Boa tarde a todos.
O retorno deste primeiro capítulo foi muito bom, eu fiquei bem satisfeito.
Espero que gostem deste novo capítulo.
2. A Porta de Vidro
Davi seguia pelas calçadas da cidade com o simples intuito de comprar algo no mercadinho, guiado pela necessidade e pela inquietação que o acompanhava desde que saíra de casa. Aquele ambiente urbano nunca fora seu habitat natural; ele não se sentia à vontade ali, como se cada passo fosse dado em território estrangeiro.
As pessoas passavam apressadas, cada uma imersa em seu próprio mundo, e Davi se sentia como um intruso, alguém que caminhava entre vidas que não lhe pertenciam.
Ao passar por lugares familiares, não sentiu nada além do reconhecimento automático: a lotérica, o banco, a perfumaria, a loja de remédios fitoterápicos. Ele sabia que já estivera ali inúmeras vezes, mas a lembrança não despertava emoção alguma. Reconhecia e ignorava ao mesmo tempo. Não queria lembrar da vida que tinha antes do que acontecera — antes do que o destruíra. Era como se cada fachada, cada vitrine, cada placa carregasse um fragmento de um passado que ele se recusava a revisitar.
De repente, começou a chuviscar. Era aquele tipo de garoa traiçoeira que todos sabem que vai engrossar, que exige atenção caso o tempo resolva piorar. As primeiras gotas tocaram sua pele como pequenos avisos, frios e insistentes.
E piorou.
A chuva rapidamente ficou mais forte, pesada, quase agressiva. Davi olhou ao redor em busca de abrigo, qualquer lugar onde pudesse se proteger daquela água incômoda. Tudo o que ele queria era um pouco de paz, sem novos imprevistos, sem novos incômodos. Mas parecia que o universo tinha outros planos.
Era como se algo o conduzisse. Uma força invisível, insistente, que o empurrava para longe do caminho habitual. As ruas pareciam diferentes — mais vivas, menos opacas. E não era impressão. Ele realmente percebia algo mudando ao seu redor, como se a cidade respirasse de outro jeito, como se estivesse tentando lhe dizer algo.
Sem perceber como, encontrou-se em um beco estreito, repleto de latas e sacos pretos de lixo apoiados sobre paletes, para evitar que o conteúdo se espalhasse pelo chão. O cheiro não era agradável, mas, estranhamente, Davi sentia no fundo do peito que aquele era o lugar onde deveria estar. Era irracional, mas a sensação era tão forte que ele não conseguiu ignorá-la.
Com a chuva tamborilando ao redor e seu corpo encharcado, ele avançou para a parte mais profunda do beco. Uma lona esticada acima de sua cabeça rangia sob o peso da água acumulada, emitindo ruídos tensos, quase dolorosos. Davi ouvia com clareza o esforço do material para não ceder. Seus passos ecoavam no chão de pedra assentada com cimento, como se o mundo lá fora tivesse sido silenciado de propósito. Era como se estivesse entrando em outro espaço, separado da realidade comum.
E então, naquele lugar inóspito, ele encontrou uma porta.
Não era uma porta comum. Parecia espelhada, mas não como os espelhos que conhecemos. Havia algo sobrenatural nela, algo que não pertencia ao mundo real. Davi tinha certeza disso. Aquilo não deveria existir em um mundo sem magia. A superfície refletia o beco, mas de um jeito distorcido, como se estivesse vivo, respirando, observando.
A porta estava ali, no meio do caminho, sem moldura, sem parede, sem qualquer suporte. Apenas existia. Tinha um puxador perolado e brilhava como se o convidasse a atravessá-la. Davi sentiu um impulso quase instintivo de tocá-la, de descobrir o que havia do outro lado, mas lutou contra a própria curiosidade. Algo dentro dele dizia que aquilo mudaria tudo — e ele não sabia se estava pronto para mudanças.
Aproximou-se devagar, hesitante. Sabia que aquilo não era vidro comum — sua imagem refletida ondulava como a superfície de um lago quando uma pedra é lançada. Quanto mais perto chegava, mais intensa ficava a ondulação. Era como se sua simples respiração agitasse aquela superfície líquida. Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Mas o que ele não esperava aconteceu: a porta o puxou.
Num instante, ele a atravessou. Ao tocá-la, sentiu como se mergulhasse em água gelada, mas, ao emergir do outro lado, percebeu que estava completamente seco. O choque foi tão grande que ele precisou de alguns segundos para recuperar o fôlego.
Encontrou-se em uma pequena praça, em uma cidade silenciosa e iluminada, onde tudo parecia ser feito do mesmo material espelhado da porta. Seres de todos os tipos circulavam por ali. A luz refletia em todas as superfícies, criando um espetáculo de cores e brilhos que parecia impossível.
Havia híbridos de humanos e animais. Havia elfos, anões, goblins — criaturas que ele só conhecia da ficção. Havia até construtos vivos, feitos do mesmo material brilhante das construções. Cada um deles caminhava com naturalidade, como se aquele fosse o centro do universo.
As edificações refletiam o céu, e, independentemente da raça, todos ostentavam espelhos pendurados no peito. Cada espelho refletia imagens relacionadas à essência daquelas pessoas — seus “eus” interiores. Davi percebeu isso ao observar as cores, formas e emoções que pulsavam nos reflexos. Alguns espelhos até exalavam cheiros ou texturas, conforme seus donos os tocavam. Era como se cada indivíduo carregasse sua alma à mostra.
Então percebeu que também carregava um espelho: um pequeno pingente pendurado em seu pescoço.
Mas o dele estava embaçado. Opaco. Como se sua vida inteira tivesse passado diante de si como um borrão. E era óbvio que todos ao redor notavam. Alguns o olhavam com desdém, como se carregar um espelho assim fosse um sacrilégio. Outros desviavam o olhar, como se sua simples presença fosse desconfortável.
Desviando o olhar, tentando evitar o julgamento explícito, Davi pensou em voltar. Mas a porta havia desaparecido. Não havia retorno imediato. Ele teria de enfrentar aquele novo mundo — e seus julgamentos.
Escondeu o espelho sob a camisa e começou a observar ao redor. Queria entender como aquelas pessoas lidavam com os reflexos umas das outras, qual era a lógica daquele lugar. Era evidente que os espelhos eram importantes, talvez sagrados. E, pelo que percebia, deveriam ser puros, cristalinos, reveladores.
O dele não era nada disso.
Seu espelho parecia esconder tudo o que seu interior abrigava. Mas será que ele realmente queria saber o que havia ali dentro? Será que não era melhor permanecer na ignorância? Às vezes, não saber é uma forma de proteção.
Antes mesmo de analisar o ambiente, Davi mergulhou em si. Sentiu a culpa que carregava — uma culpa que talvez nem fosse sua. Culpava-se por algo que não compreendia totalmente, e aquele lugar parecia apenas reforçar esse sentimento. Era como se o espelho opaco fosse um lembrete constante de tudo o que ele tentava esquecer.
Ser julgado ali o fez lembrar imediatamente de seu próprio mundo. A sensação era a mesma.
O peso era o mesmo.
“Saí daquele mundo para ser julgado em outro… Será que o problema sou eu?”, pensou, enquanto sua mente se tornava um turbilhão de autocrítica e punição.
Mas então, algo suave — quase como uma luz — atravessou seus pensamentos. Uma intuição, um sussurro interno, pedindo que ele desse uma chance àquele lugar. Que tentasse entender o que se passava com seu espelho, por que ele estava daquela maneira.
Ele estava dividido. Seu eu interior queria explorar, descobrir, conhecer, viver algo novo. Seu eu exterior, marcado pelas feridas deixadas pelas pessoas da Terra, temia se machucar novamente. Temia ser julgado mais uma vez.
Aquele momento poderia enterrá-lo de vez ou libertá-lo para uma aventura como as que lera nos livros desde criança.
E foi ali, entre medo e curiosidade, que Davi tomou sua decisão.
Ele iria explorar aquele lugar. Não tinha mais nada a perder. Estava longe de casa, em um mundo que não entendia, cercado por seres que o julgavam sem conhecê-lo — ou talvez conhecessem mais do que ele imaginava.
De qualquer forma, ele não ficaria parado.
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1 Comentários
A história continua interessante. A introdução do elemento fantástico do outro mundo, para mim, ficou um tanto quanto abrupto. Eu tava curtindo bastante o que parecia ser uma caminhada, longa ou não, para fora dessa depressão em que o protagonista estava afundando.
ResponderExcluirVamos ver aonde essa porta espelhada levará o protagonista e nós também.