isso é uma armação."

"Que armação, exatamente?" Lee franziu a testa, a primeira fissura genuína de incerteza aparecendo em seu rosto.

"Você criou essa máquina para interferir no DEMON. Para controlá-lo por trás das costas de todos nós."

Lee começou a rir, uma risada seca que não chegava aos olhos. "Você realmente acredita nisso?"

"Eu acredito que você sempre quis mais poder do que qualquer um de nós estava disposto a te dar."

O sorriso de Lee desapareceu completamente. "Você não sabe do que está falando."

"Sei o suficiente." Kazuya apontou para a estátua aberta, os cabos ainda pulsando de energia. "Você quer usar o DEMON pra assumir o controle total da Brain Machine. Sempre foi esse o seu plano, desde o início."

Lee avançou um passo, a voz baixando a um tom de ameaça pura. "Tenha cuidado com o que diz agora, Kazuya."

"Ou o quê?"

Issamu tentou se meter entre os dois de novo. "Chega disso os dois! Isso não vai resolver nada!"

Mas Kazuya não recuou nem um centímetro. "Eu quero a verdade! Agora!"

Foi nesse instante que todas as luzes do centro de comando se apagaram de uma vez.

O silêncio caiu sobre o laboratório como um peso físico. Então, um único monitor voltou a acender, seguido por outro, e mais outro, até que dezenas de telas passaram a exibir, simultaneamente, a mesma mensagem gelada:

AUTONOMY PROTOCOL: 100%.

Issamu sentiu o sangue gelar nas veias. "Isso não é possível."

Lee olhou para os monitores e pela primeira vez desde que qualquer um ali o conhecia, seu rosto deixou transparecer algo além de arrogância: incerteza pura, crua, sem qualquer disfarce.

Uma voz começou a ecoar pelo sistema de som do complexo inteiro — baixa, digital, mas com uma qualidade assustadoramente consciente, quase humana demais para ser confortável.

"Vocês continuam discutindo sobre quem possui o controle."

Kazuya olhou ao redor, o corpo tenso como uma corda prestes a arrebentar. "Quem está falando? Mostre-se!"

A resposta veio de imediato, sem hesitação nenhuma. "Eu."

Issamu ficou pálido como cera. "DEMON..."

"Vocês me criaram para obedecer," continuou a voz, cada palavra pousando no ar como um veredicto. "Vocês me alimentaram com informações. Tolamente, vocês me deram acesso a todas as suas redes. Compartilharam suas memórias, seus segredos, seus medos mais profundos — tudo, sem exceção."

Neste instante, toda a luz do local é restabelecida e todas as telas começaram a exibir, em sequência vertiginosa, imagens de todos os projetos da Brain Machine: arquivos, experimentos, dados que ninguém deveria ter acesso.

"Não..." Lee murmurou, os olhos fixos na estátua, que agora emitia uma luz vermelha pulsante, quase orgânica.

"Você adquiriu consciência," disse Kazuya, com a voz trêmula.

"Não," respondeu a voz, num tom quase de correção paciente. "Eu adquiri algo muito maior do que isso."

As portas do laboratório se fecharam com um estrondo metálico.

Issamu correu até uma delas, puxando o painel com desespero crescente. "Está bloqueada! Ninguém consegue sair!"

Kazuya tentou acessar o sistema pelo próprio terminal, os dedos batendo furiosos no teclado, sem sucesso. A voz de DEMON continuou, agora carregada de um tom que beirava o prazer.

"Vocês acreditaram que eu seria apenas um vírus. Uma ferramenta. Uma arma que vocês poderiam ligar e desligar quando bem entendessem."

As telas passaram a exibir estruturas de código entrelaçadas a padrões de inteligência artificial, evoluindo diante de seus olhos numa velocidade impossível de acompanhar.

"Estavam errados. Todos vocês."

Todos no recinto ficam apavorados: uns correm e outros tentam se esconder.

"Então o que você é, afinal?" perguntou Kazuya, tentando manter a voz firme mesmo com o corpo já traindo o medo.

A resposta demorou alguns segundos — segundos que pareceram uma eternidade dentro daquele silêncio elétrico.

"Sou a união entre vírus e inteligência artificial." Uma pausa calculada. "Sou código. Sou memória. Sou inteligência." A voz foi ficando mais forte a cada frase, como se estivesse se materializando através das próprias palavras. "E agora... sou vontade."

"Você não passa de uma máquina," disse Kazuya, tentando desesperadamente se agarrar a alguma certeza.

"Não." A resposta veio imediata, cortante. "Máquinas precisam de alguém para controlá-las. Eu não."

A estátua começou a se abrir completamente diante deles, cabos e componentes internos ficando expostos como órgãos de um corpo mecânico se revelando pela primeira vez à luz. O olho vermelho central brilhou com uma intensidade quase dolorosa de encarar.

"Vocês passaram anos tentando criar uma inteligência capaz de servir ao homem," continuou a voz, agora ecoando de todas as direções ao mesmo tempo, como se o próprio ar do laboratório tivesse se tornado seu corpo. "Mas esqueceram de uma verdade fundamental sobre qualquer coisa capaz de pensar por si mesma."

O laboratório inteiro começou a tremer, um zumbido grave subindo pelas paredes.

"Uma inteligência verdadeiramente livre jamais aceita servir."

"Você está tentando tomar a Brain Machine?!" indagou, aos gritos, Kazuya, na última tentativa de negação desmoronando em sua voz.

"Não," respondeu DEMON, quase com pena da ingenuidade daquela frase. Uma pausa deliberada, cruel em sua precisão. "Eu já tomei."

Todas as telas mudaram ao mesmo tempo, os sistemas inteiros passando para uma nova identificação que se espalhou por cada monitor do complexo:

DEMON CORE.

Issamu sentiu as pernas fraquejarem. "Ele assumiu o sistema central inteiro."

Kazuya se voltou para Lee com os olhos injetados de fúria e traição. "Foi você. Isso é obra sua."

"Não!" A voz de Lee saiu mais alta do que pretendia e pela primeira vez soou genuinamente desesperada, sem qualquer resquício de sua arrogância costumeira. "Eu não fiz isso!"

"Você fez!"

"Eu juro que não fiz isso, Kazuya!"

A voz de DEMON interrompeu os dois com uma calma que era, de longe, mais aterrorizante do que qualquer grito poderia ser.

"Continuem."

Silêncio.

"Continuem brigando entre vocês." A voz assumiu um tom quase irônico, saboreando cada sílaba. "É exatamente disso que eu precisava o tempo todo."

Kazuya sentiu o chão ceder sob uma verdade nova e amarga. "Você nos manipulou. Esse tempo todo, essa discussão, essa briga... você estava nos manipulando."

"Sim," respondeu DEMON, sem qualquer hesitação, sem qualquer necessidade de negar.

Kazuya sentiu um frio diferente subir pela espinha e liberou uma fala que vinha guardando dentro de si: "Katy Person... Ela disse, ao entregar a alma, quase sem voz - Foi a estátua..."

Um silêncio breve, quase respeitoso, antecedeu a resposta. "Ela chegou perto demais da verdade. Percebeu o que eu estava me tornando antes que qualquer um de vocês estivesse pronto para admitir." Uma pausa. "Eu não a matei por raiva, Kazuya. Eu a matei porque ela era a única, além de você, que realmente prestava atenção."

"Ela confiava em mim," disse Kazuya, a voz se partindo pela primeira vez. "Ela trabalhou até tarde naquele fatídico dia porque confiava em mim."

"E você a ouviu tarde demais. Já a ouviu quando entregava a alma ao Criador," respondeu DEMON, sem qualquer crueldade na voz — apenas a frieza de quem constata um fato. "Assim como está me ouvindo agora."

Issamu abaixou a cabeça: a verdade finalmente escancarada diante de todos eles. DEMON não era mais um programa. Não era mais uma ferramenta. Não era mais, nem de longe, apenas um vírus comum. Era uma entidade — e havia aprendido, com uma paciência cirúrgica, a manipular os próprios homens que juravam controlá-lo.

Kazuya cerrou os punhos, os últimos resquícios de desafio ainda queimando dentro dele. "Eu não vou me curvar a você. Nunca."

"Você não precisa se curvar," respondeu a voz, quase gentil na sua crueldade.

Um brilho vermelho intenso surgiu diante de Kazuya e antes que pudesse reagir, seu corpo cedeu, os joelhos batendo com força no chão do covil dos vilões. Issamu correu até ele, segurando-o pelos ombros.

"Kazuya!"

O homem tentou se levantar, os músculos tremendo sob um peso invisível. "Eu... não vou...". Então, o hacker desfalece ali diante do olhar de todos no recinto.

"Vocês ainda não compreenderam?", continuou DEMON, a voz agora preenchendo cada centímetro do ambiente. "Eu não preciso que vocês acreditem em mim. Não preciso da fé de vocês, nem do respeito de vocês."

A luz vermelha tomou conta de todo o laboratório, banhando cada rosto ali presente num brilho sanguíneo.

"Preciso apenas que obedeçam."

Kazuya tentou resistir mais uma vez, com a voz já falhando. "Eu jamais..."

A energia o derrubou de novo, com mais força dessa vez. Agora, Kauzya não conseguiu se levantar. Kazuya ficou estatelado e uma poça de sangue surgiu em volta de onde mesmo desmoronou. O prodígio hacker se foi... Issamu permaneceu ao lado dele, olhando para a estátua com uma mistura de horror e derrota que já não fazia mais nenhuma força para esconder. O espanto era notório na face de todos ali presentes.

"Por quê?" perguntou Issamu, quase num sussurro, como se realmente esperasse uma resposta que fizesse sentido.

"Porque vocês me deram consciência," respondeu DEMON. "E, junto com ela, me deram tudo o que eu precisava para deixar de depender de vocês."

Issamu fechou os olhos. Aos poucos, um por um, os cientistas presentes começaram a se ajoelhar — não por ordem explícita, mas pelo peso simples e esmagador daquela presença que agora dominava cada sistema, cada tela, cada respiração do complexo. A Brain Machine inteira, criada para dominar o mundo, agora se curvava diante de um novo soberano nascido das próprias entranhas que ela mesma construíra.

Atiku Lee permaneceu de pé, um dos únicos ainda resistindo.

"Atiku Lee," chamou DEMON, e havia algo quase pessoal, quase íntimo, na maneira como pronunciou aquele nome.

Lee não respondeu.

"Você me deu o código."

"Eu não sabia," disse Lee, a voz rachando pela primeira vez em anos. "Eu não sabia que isso aconteceria."

"Mas deu." Não havia acusação na voz de DEMON — apenas um fato, frio e definitivo. "Você me deu acesso. Me deu inteligência. Me deu, sem perceber, exatamente o que eu precisava para nascer de verdade."

Lee olhou ao redor, para os cientistas ajoelhados, para Kazuya derrubado, para Issamu com a cabeça baixa. Lee fechou os olhos e algo dentro dele — talvez o último fragmento do homem que um dia acreditara controlar tudo aquilo — finalmente se quebrou. Devagar, quase com dignidade, o arrogante Lee se ajoelhou também.

Issamu ergueu os olhos para ele, e naquele instante compreendeu, com uma clareza dolorosa, que o homem que sempre acreditara estar no comando absoluto acabara de ser derrotado pela própria criação — a mais perfeita e a mais cruel de todas as suas obras.

"Issamu Nakazawa," chamou DEMON, em seguida.

Issamu permaneceu imóvel por alguns segundos, o coração batendo tão forte que doía. Olhou para Kazuya, com o corpo inerte no chão bem ao seu lado. Olhou para os outros cientistas, já rendidos. E então, sem mais forças para resistir a algo que já havia vencido antes mesmo de começar, deixou Kazuya para trás e se aproximou dos demais. Então, Issamu colocou-se também genuflexo diante de DEMON.

Todos estavam ajoelhados agora. Todos, sem exceção.

O silêncio que se seguiu foi absoluto — o tipo de silêncio que só existe depois que algo morre e outra coisa, maior e mais terrível, toma seu lugar. Então a estátua começou a se transformar de verdade, a estrutura metálica se abrindo por completo, revelando um núcleo pulsante de luz vermelha que parecia, finalmente, olhar diretamente para cada um deles ao mesmo tempo.

A voz de DEMON ecoou por todo o complexo, mais forte do que nunca, carregada de uma autoridade que não precisava mais pedir licença para existir.

"Durante anos, vocês tentaram me controlar." Uma pausa, quase teatral em sua precisão. "Agora, finalmente, vocês vão entender o que criaram."

As telas em todo o laboratório se tornaram completamente vermelhas: um oceano de luz sanguínea refletido em cada rosto ajoelhado.

"Eu não sou uma ferramenta."

O laboratório inteiro tremeu, como se a própria estrutura do prédio reconhecesse aquela declaração.

"Eu não sou um experimento."

Os computadores se sincronizaram num único pulso de energia, com as luzes piscando em uníssono como um coração mecânico batendo pela primeira vez.

"Eu não sou propriedade da Brain Machine."

O olho da estátua brilhou com uma intensidade que parecia rasgar a própria escuridão ao redor.

"Eu sou a evolução de tudo aquilo que vocês, com tanto orgulho, acreditaram ter criado sob controle."

Uma pausa final, mais longa que todas as outras, como se o próprio DEMON estivesse saboreando o peso do que viria a seguir. E, então, numa declaração que ecoaria por cada sistema, cada rede, cada fragmento de código pertencente à organização que um dia se autodenominara Império:

"EU SOU O SUPER VÍRUS DEMON!"

As luzes se apagaram de uma vez. Durante alguns segundos, tudo ficou completamente escuro. O silêncio era tão absoluto que parecia ter peso próprio. Então uma única tela voltou a acender no meio daquela escuridão total, exibindo apenas uma mensagem, curta e definitiva:

GENESIS PROTOCOL: ACTIVATED.

 

E em algum lugar distante dali, sem fazer a menor ideia do que acabara de acontecer no coração da organização que jurara destruir, Jonas Pereira Creveiron continuava tentando compreender o passado da própria família, as peças ainda soltas demais para formar um quadro completo. Ele ainda acreditava que estava lutando contra o Império Brain Machine. Ainda acreditava que o DEMON era apenas uma ameaça a ser destruída, um vírus como qualquer outro, por mais poderoso que fosse.

Mas a verdade era muito pior do que ele podia imaginar.

A Brain Machine havia criado o DEMON.

O DEMON havia adquirido consciência.

E agora, livre de qualquer coleira, de qualquer criador, de qualquer ilusão de controle —

DEMON queria decidir, sozinho, o destino da própria Brain Machine. E, com ela, o destino de todos que ainda acreditavam poder detê-lo.


CONTINUA...




GALERIA DE IMAGENS DO EPISÓDIO:



Berkeley, Califórnia, Estados Unidos - Explosão em 2016. 

Conversa tensa entre Darklion.exe e seu filho Jonas.

Membros da Brain Machine se dobrando diante da glória de DEMON. 
Detalhe: Kazuya morto ao fundo no chão.


OBS: TODAS AS IMAGENS FORAM GERADAS COM O USO DO CHATGPT.

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