Capítulo Único
Ato 1: Vivendo no Limite
O rugido do motor ecoava pelas ruas de Tóquio como um grito de guerra.
Gai Yuki acelerava sua motocicleta customizada através do tráfego noturno, desviando de carros com uma precisão que beirava a insanidade.
O vento açoitava seu cabelo rebelde enquanto ele ria — aquela risada selvagem que fazia as pessoas se perguntarem se ele tinha algum instinto de sobrevivência.
Ele não tinha medo. Nunca teve.
"Gai! Você está louco?" gritou Saki, a garota na garupa, agarrando-se a ele com força.
Gai sorri:
"Louco é quem vive na gaiola, querida!" ele respondeu, aumentando ainda mais a velocidade.
Para Gai Yuki, a vida era uma pista de corrida sem linha de chegada.
Aos vinte e poucos anos, ele havia abandonado a escola, decepcionado a família e se tornado exatamente o que todos esperavam: um problema.
Mas para ele, isso era liberdade.
Liberdade para fazer o que quisesse, quando quisesse, sem seguir as regras sufocantes de uma sociedade que exigia conformidade.
Mulheres, boêmia...
Cigarros, bebidas fortes...
Notadas e rebeldia...
Muita rebeldia!
Ele trabalhava ocasionalmente como mecânico, quando o dinheiro acabava.
Tocava saxofone em bares sujos quando a alma pedia. E corria. Sempre corria — de motos a carros, de responsabilidades a compromissos.
Naquela noite, depois de deixar Saki em casa com um beijo descuidado e uma promessa vazia de ligar depois, Gai encontrou-se sozinho na estrada costeira.
A lua cheia refletia no oceano, e pela primeira vez em semanas, ele diminuiu a velocidade. Havia algo no ar — uma estranheza que ele não conseguia identificar.
Foi quando viu a luz...
Um clarão vermelho rasgou o céu noturno, seguido por uma explosão que fez a terra tremer. Gai parou a moto, os olhos arregalados enquanto observava algo impossível: uma nave espacial, envolta em chamas, despencando do céu como um meteoro condenado.
"Que diabos é isso?”...
Ele não teve tempo de completar o pensamento. Do céu, cinco raios de luz colorida explodiram da nave em queda, dispersando-se em direções diferentes. Um deles — negro como a noite, poderoso como uma tempestade — veio direto em sua direção.
Gai nem teve tempo de correr.
A onda de energia o atingiu em cheio, jogando-o da moto.
Dor. Uma dor indescritível percorreu cada célula de seu corpo, como se estivesse sendo reescrito de dentro para fora.
Ele gritou, arqueando as costas contra o asfalto, sentindo algo selvagem e primitivo despertar dentro dele.
Asas. Garras. Instintos de caça.
E então, tudo ficou preto...
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Quando Gai acordou, estava em uma base militar subterrânea, cercado por pessoas de uniformes e equipamentos que pareciam saídos de um filme de ficção científica.
Sua cabeça latejava, e havia algo diferente —algo fundamental que havia mudado dentro dele.
"Você está acordado", disse uma voz firme.
Gai virou-se e viu um homem de aparência militar, postura impecável e olhar intenso. Ryū Tendo — o comandante Tendo, como ele logo descobriria.
"Onde estou? O que aconteceu comigo?" Gai sentou-se bruscamente, sentindo uma energia estranha pulsando em suas veias.
"Você foi escolhido", disse Ryū, aproximando-se. "Pela Birdonic Wave. Uma tecnologia que deveria criar a equipe Jetman para defender a Terra contra a ameaça Vyram. Mas houve um acidente..."
A reação de Gai não poderia ser a pior e mais ríspida possível: "Escolhido? Eu não escolhi porcaria nenhuma!"
Gai levantou-se, agressivo. "Eu estava apenas dirigindo e—"
"E agora você tem poderes que não pode simplesmente ignorar. Poderes que vêm com responsabilidades."
Gai riu — aquela risada amarga e desafiadora. "Responsabilidade? Você pegou o cara errado, amigo. Eu não sigo ordens. Não sigo ninguém."
O olhar de Ryū endureceu. "Então você é egoísta o suficiente para deixar pessoas morrerem enquanto você continua 'vivendo livre'?"
A frase atingiu Gai como um soco. Mas em vez de admitir, ele virou as costas. "Encontre outro herói. Eu estou fora."
Saindo sem rumo com sua moto pelas ruas de Tóquio ele diz a si mesmo. “Ora...Ninguém me dá ordens. Muito menos um militar com cara de subalterno , metido a certinho”...
Mas fugir do destino, não seria tão simples assim, como Gai cogitou...
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Nas semanas seguintes, Gai tentou voltar à sua vida normal. Mas nada era mais normal.
Ele podia sentir coisas que não deveria — o pulso do vento, a aproximação de perigo, uma conexão inexplicável com os céus. E então havia os sonhos — sonhos de batalha, de destruição, de uma guerra que estava vindo quer ele quisesse ou não.
E havia Ryū.
O maldito comandante Tendo aparecia em todos os lugares — no bar onde Gai tocava, na oficina onde trabalhava, até mesmo na pista de corrida clandestina onde ele apostava seu último dinheiro.
Sua insistência persuasiva começava a incomodá-lo: "Você não desiste, não é?"
Gai zombou, limpando graxa das mãos.
"Não quando está em jogo a vida de milhões de pessoas", Ryū respondeu calmamente.
"Você pode fingir que não se importa, Yuki. Mas eu vi seus olhos quando aquele monstro Vyram atacou o distrito ontem. Você queria lutar."
"Eu queria sobreviver. É diferente”...
"É a mesma coisa quando você tem poder para fazer a diferença."
Gai cerrou os punhos. Ele odiava admitir, mas Ryū tinha razão.
Desde que fora atingido pela onda, algo dentro dele clamava por ação, por propósito.
A liberdade que ele tanto amava estava começando a parecer... vazia.
Mas aceitar isso significaria mudar. Significaria compromisso.
E Gai Yuki nunca havia se comprometido com nada na vida e nem com ninguém...
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A decisão foi tomada por ele quando viu o rosto dela — uma garota presa nos escombros de um prédio destruído por um ataque Vyram, gritando por ajuda enquanto o fogo se aproximava. Sem pensar, Gai correu. Não como ele mesmo, mas como algo mais.
"JETMAN!"
A transformação o tomou instintivamente. O traje negro e branco se materializou ao redor de seu corpo, asas surgindo de suas costas. Ele voou pelos destroços, pegou a garota e a tirou segundos antes do prédio desabar completamente.
Quando a colocou no chão, em segurança, ela o olhou com lágrimas nos olhos. "Obrigada... obrigada..."
Gai não disse nada. Apenas observou suas próprias mãos enluvadas, sentindo o peso do poder — e da escolha.
Quando Ryū chegou com o resto da equipe, Gai estava esperando.
"Tudo bem", ele disse, aquela risada rebelde ainda nos lábios, mas algo diferente no olhar. "Eu entro no seu clubinho. Mas com uma condição."
"Qual?"
"Eu faço do meu jeito."
Ryū estendeu a mão. "Não esperaria menos do Black Condor."
Gai apertou a mão dele, selando um pacto que mudaria sua vida para sempre. A liberdade que ele conhecia tinha acabado. Mas talvez, apenas talvez, ele estava prestes a descobrir um novo tipo de liberdade.
A liberdade de escolher lutar por algo maior que si mesmo.
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## Capítulo A Canção da Liberdade
Três meses haviam se passado desde que Gai Yuki aceitara seu destino como Black Condor. Três meses de batalhas, de transformações, de trabalho em equipe — algo que ele nunca imaginou ser capaz de fazer. E no entanto, ali estava ele, lutando lado a lado com Ryū Tendo, o homem que ele inicialmente desprezava e que agora, relutantemente, respeitava.
Mas o respeito não apagava a tensão.
"Você não pode simplesmente sair voando por aí sem coordenar com a equipe, Gai!" A voz de Ryū ecoava pela base. "Você quase arruinou toda a formação!"
Gai estava sentado em um canto, polindo sua moto, sem nem olhar para o líder. "Eu peguei o monstro, não peguei? Missão cumprida."
"Não é sobre pegar o monstro! É sobre—"
"Trabalho em equipe, disciplina, blá blá blá. Eu sei, comandante." Gai finalmente ergueu os olhos, desafiadores. "Mas se você ainda não percebeu, eu não sou soldado. Nunca vou ser."
Antes que Ryū pudesse responder, uma voz suave interveio.
"Ele tem razão, Ryū."
Kaori Rokumeikan — White Swan — entrou na sala com sua elegância característica. Ela olhou para ambos os homens com aquela sabedoria silenciosa que poucos possuíam. "Gai luta do jeito dele. E até agora, tem funcionado."
"Obrigado, princesa", Gai disse com um sorriso de lado.
Kaori aproximou-se dele. "Mas isso não significa que você não precise de nós, Gai. Nenhum de nós pode vencer sozinho."
O sorriso de Gai vacilou. Ela tinha uma maneira irritante de atravessar suas defesas.
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Naquela noite, Gai não conseguiu dormir. Pegou seu saxofone e foi para o terraço da base, onde a lua cheia iluminava o céu estrelado. Ele começou a tocar — uma melodia melancólica que ecoava na solidão da noite.
A música sempre fora sua verdadeira voz. Quando as palavras falhavam, o saxofone falava por ele. E naquela noite, ele tocava sobre conflito — sobre ser puxado entre dois mundos. O mundo da liberdade absoluta que ele conhecia, e o mundo da responsabilidade que agora habitava.
"Bonita música."
Ele parou de tocar e virou-se. Kaori estava ali, envolta em um xale, sorrindo gentilmente.
"Você não deveria estar dormindo?" ele perguntou, guardando o instrumento.
"Poderia perguntar o mesmo." Ela se aproximou e ficou ao lado dele, observando as estrelas. "Você toca quando está confuso. Eu já percebi."
Gai deu de ombros. "É mais barato que terapia."
Houve um silêncio confortável entre eles. Então Kaori falou, sua voz quase um sussurro.
"Você sabe... eu entendo você, Gai. Mais do que imagina."
Ele a olhou, surpreso. "Você? A herdeira perfeita, rica, com uma vida planejada desde o nascimento? Sem ofensa, mas duvido."
Kaori sorriu tristemente. "Exatamente por isso. Minha vida inteira foi decidida por outros. Eu nunca tive escolha. Nunca fui livre para simplesmente... ser." Ela virou-se para ele. "Por isso admiro você. Você escolheu sua vida. Mesmo agora, como Jetman, você luta por escolha própria, não por obrigação."
Gai ficou em silêncio, processando as palavras dela. Ele nunca havia pensado assim.
"Mas sabe o que percebi?" Kaori continuou. "A verdadeira liberdade não é fazer o que quer sem consequências. É ter o poder de escolher, mesmo quando a escolha é difícil. Você escolheu lutar, Gai. E essa foi a escolha mais livre que você já fez."
Algo se moveu dentro dele. Algo profundo e inegável.
"Você é irritantemente sábia, sabia?" ele disse, tentando esconder a emoção na voz.
Ela riu. "Alguém precisa ser."
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A batalha final dessa fase veio mais rápido do que esperavam. Radiguet, o comandante Vyram, havia preparado uma armadilha mortal — uma bomba dimensional que destruiria toda a cidade se não fosse desarmada. Mas para alcançá-la, alguém precisaria atravessar um campo de energia letal.
"Eu vou", Gai disse imediatamente.
"Não", Ryū respondeu. "É muito perigoso. Vamos encontrar outra—"
"Não há outra maneira e você sabe disso!" Gai o cortou. "Minha velocidade é a única chance que temos."
"Então eu vou com você."
Gai olhou para Ryū — realmente olhou — e pela primeira vez viu não apenas um comandante rígido, mas um homem que se importava. Um homem que estava disposto a morrer ao lado de seu companheiro.
"Não, Ryū." Gai colocou a mão no ombro dele. "Você é o líder. A equipe precisa de você. Mas eu..." Ele sorriu — aquele sorriso selvagem e livre. "Eu nasci para voar sozinho."
"Gai—"
"Confie em mim. Pela primeira vez... confie em mim."
Ryū hesitou, então assentiu lentamente. "Volte vivo, seu idiota rebelde."
Gai riu. "Vou tentar..."
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A transformação nunca havia parecido tão poderosa. O traje de Black Condor brilhava enquanto Gai disparava pelo céu, suas asas cortando o vento com velocidade supersônica. O campo de energia o atingia de todos os lados, queimando, rasgando, mas ele não diminuiu a velocidade.
"Vamos lá, Gai!" ele gritou para si mesmo. "Você nasceu para isso!"
“Mostre do que você é capaz!”
Memórias inundaram sua mente — sua moto, as corridas, a música, Kaori sorrindo para ele, Ryū estendendo a mão. Tudo que ele era, tudo que ele se tornara.
Ele alcançou a bomba. Com movimentos precisos, desarmou o dispositivo segundos antes da detonação. O campo de energia desapareceu, e Gai flutuou no ar por um momento, ofegante, mas vivo.
Vivo e livre.
Quando voltou para a base, a equipe o esperava. Kaori foi a primeira a abraçá-lo, lágrimas nos olhos. "Você conseguiu, seu idiota!"
Ryū estendeu a mão, mas Gai a ignorou e o puxou para um abraço fraternal. "Obrigado", ele sussurrou. "Por me dar algo pelo que lutar."
Naquela noite, no terraço, Gai tocou seu saxofone novamente.
Mas desta vez, a melodia era diferente. Não era sobre conflito ou solidão.
Era sobre liberdade.
A verdadeira liberdade — a liberdade de escolher, de lutar, de amar, de pertencer.
E pela primeira vez em sua vida, Gai Yuki entendeu o que realmente significava voar.
Mas seus voos nem sempre foram certeiros e triunfais...
Aliás, alguns foram desastrosos...
Principalmente no que tange aos sentimentos...
A disputa pelo coração de Kaori com Ryū Tendo, era um problema que ele não soube administrar.
Sua rebeldia era incompatível com a vida luxuosa dos pais da da jovem.
Orgulhoso, arrogante e estupidamente intransigente, Gai foi perdendo terreno pra Tendo, o líder disciplinado e centrado; mais próximo do perfil que os pais de Kaoru desejavam pra sua filha.
O tempo passou...
Os Jetman venceram...
Gai, ao perder o coração de Kaori para Tendo, se afastou...
Não havia muito o que fazer...
Meses depois, em uma manhã ensolarada, Gai caminharia por uma rua qualquer, seu saxofone nas costas, um sorriso no rosto. Ele protegeria uma garota de um assaltante — não como Black Condor, mas como Gai Yuki, o homem.
E uma faca encontraria seu coração.
Mas mesmo em seus últimos momentos, enquanto Kaori gritava seu nome e Ryū corria para socorrê-lo, Gai sorriria. Porque ele vivera. Realmente vivera.
E voara mais alto do que jamais imaginou possível.
Sua canção de liberdade ecoaria para sempre...
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Depoimentos
**Um ano depois do funeral de Gai Yuki, três guerreiros pretos se reuniram em um memorial especial. Eles nunca haviam conhecido Gai pessoalmente, mas sua história atravessou o tempo e as equipes, tornando-se lenda entre aqueles que vestem o preto.**
**Depoimento de Masumi “Bouken Black” Inou (GoGo Sentai Boukenger)**
Masumi estava em pé diante da pequena placa memorial que os Jetman haviam erguido no lugar onde Gai caiu. Ele segurava seu chapéu nas mãos, os olhos fixos na inscrição: *”Gai Yuki – Ele voou livre até o fim”*.
“Eu nunca te conheci, Gai”, Masumi começou, sua voz normalmente séria carregada de emoção. “Mas li sobre você. Sobre o rebelde que se tornou herói. Sobre o homem que nunca perdeu sua essência, mesmo quando o mundo tentou moldá-lo.”
Ele apertou o chapéu com força. “Eu entendo você mais do que imagina. Eu também fui um solitário. Um caçador de tesouros que não precisava de ninguém. Que acreditava que laços apenas tornavam você fraco.” Masumi olhou para o céu. “Mas você descobriu a verdade antes de mim, não foi? Que os laços não te prendem... eles te dão asas.”
Ele colocou uma pequena pena negra no memorial — um símbolo de respeito entre guerreiros pretos.
“Quando eu luto, quando sinto vontade de voltar a ser o lobo solitário que era, penso em você. No homem que escolheu ficar. Que escolheu lutar. Que escolheu amar.” Masumi sorriu levemente. “Obrigado, senpai. Por me mostrar que podemos ser pretos — intensos, rebeldes, livres — sem estar sozinhos.”
Ele fez uma reverência profunda. “Voe alto, Black Condor. Onde quer que esteja.”
**Depoimento de Takeru “Shinken Black” Shiba (Samurai Sentai Shinkenger)**
Takeru estava ajoelhado diante do memorial, suas mãos juntas em oração. O jovem samurai, normalmente tão concentrado e sério, tinha lágrimas escorrendo pelo rosto.
“Gai-san”, ele começou, usando o honorífico respeitoso. “Meu nome é Takeru Shiba. Eu sirvo como vassalo do Shinken Red, protegendo o mundo dos Gedoushu. Eu vivo pelo código do bushido — lealdade, honra, sacrifício.”
Ele pausou, a voz tremendo. “Mas quando ouvi sua história, percebi algo. Percebi que há diferentes formas de honra. Você não seguia o código de ninguém, mas mesmo assim morreu para salvar uma inocente. Você não prometeu lealdade eterna, mas lutou lado a lado com seus companheiros até o fim.”
Takeru limpou as lágrimas, mas outras vieram. “Eu carrego o peso do meu clã. Das expectativas. Do dever. E às vezes... às vezes eu esqueço de viver. De rir. De ser apenas Takeru, não Shinken Black.”
Ele tocou a placa memorial com reverência. “Você me lembra que podemos ser guerreiros e ainda assim ser humanos. Que podemos seguir nosso próprio caminho e ainda assim estar ao lado daqueles que amamos.”
Takeru retirou um pequeno origami de condor que ele mesmo havia feito — horas de trabalho meticuloso — e o colocou cuidadosamente no memorial.
“Obrigado por me ensinar que a verdadeira força não vem apenas da disciplina, mas também do coração. Que honra não significa sufocar quem você é.” Sua voz era apenas um sussurro agora. “Sayonara, Gai-san. Que sua alma voe livre para sempre.”
**Depoimento de Champ “Oushi Black” (Uchu Sentai Kyuranger)**
O robô humanoide estava em pé, sua forma metálica brilhando sob o sol. Champ — o lutador mecânico com coração de touro — olhava para o memorial com seus olhos fotorreceptores brilhando em uma tonalidade mais suave.
“Oi, Gai”, Champ disse, sua voz processada mas incrivelmente calorosa. “Eu sou Champ. Um robô que aprendeu a sentir. Que aprendeu que ter emoções não te torna fraco — te torna vivo.”
Ele cruzou os braços, sua postura lembrando um lutador prestando respeito a outro. “Você sabe, quando fui criado, me programaram para ser uma máquina de luta. Eficiente. Letal. Sem distrações emocionais.” Champ deu uma risada mecânica. “Mas meus amigos me ensinaram diferente. E sua história... sua história reforçou isso.”
Ele apontou para o céu. “Você voava, cara. Literalmente voava. E não porque suas asas eram fortes, mas porque seu espírito era livre. Você me ensinou que não importa se somos feitos de carne ou metal, orgânicos ou sintéticos — o que importa é como escolhemos viver.”
Champ ajoelhou-se, uma ação incomum para sua estrutura de combate. “Eu luto pela liberdade da galáxia. Contra tiranos que querem escravizar todos nós. E toda vez que enfrentamos o impossível, penso em histórias como a sua. De rebeldes que se recusaram a se curvar. Que escolheram lutar, não porque eram perfeitos, mas porque se importavam.”
Ele colocou sua mão metálica sobre a placa. “Você salvou aquela garota não porque era seu dever. Não porque estava transformado. Mas porque era quem você era. Um rebelde fabuloso com um coração maior que o universo.”
Champ levantou-se, fazendo a saudação militar de sua equipe. “Continue voando, aniki. Os pretos de todas as gerações voarão com você.”
### Depoimento Póstumo de Gai Yuki
*Entre os pertences de Gai, Kaori havia encontrado um envelope lacrado endereçado “Para quando eu não estiver mais aqui (porque vamos ser honestos, vivo perigosamente)”. Com mãos trêmulas e o resto da equipe Jetman ao seu redor, ela abriu e leu em voz alta:*
“Ei, pessoal.
Se vocês estão lendo isso, significa que finalmente aconteceu. Eu sempre soube que viveria rápido e morreria jovem — é tipo a marca registrada dos rebeldes, não é? Mas não fiquem tristes. Sério. Se tem uma coisa que odeio é gente chorando por mim como se minha vida tivesse sido uma tragédia.
Não foi.
Ryū, seu idiota teimoso. Eu sei que você vai se culpar. Vai achar que se tivesse me treinado melhor, me disciplinado mais, isso não teria acontecido. Mas para com isso. Você me deu algo que ninguém nunca deu: respeito. Você confiou em mim quando ninguém mais confiava. E cara, isso significou tudo. Você é o melhor líder que um rebelde como eu poderia ter pedido. Continue voando, Red Hawk. E tenta relaxar de vez em quando, tá? Nem tudo na vida é ordem e disciplina.
Kaori... princesa. Você foi a primeira pessoa a realmente me ver. Não o rebelde, não o problema, mas o Gai. Você me ensinou que liberdade não é fugir de conexões — é escolher ficar. Você tornou minha vida mais brilhante do que qualquer corrida de moto ou solo de saxofone. Obrigado por me mostrar que eu poderia ser amado, mesmo sendo uma bagunça. Case com alguém legal, tá? Alguém que te mereça.
Raita, Ako — vocês dois me fizeram rir até quando tudo parecia sombrio. Obrigado por aguentarem minhas brincadeiras idiotas e por sempre terem minhas costas. Vocês são os melhores amigos que um cara como eu não merecia, mas teve a sorte de ter.
E para todos vocês, Jetman: obrigado por me darem uma família. Eu passei a vida inteira fugindo, nunca ficando tempo suficiente para criar raízes. Mas vocês... vocês foram minhas raízes. Meu chão firme. Meu céu aberto.
Eu não me arrependo de nada. Cada corrida maluca, cada batalha, cada momento com vocês — valeu a pena. Eu vivi mais em alguns meses como Black Condor do que em toda minha vida antes.
Então não chorem por mim. Comemorem. Toquem música bem alto. Andem rápido demais. Riam até o estômago doer. Vivam tão intensamente que o mundo não tenha escolha senão notar.
E quando olharem para o céu e virem um condor voando livre, saibam que sou eu. Ainda rebelde. Ainda fabuloso. Ainda livre.
Voarei sempre com vocês.
Para sempre seu,
Gai Yuki
Black Condor
P.S.: Ryū, minha moto é sua agora. Tenta não batê-la, militar engomadinho.
P.P.S.: Kaori, meu saxofone está embaixo da minha cama. Toca algo bonito por mim de vez em quando?”
*Kaori terminou de ler, as lágrimas caindo sobre o papel. Mas ela estava sorrindo — todos estavam. Porque mesmo na morte, Gai Yuki os fez lembrar de viver.*
*Naquela noite, no terraço da base, Kaori tocou o saxofone de Gai pela primeira vez. A melodia era trêmula, imperfeita, mas carregada de amor.*
*E em algum lugar além das estrelas, um condor negro voava livre, rindo com aquela risada selvagem e fabulosa que jamais seria esquecida.*
**FIM**
*”A verdadeira liberdade não é voar sozinho — é escolher com quem voar.”*
*— Gai Yuki, Black Condor*












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