Boa noite a todos.
Eu sei que sumi por muito tempo sem postar nada, mas eu precisei.
Várias crises de ansiedade se mostraram depois da última vez que postei.
Mas eu tenho conseguido me reconstruir.
E um dos motivos foi esse conto.
Espero que gostem.
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1.
O peso invisível
Tristeza e isolamento eram presenças constantes na vida de Davi. Ele vivia a primeira como quem veste uma roupa que já não consegue tirar, e buscava o segundo como quem procura abrigo em um lugar onde ninguém mais o seguiria. Depois do ocorrido, ninguém queria estar ao lado dele. Tornara-se um proscrito sem jamais ter recebido esse título oficialmente — mas sentia-o em cada olhar evitado, em cada silêncio prolongado.
Sua rotina era massacrante, embora silenciosa. Todas as manhãs começavam com o mesmo som estridente do despertador, que ele deixava tocar até desistir. Não era descuido; era indiferença. Levantava-se devagar, como se cada movimento exigisse uma força que ele já não possuía. Arrastava-se para fora da cama com a sensação de que o dia o puxava para trás.
O espelho, antes aliado na busca por uma imagem melhor, agora era um inimigo silencioso. Refletia não apenas seu rosto cansado, mas tudo o que ele não queria lembrar. Sua mente, inquieta, trabalhava em velocidade absurda, produzindo pensamentos que ele não desejava ter, reacendendo memórias que preferia manter enterradas. Era como se o próprio cérebro conspirasse contra ele.
O quarto, tão familiar depois de anos vivendo sozinho, parecia cada vez mais estranho. As paredes brancas, a cama marrom de lençóis claros, o armário sem enfeites — tudo transmitia uma sensação de abandono. Não havia quadros, fotos, lembranças. Nada que denunciasse que ali vivia alguém que um dia fora apaixonado por cores.
A combinação entre cama e armários era o único vestígio de cuidado estético que restava. Davi já não tinha ânimo para decorar, pintar, transformar. Sua vida como pintor parecia ter acontecido em outra existência, tão distante que ele quase duvidava de que fora real. Era como se tivesse sido vivida por outra pessoa, alguém que ainda acreditava que o mundo podia ser belo.
No cavalete, um quadro branco permanecia intocado. A tela vazia era um lembrete cruel de sua desistência. Ele não conseguia sequer encará-la por muito tempo; sentia que ela o observava de volta, cobrando algo que ele não podia mais oferecer. A tela parecia sussurrar possibilidades que ele não tinha coragem de explorar. Tudo o que ele queria era paz — uma paz que nunca chegava.
No criado-mudo, o smartphone acumulava notificações. Mensagens não lidas, e-mails ignorados, alertas de aplicativos que ele já não abria. As redes sociais, antes fonte de alegria e conexão, estavam abandonadas. Nenhuma nova notificação surgia, porque ele não postava mais nada. Era como se o mundo tivesse parado de chamá-lo — e, paradoxalmente, isso doía e aliviava ao mesmo tempo.
Ele se sentia desconectado, mas não sabia se queria reconectar-se. Era uma dualidade cruel: desejava proximidade, mas temia reviver as dores dos relacionamentos anteriores. Tudo por causa do que havia acontecido. Do que ele ainda não conseguia perdoar em si mesmo.
Sua vida parecia uma maldição, um ciclo repetitivo em que cada dia era uma cópia do anterior. Ele sabia que não era exatamente assim — que pequenas diferenças existiam, mas nada parecia importar. A sensação de estagnação era mais forte que qualquer nuance.
Ainda assim, algo dentro dele insistia que era preciso agir. Mas a coragem que deveria impulsioná-lo estava ausente. Sua vida tornara-se uma casca vazia, moldável conforme o olhar de quem a encontrasse. Poderia ser algo bom ou ruim — dependia apenas de quem cruzasse seu caminho primeiro.
Na sala, o tique-taque de um relógio barato preenchia o silêncio. Não era um relógio elegante, apenas um modelo simples comprado em uma loja de utilidades. Mas naquele ambiente tão quieto, o som era quase reconfortante. Dava-lhe a sensação de que algo ali ainda se movia, ainda existia.
Mas era apenas um objeto. E objetos não fazem companhia.
Faltava-lhes o essencial: vida.
E quanto à vida dele? O que ainda importava nela? Sua mente vagava por inúmeros pensamentos, mas nenhum permanecia tempo suficiente para se transformar em algo concreto. Era como tentar segurar água com as mãos. Ele acreditava que esvaziar a mente poderia trazer paz, mas isso também era uma ilusão.
Sua mente insistia em viajar entre possibilidades: o que
poderia ter sido, o que talvez ainda pudesse acontecer, o que poderia fazê-lo
feliz. Mas tudo parecia distante demais, irreal demais. Quase acreditava nessas
fantasias, mas não o suficiente para se mover em direção a elas.
Faltava-lhe vontade. Faltava-lhe coragem. Ele só queria que a vida parasse de lhe dar sustos, que se tornasse previsível, tranquila, suportável.
O banheiro era tão simples quanto o resto da casa. Azulejos
brancos, um box metálico, uma pia que o convidava a cuidar de si. Mas ele não
queria se cuidar. Parecia que, quanto mais se deixasse de lado, mais silenciosa
sua vida ficaria.
Mas a vida não para. A vida não espera quem quer ficar para
trás.
Forçando-se, Davi começou a se arrumar. Precisava trabalhar, mesmo que o trabalho já não lhe trouxesse prazer. Era o que pagava suas contas, o que o mantinha longe da casa dos pais — o lugar onde mais fora julgado pelo que acontecera.
A escova de dentes parecia pesada. A pasta, cuidadosamente colocada, parecia se dissolver antes de ser usada. O gosto mentolado trouxe um breve despertar, mas não o suficiente para reacender qualquer vontade.
Sua vida tornara-se automática. Mecânica. Sem reflexos.
Na sala conjugada com a cozinha, mais paredes brancas o aguardavam. Dois sofás cor de chumbo encostados na parede, uma estante simples, uma televisão comprada com sacrifício em tempos melhores. Na cozinha, tudo estava exatamente como deixara na noite anterior.
Uma caixa de leite sobre a pia de mármore negro salpicado de branco aguardava ser aberta. Um pacote de bolachas, já aberto, repousava na mesa. Era domingo — um dia em que tudo parecia morto. A luz do sol insistia em entrar, iluminando a poeira acumulada, revelando o abandono.
Ele precisava arrumar a casa. Não porque esperasse visitas, mas porque sentia que deveria manter ao menos uma aparência de ordem. Mesmo que ninguém viesse.
Ao se aproximar da janela que dava para a pequena varanda, percebeu que era uma boa oportunidade para bater o tapete da sala, que acumulava poeira há mais de trinta dias. Pegou uma vassoura gasta, com cerdas apontando para todos os lados, e pendurou o tapete no parapeito.
Na primeira batida, um pequeno papel voou em sua direção. Ele o pegou por reflexo, sem entender de onde viera. Não queria saber — mas a curiosidade venceu.
Abriu o papel.
A caligrafia era fina, inclinada, quase em itálico. A mensagem era curta, mas profunda, como se tivesse sido escrita por alguém que conhecia suas dores:
“O que você carrega não é fracasso — mas o início de algo que ainda não entendes.”
Davi ficou imóvel por alguns segundos. Depois, guardou o papel com cuidado, como se fosse frágil. Como se fosse precioso. Como se fosse uma âncora.
Esperança. Uma palavra que ele não sentia há muito tempo.
Pela primeira vez em semanas, vestiu-se com alguma intenção. Calçou os sapatos, ajeitou o cabelo, respirou fundo. Precisava ir ao mercadinho do bairro. Sua despensa estava vazia, e como dizia sua avó, “saco vazio não para em pé”.
E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que talvez pudesse dar mais um passo.
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4 Comentários
Li num dia e vim comentar no outro para poder digerir bem a história.
ResponderExcluirFoi um relato muito interessante sobre depressão e como, quando não procuramos ajuda, o peso de tal situação pode literalmente ir esmagando nosso espírito.
O texto está muito bem escrito, leitura segue fluída e praticamente impossível de parar até o fim.
Fim esse que merece muitos parabéns, essa última frase encerra bem o conto de várias maneiras.
Se houver continuação, o que o leitor torce para ter, está ótima.
E se não houver continuação está ótimo tbm, pois deixa para o leitors imaginar o que aconteceu e torcer para que o protagonista encontre uma saída para a situação em que se encontra.
Parabéns cara. mandou bem demais
Primeiro lugar, obrigado por ter lido.
ExcluirSegundo, eu escrevi esse conto em meio a uma crise de ansiedade ferrada, usando uma nova estrutura - escrever e revisar tudo primeiro antes de postar.
Que bom que tenha curtido.
Poxa, Jorge!
ResponderExcluirEsse texto ne destruiu...e, ao mesmo tempo , me deu ânimo.
Vivi tudo isso...
O sentimento de nada e de desimportância.
Me senti o Davi.
É exatamente como você descreveu.
Texto escrito com a alma.
Irrevogável!
Só posso te parabenizar.
Obrigado por ter lido, caro Rider. Esse conto significou muita coisa pra mim.
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