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Flash Negativo - o herói intrépido e o monstro renegado (capítulo II)

 

                                             Capítulo II - Antecedentes, parte I: 100 anos antes

Voltemos na história em uma centúria.

É o ano de 1886. Ou seja, estamos já no quartel final do século XIX. Enquanto algumas coisas acontecem na Terra, muitas outras no espaço vasto e profundo acontecem. Àquela altura dos acontecimentos, um dos principais e mais ativos impérios intergalácticos que flagelam o universo é o Cruzador Imperial Mess.

Liderado pelo Monarca La Deus e secundado por seu cientista e braço direito, o Doutor Ley Keflen, o Cruzador Imperial faz jus ao próprio nome [1]. Ele se move entre os planetas por meio da Nave Clone como se fosse uma nuvem de gafanhotos, e os planetas por onde passava eram virados de cabeça para baixo.

Como quando uma nuvem de gafanhotos destrói uma colheita, a devastação causada por Mess era tal que não sobrava pedra sobre pedra dos planetas flagelados, sendo os recursos vitais e patrimônio genético dos mesmos os principais afetados. Depois de fazer toda a pilhagem dos recursos do planeta a Nave Clone abandona o planeta e ruma para outro. Em alguns destes planetas, tidos como os mais valiosos e estratégicos por La Deus, Mess deixa seus lugares-tenentes, os quais supervisionavam e controlam o planeta em nome do Monarca La Deus.

Além disso, Mess conta com o serviço de um grupo de mercenários, os caçadores espaciais, ordem de guerreiros especiais fundada no século XVII por um homem chamado Azak e que costuma fazer o serviço sujo de Mess (embora não trabalhe apenas com Mess). Há muito tempo os caçadores espaciais (originalmente oriundos do planeta KXZ) vêm auxiliando Mess por meio de sequestros de seres e extração de amostras vitais de diversos planetas para as experiências atualmente levadas adiante por Keflen.

Atualmente, os caçadores espaciais são liderados por um homem chamado Shiremun. Shiremun tornou-se o líder dos caçadores espaciais depois que seu pai, Urus, veio a óbito e vencer seus irmãos em uma disputa de poder pela chefia do mesmo. Tais disputas de poder ocorrem com certa frequência dentro da ordem, em especial depois da morte de um líder.

No século XVII, mais precisamente em 1686, os caçadores espaciais, sob ordens diretas do Monarca La Deus, foram ao planeta Terra promover um sequestro de crianças terráqueas. A expedição foi liderada pelo caçador Beyaz, o branco. Em sua nave espacial o acompanharam os caçadores Uldin, Kara, Tenger, Bayan, Deniz e Kyzyl.

O grupo de Beyaz promoveu um sequestro de cinco crianças na Alemanha (à época parte do Sacro Império Romano-Germânico, o Primeiro Reich), mais precisamente na região da Baviera [2], em cidades como Munique [3], Augsburg e Ingolstad. E entre as crianças raptadas está aquele que depois veio a se tornar o Doutor Keflen (vulgo Rudolf Graf [4] von Ribbentrop).

O pai de Keflen, Klaus Graf von Ribbentrop, era um nobre bávaro pertencente ao ramo local da família von Ribbentrop. Ele lutou em 1683 na batalha de Viena. Naquele ano, o Império Otomano tentou sitiar pela segunda vez Viena, a capital austríaca (a primeira vez foi em 1529).

O Império Otomano, baseado em Constantinopla [5], é notório, entre outras coisas, por ter ao longo de suas expedições militares pela Europa raptado crianças cristãs oriundas de locais como a Grécia, a Sérvia, a Bulgária, a Valáquia [6] e a Hungria e criá-las como janízaros após conversão ao Islamismo. Crianças cristãs também eram tiradas de suas famílias por meio de um imposto chamado devşirme [7], o tributo de sangue, para a mesma finalidade. Uma vez janízaros, eles devem lealdade apenas ao sultão de Constantinopla e passam a servir ao exército otomano como força de elite.

Klaus participou da batalha de Viena como membro de uma divisão de cavalaria do soberano polonês Jan Sobieski III. Graças à enérgica intervenção de Sobieski na batalha, Viena foi salva de ser conquistada pelos turcos. Klaus se destacou em combate, recebeu condecorações e terras por parte do imperador germânico, além de consumar casamento com uma mulher chamada Eva Grafin von Ense Varnhagen, oriunda da região da Vestfália [8].

Certa vez, Rudolf e seus pais, acompanhados de criados, fizeram um passeio pelos bosques e prados da região próxima ao Rio Danúbio, nas cercanias de Regensburg [9]. É o primeiro passeio do jovem Rudolf, agora com meio ano de idade, fora das dependências castelo. Klaus, por seu papel na batalha de Viena, ganhou terras nessa região. Em determinado momento, a comitiva para em frente ao rio Danúbio [10]. E eles ficam vários minutos observando o majestoso e caudaloso rio, o segundo maior rio de toda a Europa, ainda em seu baixo curso.

“Como é lindo o Danúbio, meu bem”, diz Eva ao marido, encantada pela beleza do rio. “Sim, Eva. E veja essa água azul e cristalina, é de uma beleza sem igual. Algo que só pode ter sido concebido pelo Criador”, Klaus responde. Rudolf está nos braços da mãe, e ele fica um pouco agitado, quer um pouco de atenção só para ele. “O que foi, Rudolf?”, pergunta a jovem Eva. “Mama...”, diz Rudolf. No meio da conversa entre pai e mãe, Klaus diz à esposa que tem certeza de que um dia o pequeno Rudolf será um grande compositor, e até já imagina o título de uma das óperas que ele irá compor no futuro, Danúbio Azul.

No caminho de volta ao castelo, uma matilha de lobos se aproxima da comitiva de Klaus e Eva. Os lobos atacam a comitiva. Parece que hoje eles terão um farto jantar. Diante da presença dos lobos e dos sons ameaçadores que eles emitem, o pequeno Rudolf fica assustado e começa a chorar e a temer por sua jovem vida. O instinto materno de Eva logo desperta, e ela se agarra ao filho [11]. Mas no fim, tudo não passou de um susto, visto que os cavalos da comitiva trataram de afugentar e repelir os lobos com potentes coices de suas patas traseiras. Diante dos coices e do olhar ameaçador dos cavalos e dos espadachins da comitiva, só restou aos lobos fugirem. Não foi dessa vez que eles conseguiram a janta do dia.

No fim, tudo não passou de um susto. “Filho, já passou, os lobos já foram embora”, assim Eva tenta acalmar o jovem Rudolf. Minutos mais tarde, todos voltam ao castelo da família Von Ribbentrop em segurança.

O pequeno Rudolf era a alegria da família, mas havia algo pairando no ar, algo que por vezes afligia os pais dele por dentro: mesmo tendo os turcos sido vencidos no campo de batalha dois anos antes, e a presença deles na Europa começando a recuar de forma significativa, e mesmo os lobos tendo sido repelidos no passeio pela floresta, o temor de que Rudolf pudesse um dia ser sequestrado pelos turcos e transformado em janízaro permaneceu no ar, de alguma forma. E uma vez janízaro, participando de campanhas militares contra estados cristãos como a Áustria, a Polônia e o Sacro Império Romano-Germânico a serviço da Sublime Porta.

O tempo, o senhor da razão, é quem tratou de mostrar que esse temor era, de fato, justificado. Para a desgraça do jovem casal de nobres bávaros, o temor virou realidade. Mas não da forma como eles imaginavam. A história acabou reservando algo ainda pior ao filho deles. Algo que eles nem imaginaram nem em seus piores pesadelos.

Os pais do futuro Doutor Keflen foram mortos pelos caçadores espaciais, assim como os pais das demais crianças raptadas por Beyaz e seu grupo, após serem tirados de suas respectivas famílias. E uma vez raptadas, elas foram enviadas ao Monarca La Deus em pessoa [12].

Sob o poder de La Deus, as crianças raptadas ganharam nomes messianos. Também foram submetidas a uma série de cirurgias genéticas que as tornaram capazes de viver por mais de três séculos. No fim, Keflen se sobressaiu às demais e se tornou o cientista de Mess. Já as outras foram sacrificadas para fortalecer La Deus.

A origem terráquea de Keflen é um segredo que dentro da Nave Clone é até hoje mantido às sete chaves. La Deus nunca comentou com Keflen a respeito de sua verdadeira origem. Nem mesmo o próprio Keflen faz questão em saber de onde veio, exceto o fato de ter sido criado por geneticistas para ser o maior cientista geneticista de Mess de todos os tempos.

Os mentores de Keflen, Keop e Mikherin, também terráqueos por origem e que passaram por todo o mesmo processo ao qual Keflen foi submetido séculos antes, são aqueles que Keflen olha como referência de figura paterna. Eles morreram anos depois, de velhice, ainda nos primeiros anos do século XVIII, sem saber do fato que eles são terráqueos de nascimento, já que eles foram raptados em Samarkand [13] no começo do século XV [14].

Antes de vir a óbito, Beyaz escreveu um livro de memórias, e nesse livro ele conta sobre o rapto que ele mesmo conduziu em 1686. Lá ele conta a respeito da origem do Doutor Keflen. Apenas os líderes dos caçadores espaciais têm acesso a tal preciosidade, que fica escondido em uma biblioteca da qual apenas eles têm acesso.

Como não poderia deixar de ser, La Deus colecionou rivais ao longo dos séculos em que Mess esteve ativo. E entre eles, Satan Goss do Império dos Monstros e o rei Bazoo da estrela Gozma. O segundo tem sob sua jurisdição importantes planetas, entre eles Nabi e Hara. Nabi é um dos primeiros planetas que Bazoo conquistou em sua empreitada imperial, ainda no século XVII. Por esse planeta passam importantes rotas comerciais e seus seres são consideravelmente fortes, parte significativa do efetivo militar de Bazoo vem de Nabi e planetas vizinhos. Já Hara é notória por seus monstros poderosos, geralmente pássaros humanóides que se utilizam de técnicas musicais como arma de guerra. Os soberanos de Hara também tem sido fiéis aliados de Bazoo desde que o planeta foi conquistado ainda no século XVII.

De tempos em tempos, La Deus e Bazoo entram em conflitos por disputas de planetas e territórios. Por vezes, a Nave Clone entra em alguns dos planetas sob jurisdição de Bazoo querendo a pilhagem que eles sempre fazem. As defesas de Bazoo logo são ativadas e os combates se iniciam. Batalhas terríveis essas cujo resultado é quase sempre inconclusivo. A primeira disputa entre os dois conquistadores espaciais aconteceu em 1760, no planeta VX, notório por seus monstros poderosos e resistentes. Posteriormente, Hara também foi objeto de duas contendas entre Bazoo e La Deus, as quais terminaram com vitória acachapante de Bazoo, a primeira por volta de 1855 e a segunda por volta de 1888. Até hoje nenhum conseguiu sobrepujar o outro.

Satan Goss, o demônio galáctico, também travou batalhas contra Mess, batalhas essas que geralmente também terminam de forma inconclusiva. Por uma questão de custo e benefício, La Deus não fez questão de destruir Bazoo ou Satan Goss de uma vez por todas.

NOTAS:

[1] A título de registro, Mess em idiomas como o inglês significa bagunça, confusão, desordem.

[2] Em alemão Bayern.

[3] Em alemão München.

[4] Conde em alemão. A variante feminina é Gräfin.

[5] Atual Istambul.

[6] Atual região sul da Romênia.

[7] Leia-se “Devshirme”.

[8] Região do noroeste da Alemanha, próxima ao rio Reno, onde se encontram cidades como Dortmund, Biefeld e Münster.

[9] Também conhecida como Ratisbona nos idiomas neolatinos.

[10] Em alemão Donau.

[11] Para essa cena, lembrem-se da cena em que a senhora Tokimura abraça o Dan no episódio 41 da série, em que o Dan volta a ser criança por conta da magia do monstro Bakros. Mas numa versão Baviera do século XVII.

[12] Ver capítulos 3 e 4 de “Flashman – Cruzador Imperial Mess”, originalmente escrita em 2011, disponível nessa e em outras plataformas.

[13] Cidade do atual Uzbequistão, notória por ter sido a capital do Império de Tamerlão nos séculos XIV e XV.

[14] Ver capítulos 3 a 5 de “A verdadeira história do rapto dos Flashman quando pequenos”, originalmente escrita em 2013 e disponível nessa e em outras plataformas.

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