Caçador Escarlate.
Episódio #09.
Cinzas.
O silêncio era opressor, quebrado apenas pelo estalar seco que vinha dos focos do incêndio, que continuava a consumir a Torre da Luz, numa imensa pira funerária que iluminava a noite eterna imposta pelos vampiros.
Diante dos restos do que fora sua morada desde que haviam sido ativados, estavam Metalder e Top Gunther.
O androide sniper mantinha sob controle o sarcasmo e as piadas, que eram sua marca registrada desde que se iniciara a resistência contra a dominação vampírica, em respeito à perda que seu companheiro enfrentava naquele momento.
Por isso, enquanto Metalder se mantinha ajoelhado diante do prédio em chamas, Top Gunther se afastou conferindo todo o armamento que haviam reunido, principalmente uma mochila de metal que ele acoplara em suas costas.
Uma última explosão fez com que ele voltasse para o meio da rua, a tempo de ver o androide vermelho finalmente se levantar e dar as costas ao incêndio que continuava a consumir o que eles acreditavam ser a única esperança da humanidade.
— Vamos.
Tom seco. Sem emoção alguma. Robótico.
Em nada lembrava o humano que se sacrificou para que o Metalder despertasse.
— Você sabe que eles estão nos esperando não é, Vermelho?
— Desnecessário dizer o óbvio. Ainda assim vamos direto até o covil do mestre vampiro, destruiremos toda e qualquer resistência que se colocar no nosso caminho. Ou libertamos o país, ou seremos, afinal, destruídos de vez.
“Ele está evitando dizer até mesmo o nome do Japão.” o androide sniper tentava analisar como funcionaria a mente de seu colega naquele momento “O choque foi demais e agora ele tenta desumanizar tudo ao máximo”.
— Pessoalmente eu preferiria não ser destruído.
Metalder parou seu avanço inexorável e se voltou para o companheiro.
— Top Gunther. Você atuou como defensor da humanidade desde que os vampiros tomaram o país. Não poderia ser pedido a você mais nada, portanto, se assim preferir, podemos seguir caminhos diferentes a partir daqui. Aonde vou e o que pretendo fazer, dificilmente, deixará brechas para voltar funcionando.
Os dois estavam em uma avenida e, justamente naquele momento, à direita, uma rua seguia para longe do objetivo final que Metalder havia traçado.
— Como se eu tivesse algo melhor para fazer. — ele ergueu a imensa arma, a maior que encontrara no arsenal e, com sua mão livre, deu um leve soco de cima para baixo, no ombro do outro androide. — No fim do mundo, afinal de contas, não tem nada melhor que matar vampiros. Podemos ir?
— Claro que sim, mas antes…
Fazendo seu punho direito emitir energia crepitante, Metalder se voltou para a avenida que levava até o covil de Lorde Gaki, vendo que, enquanto conversava com Top Gunther, dezenas de vampiros foram saindo de seus esconderijos.
— Prefere lidar com esses vermes um a um, ou esperamos eles se juntarem num Tsunami e…
A frase foi interrompida pois a resposta do androide vermelho não poderia ter sido mais repentina e violenta.
Com apenas um salto Metalder alcançou os vampiros que estava aparentemente liderando aquela horda e antes deles sequer terem tido tempo de registrar tal movimento, tiveram seus crânios explodidos em pedaços, muitos atingindo em cheio aqueles que estavam atrás e mais perto, ficando cobertos com os restos de seus companheiros.
— Venham todos logo. Não tenho tempo a perder com vocês. Meu objetivo é o maldito desgraçado que vocês chamam de mestre.
“E aí está.” Top Gunther puxava das costas um rifle de longo alcance, enquanto se abaixava sobre um dos joelhos e começava a mirar “Essa ofensa foi feita com toda a raiva e ódio que o homem, que aceitou deixar sua humanidade, tentando defender aquelas que lhe eram mais caras e falhou, poderia sentir.”
Ele disparou dezenas de vezes e, a cada novo tiro, um vampiro ia se desfazendo em meio a uma névoa fétida.
“Coitado de quem se colocar entre ele e o tal Gaki.”
O ar já havia se tornado pesado por causa do campo de escuridão que cobrira o país inteiro, mas, naquele momento, o cheiro de carne em decomposição, vindo das vítimas cujos corpos secos de sangue foram descartados, somou-se ao fedor da morte definitiva dos vampiros.
Fossem humanos em armaduras, tanto Metalder quanto Top Gunther colocariam para fora tudo o que tivessem nos estômagos.
Para azar dos vampiros, no entanto, mesmo sendo capazes de captar odores, recebendo direto nos cérebros positrônicos informações sobre os mesmos, os dois androides eram perfeitamente capazes de bloquear qualquer tipo de reação de nojo diante da carnificina que estavam perpetrando.
Uma parte quase esquecida da mente do cientista que deu a própria vida para que Metalder voltasse ao mundo, no momento, eram apenas informações digitais que viajavam à velocidade da luz, pelos circuitos cerebrais do androide e registravam de forma automática todo tipo de informação que seria necessária, talvez até importante, para quando encontrassem Lorde Gaki.
“O crânio de um vampiro consegue ser até mais frágil do que o de um ser humano médio.” os punhos, outrora prateados e reluzentes, agora se encontravam tão encharcados com o sangue escuro dos monstros, que se encontravam completamente enegrecidos.
“As articulações também se desprendem facilmente.” ele registrava isso enquanto arrancava o braço de um inimigo na altura do cotovelo, destroçando o maxilar de outro vampiro com o membro amputado e, após ambos caírem de joelhos, com sua mão direita estendida e envolta em energia, seccionou suas cabeças dos pescoços, como se tivesse usado uma espada extremamente afiada.
Apesar dos esforços insanos dos vampiros, não importava o que fizessem, a dupla continuava avançando, metro por metro, rua por rua, passo a passo.
Morte definitiva por morte definitiva.
Foram as três horas mais longas da existência dos androides, mas finalmente estavam diante do edifício que fora alterado para uma verdadeira torre de pesadelos, um reflexo distorcido e sombrio do que havia feito com a Torre da Luz.
Lá dentro, ambos sabiam, estava o monstro que deu início à invasão vampírica do Japão, reinando a tempo demais, destruindo milhares de vidas, conspurcando outras ao transformá-las em monstros como ele.
O momento do acerto de contas havia chegado.
— Top Gunther.
Novamente o tom de voz sem emoção, mas os ouvidos eletrônicos do sniper perceberam pequenas e quase inaudíveis alterações no tom de Metalder, tons que fugiriam do escrutínio de ouvidos humanos normais.
Era impossível não perceber o ódio do colega, não penas pelas nuances em sua fala, mas também em outros detalhes, como o leve tremor em suas mãos metálicas ou a forma como seus ombros se retesavam.
— Pode deixar comigo.
Ele então tomou a frente, firmou os pés, flexionou os braços até que seus punhos cerrados estivessem na altura de seu abdômen e, nesse momento, da mochila que ele trazia nas costas, surgiram dois lança-mísseis.
No instante seguinte, explosões faziam desaparecer boa parte de uma das faces da torre dos vampiros, fazendo com que Lorde Gaki surgisse no topo da construção, vendo a chegada de seus tão esperados “convidados”.
— Finalmente.











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