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A Cidade dos Espelhos - Reflexo 4

 

Boa noite a todos.

Espero que gostem do novo capítulo.

Desculpe pela demora em postar.



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4. Lira e o Espelho Rachado

 

 

“Venha comigo. Quero te levar por alguns lugares. Talvez isso ajude a clarear o que está pesado aí dentro.”

A proposta de Lira soou como algo raro na vida de Davi: um convite genuíno. Não havia obrigação, pena ou interesse oculto. Era simplesmente alguém oferecendo companhia. Ele não estava acostumado com isso. A sensação era estranha, quase desconfortável, mas ao mesmo tempo despertava uma centelha de curiosidade. Lira parecia enxergá-lo com uma nitidez que ele próprio não possuía. Era como se ela tivesse acesso a páginas que ele nunca conseguiu ler sobre si mesmo.

Eles começaram a caminhar pela cidade espelhada. A cada passo, Davi percebia detalhes que não existiam em seu mundo, embora a estrutura geral lembrasse algo familiar. Havia estabelecimentos que imitavam padarias, lojas de tecidos, pequenos mercados, cafés aconchegantes e até edifícios que lembravam escritórios. Mas tudo ali tinha um brilho diferente, como se cada superfície refletisse não apenas a luz, mas também fragmentos de quem passava por perto.

Os habitantes carregavam seus espelhos no peito como se fossem extensões naturais do corpo. Alguns exibiam cores vibrantes que mudavam conforme o humor. Outros projetavam imagens que se formavam e se desfaziam, como lembranças vivas. Era como observar emoções ganhando forma física, como se cada pessoa carregasse sua história à mostra.

Davi, porém, caminhava como se estivesse deslocado da própria existência. Seu espelho permanecia opaco, sem qualquer sinal de vida. Ele tentava acompanhar Lira, mas sua mente insistia em retornar ao mesmo lugar escuro de sempre. Era como se estivesse preso em um quarto sem janelas, onde o ar era pesado e o silêncio, ensurdecedor.

Lira falava com ele com paciência, tentando suavizar o peso que ele carregava. Ela não o pressionava, mas também não ignorava o que via. Era evidente que ela tentava alcançar algo dentro dele, como quem tenta puxar alguém de um poço profundo. Mas Davi parecia afundar mais a cada tentativa, como se estivesse preso a correntes invisíveis.

“Davi… o que passava pela sua cabeça antes de o portal se abrir para você?”

A pergunta veio como um golpe inesperado. Ele parou de andar por um instante. Não queria responder. Não queria revisitar aquele momento. Mas a verdade estava ali, pulsando dentro dele, como uma ferida que nunca cicatrizou.

“Eu… não estava pensando em nada importante.” A frase saiu vazia, mas carregada de dor. Ele sabia que não era verdade. Sabia exatamente o que pensava — e era sempre a mesma coisa. Palavras duras que ouviu ao longo da vida, frases que se repetiam como um eco interminável, lembranças que insistiam em dizer que ele não tinha valor.

Era como se sua mente tivesse se tornado um inimigo íntimo.

Lira não insistiu. Em vez disso, ergueu seu próprio espelho para que ele pudesse ver. A superfície estava marcada por uma rachadura profunda, atravessando o objeto como uma cicatriz antiga. Mesmo assim, o brilho que emanava dali era intenso, quase hipnotizante.

A luz atravessava as fissuras como se elas fossem janelas, não defeitos. Era como se o espelho dissesse que a dor não apagava a essência — apenas a transformava.

Davi ficou sem palavras. Ele nunca imaginou que alguém com um espelho quebrado pudesse irradiar tanta força.

“Como isso é possível?”, murmurou, incapaz de esconder o espanto.

“Se quiser, eu posso te mostrar”, respondeu Lira, com um sorriso que parecia carregar uma promessa silenciosa. Havia algo acolhedor em sua expressão, algo que convidava Davi a dar um passo além do medo.

A ideia de aprender a lidar com aquilo — com sua dor, com seu espelho, com sua alma — despertou nele uma mistura de esperança e pavor. Ele queria acreditar que era possível mudar, mas a sombra dentro dele sussurrava o contrário, como sempre fizera.

“Eu quero aprender”, disse ele, com uma sinceridade que surpreendeu até a si mesmo.

A resposta fez os olhos de Lira brilharem. E, naquele instante, algo mudou no espelho de Davi. Um pequeno ponto de luz atravessou a névoa que o cobria. Era fraco, quase imperceptível, mas estava lá — como uma estrela surgindo em um céu nublado.

“Então vamos começar”, disse ela. “Seu espelho pode brilhar tanto quanto o meu. Talvez até mais.”

A frase ecoou dentro dele como um trovão. Ele não sabia se acreditava, mas queria tentar. Queria, pela primeira vez, dar uma chance a si mesmo.

Enquanto caminhavam, Davi lutava contra pensamentos contraditórios. Parte dele queria se entregar à possibilidade de mudança.

Outra parte insistia que ele não merecia nada disso. Era como se duas versões de si mesmo travassem uma batalha silenciosa, cada uma puxando-o para um lado diferente.

Lira percebia o conflito, mas não o apressava. Ela apenas caminhava ao lado dele, oferecendo presença. Às vezes, isso era tudo o que alguém precisava — alguém que não tentasse consertá-lo à força, mas que estivesse disposto a ficar ali, mesmo quando tudo parecia desmoronar.

A cidade parecia se transformar conforme eles avançavam. Davi começou a notar as construções que antes haviam passado despercebidas.

Havia casas que mudavam de cor conforme as emoções de seus moradores. Havia pontes que se dobravam como fitas de luz. Havia torres que pareciam feitas de água sólida, ondulando suavemente como se respirassem. E, acima de tudo, havia uma harmonia estranha entre tudo aquilo, como se cada elemento estivesse conectado por um fio invisível.

Aos poucos, Davi começou a se interessar. Sua curiosidade, adormecida há tanto tempo, despertava como uma chama tímida. Ele queria entender como aquele mundo funcionava. Queria saber por que os espelhos existiam, como refletiam emoções, como podiam ser limpos ou reparados. Era como se uma parte esquecida de si mesmo estivesse voltando à vida.

Mas antes que pudesse fazer perguntas, Lira parou diante de um edifício imponente. A fachada era feita do mesmo material do portal que o trouxera até ali — uma superfície espelhada que parecia viva, pulsante. A luz se movia sobre ela como ondas suaves, como se o prédio respirasse.

“É aqui”, disse Lira. “Este é o lugar onde você vai aprender a enxergar o que seu espelho tenta esconder.”

Davi sentiu o coração acelerar. O prédio parecia observá-lo, como se soubesse quem ele era. Como se estivesse esperando por ele desde sempre.

“Eu… não sei se estou pronto”, confessou, sentindo a voz tremer.

“Ninguém está”, respondeu Lira, com uma serenidade que o desarmou. “Mas isso nunca impediu ninguém de começar.”

Ele respirou fundo. O ar parecia mais leve ali, como se o ambiente o incentivasse a seguir em frente. A porta do prédio se abriu sozinha, revelando um interior iluminado por uma luz suave, quase acolhedora. Era como se o lugar o chamasse pelo nome.

“Você não está sozinho”, disse Lira, tocando levemente o braço dele. “Eu vou com você.”

Davi deu um passo. Depois outro. Cada movimento parecia mais difícil que o anterior, mas também mais necessário. Ele sentia medo, mas também sentia algo novo — algo que não conseguia nomear.

Talvez fosse coragem.

Talvez fosse vontade de mudar.

Talvez fosse o início de uma jornada que ele nunca imaginou viver.

Pela primeira vez em muito tempo, ele não recuou.

2 Comentários

  1. A forma como tu abordas o estado depressivo de Davi e como ele fica paralisado perante o maior inimigo dele (sua própria mente ) é tocante.

    A luta contra nós mesmos é maior do que com adversários externos.

    Se sua intenção era essa, está atingindo o objetivo com louvor.

    Com o apoio de Lira, Davi, aos poucos, mesmo que hesitando, vai encarando seus medos.

    E, como tu dissestes, aa vezes o aue precisamos é de uma mão amiga e não de acusadores.

    Capítulo profundo!

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  2. A forma como a história está sendo conduzida me dá a impressão até de estar lendo sobre uma sessão com uma psicóloga, principalmente pela forma como a Lira vai atuando, com cuidado, paciência.
    É muito bem escrito tbm a forma de como age a depressão no Davi, sempre tentando diminuí-lo e tudo o mais.
    Meus parabéns, não apenas pela história bem bolada, como pelo aparente e crescente amadurecimento na escrita

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