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A Cidade dos Espelhos - Reflexo 8


Bom dia, boa tarde e boa noite.

Finalmente consegui ter meu ritmo de volta, então recebam mais um capítulo.

Espero que gostem.


8. O Corvo da Vergonha

 

 

Foi então que Lira decidiu levar Davi à sala seguinte. Ele havia tomado decisões importantes no Jardim das Memórias e, segundo ele mesmo, aquela etapa tinha sido a mais transformadora até então. Era como se algo dentro dele tivesse finalmente encontrado espaço para respirar, como se uma parte esquecida de sua alma tivesse sido resgatada.

Os dois caminharam calmamente pelo corredor que conectava o jardim à próxima sala, observando a paisagem ao redor. A sala anterior era enorme, ampla o suficiente para que qualquer pessoa pudesse visualizar suas memórias com clareza. A flora diversificada, as cores vibrantes e a luz suave faziam daquele o ambiente mais acolhedor que Davi havia visto até o momento. Era quase um refúgio — e talvez por isso tivesse sido tão difícil deixá-lo para trás.

O corredor, porém, era como todos os outros: cinza, simples, quase indiferente. Um contraste gritante com o jardim colorido. E, quando a porta da próxima sala surgiu à vista, Davi sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele conhecia aquela sensação — e nunca era um bom sinal. Parte dele queria recuar, ser prudente. Outra parte queria simplesmente seguir em frente, sem pensar nas possíveis consequências. Mas ele sabia que não podia fugir. Não mais.

Assim que entrou, percebeu que estava sozinho novamente.

O cenário tinha tons avermelhados, como se a sala respirasse uma luz quente e incômoda. O ar parecia mais denso ali, quase pesado. À sua frente, pousada no chão, havia uma ave de plumagem negra, tão escura quanto a noite mais profunda. Seus olhos brilhavam como pequenas brasas.

Davi nunca tinha visto um corvo antes. Lira percebeu sua confusão e, antes de desaparecer como sempre acontecia nesses testes, disse:

“Esta ave é um corvo, Davi.”

Ele mal teve tempo de absorver a informação. Assim que entendeu o que era, o corvo avançou contra ele. Suas asas batiam com força, e cada investida parecia carregar algo mais do que simples agressividade — havia intenção, havia propósito.

Imagens começaram a surgir ao redor de Davi — memórias novamente. Mas, desta vez, eram diferentes. Quando ele percebeu do que se tratava, sentiu o rosto queimar de vergonha.

Cada ataque do corvo trazia à tona uma lembrança de falha. E, na opinião de Davi, cada uma era mais vergonhosa do que a anterior.

A ave o forçava a recuar, a se esconder, a fugir. A vergonha era tão intensa que ele mal conseguia respirar. A pior de todas as memórias surgiu quando ele se declarou para uma paixonite da adolescência — e foi cruelmente humilhado. Aquilo havia sido um dos gatilhos de sua introversão, um dos momentos que moldaram sua forma de se esconder do mundo.

“Não quero… Eu não preciso… Quero ir pra casa…”

A voz dele tremia. A vergonha o consumia, ainda mais porque Lira estava ali, observando. Ele havia se afeiçoado a ela, embora nunca tivesse dito nada. E agora, exposto daquela forma, sentia-se pequeno, frágil, ridículo.

O corvo conseguiu seu objetivo por um tempo. Davi recuou o máximo que pôde. Ele não suportava olhar para aquelas memórias. A vergonha era uma das partes mais profundas e dolorosas de sua personalidade. Era uma das pedras angulares de sua introversão, algo tão enraizado que ele mal conseguia encarar.

As memórias, vistas de fora, não eram tão vergonhosas assim. Algumas eram até doces, quando ele se permitia sentir. Mas a adolescência tornava tudo mais intenso — inclusive a humilhação causada por outros.

Ainda assim, como acontecera nas outras salas, Davi começou a observar suas memórias com mais calma. Mesmo encolhido, em posição fetal, ele percebeu que muitas daquelas situações não eram tão terríveis quanto lembrava. Ele nunca havia revisitado aquelas lembranças depois de adulto. E, agora, elas pareciam menores, quase inofensivas.

A maioria das vergonhas não era realmente dele. Eram reações exageradas de outras pessoas. Eram crueldades gratuitas. Eram momentos que o machucaram, mas que não definiram quem ele era.

Até mesmo aquela lembrança terrível — quando uma mulher o deixou nu no meio de um shopping — parecia pálida diante de tudo o que ele já havia enfrentado ali. Ele percebeu que, embora tivesse sido humilhante, aquilo não precisava mais ser uma prisão emocional.

Havia passado tanto tempo que a vergonha parecia parte de sua história, não uma sentença. E, pela primeira vez, ele conseguiu aceitar isso.

Foi errando naquela época que ele aprendeu a não errar nas seguintes. Sua vida, com todas as falhas, também era digna de aceitação.

Seus olhos estavam inchados de tanto chorar. Sua cabeça latejava. Ele precisou respirar fundo para entender sua nova realidade: ele estava aceitando a si mesmo. Aceitando sua vergonha. Aceitando sua história.

E, conforme ele aceitava, algo mudou.

As penas negras do corvo começaram a clarear, tornando-se cinzas. A ave parecia envelhecer diante de seus olhos, como se estivesse perdendo força. Como se a vergonha estivesse sendo drenada de dentro dela.

Quando Davi finalmente aceitou todas as vergonhas de sua vida, o corvo mudou de forma. Suas penas se tornaram brancas como neve. E, num bater de asas suave, a coruja alvíssima voou pela claraboia e desapareceu, deixando a sala silenciosa.

Davi caiu de joelhos. Ele não tinha mais forças para continuar. Enfrentar sua vergonha havia drenado toda a energia que ele havia recuperado com descanso e alimentação. Ele mal conseguia se levantar.

Lira correu até ele e o ajudou a se erguer. Levou-o de volta para casa, apoiando-o com cuidado. O cansaço era tão profundo que ele dormiu quase imediatamente, como se seu corpo finalmente tivesse permissão para desabar.

Ele levou um dia inteiro para recuperar suas energias. E, a cada momento de descanso, ele dormia melhor, entendia melhor tudo o que havia vivido. Aquele teste estava redefinindo tudo o que ele sabia sobre si mesmo.

Como ele poderia ser melhor que os outros, se já estava sendo melhor do que ele mesmo antes? Essa era uma conquista gigantesca. Ele finalmente estava aprendendo com seus erros — e se perdoando por eles.

Quando começou a se alimentar novamente, sentiu a energia voltar. E entendeu que, dali para frente, as coisas só ficariam mais intensas. Ele estava chegando ao cerne de si mesmo. Mudando partes fundamentais de sua vida.

“Lira… deveria ser tudo tão intenso assim?”

A dúvida era sincera, quase infantil.

“Varia de pessoa para pessoa”, respondeu ela. “Mas a sua, pelo que pude acompanhar, se tornou uma das mais difíceis. Quanto mais demônios interiores uma pessoa tem, mais difícil é vencê-los.”

E Davi sabia que ela tinha razão.

Conforme recuperava suas forças, a coragem voltava naturalmente. Mesmo que o teste o tivesse feito sofrer, ele estava mudando. Seu cerne estava voltando a ser o que era antes de todo o trauma.

E ainda havia muito mais pela frente. Segundo Lira, ele estava apenas na metade. Mas ela mesma admitia que não sabia o que esperar — porque o teste dele já havia surpreendido até mesmo a guardiã das tradições.

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