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🌟 Solarion – Episódio 4: SOLARION VS BOCA DE FOGO

 


Solarion VS Boca de Fogo  

Escrito por Jeremias Alves Pires


PARTE I — O humilhado


Nicolas varria o chão do bar restaurante cuidadosamente, não queria levar uma das broncas costumeiras que faziam parte do seu dia a dia, sempre com referências desrespeitosas à sua baixa estatura, corpo magro, mas com uma bela pança, ou a sua cabeça um pouco maior que o normal. Mantinha os olhos vermelhos, o único traço que revelava o sangue "neohumano", voltados para baixo em plena submissão, ajeitando de vez em quando os longos cabelos vermelhos, garantindo que eles cobrissem seu rosto, dando-lhe esconderijo. A camiseta branca e shorts vermelho estavam impecavelmente limpos, mostrando o quão era zeloso com  sua higiene, combinando com o chinelo igualmente vermelho que embora fosse tamanho 45, o maior tamanho possível, parecia pequeno para o pé enorme, outro motivo de piadas cruéis.   


— Bom dia, cabeção! — Disse um cliente ao entrar.


— Bom dia, pé de lancha! — Disse outro.


— Não se esqueçam da pancinha romântica! — Um que já estava no recinto se manifestou rindo muito, todos riam.


Nicolas sorria, sempre sorria, mesmo quando o peito doía, não era por alegria, apenas sobrevivia. Por dentro queimava em plena fúria. “Se eu fosse maior… Mais forte… Acabaria com todos”, pensava enquanto ria junto.


— Nicolas, para de lamber esse chão e liga a TV, já está na hora do jornal! — Gritou Tonho o patrão malicioso.


“Maldito desgraçado de um figa”, Nicolas pensou mais balançou a cabeça alegre e gentil. As poucas pessoas que frequentavam aquela espelunca, quase todos bêbados começando o pleito, pararam para olhar, todos aguardavam aquele momento até o dono do restaurante.


A TV antiga de tubo encarou Nicolas do alto, como um dragão prestes a despertar e devorar. Nicolas pegou uma cadeira, mesmo assim precisou da vassoura e ficar na ponta dos pés para ligar o aparelho, tão antigo quanto sua sina. Teve êxito, mas desequilibrou e deu de cara no chão. Uma explosão de risadas tomou o recinto. Era assim todo dia… Todo dia…


— Nossa, de novo… Hahahahahaha! — Nicolas também riu alto, enlouquecido, cheio de ódio.


Nicolas não conseguia parar de rir, uma lágrima rolou por seu rosto. “Malditos… Todos malditos… Um dia vão me pagar… Eu juro”, pensava, amaldiçoava, chorava.


A TV ligou e desviou sua atenção, devido ao alto volume.


— E nosso convidado de hoje é Gabriela Esmeralda, a famosa modelo e atriz que já foi uma super-heroína no passado.Atualmente ela usa sua fortuna para lutar pelos direitos dos  neohumanos no brasil e no mundo. — O apresentador de terno e gravata dizia.


—  Obrigada… É um prazer estar aqui e não se esqueçam, na essência do nosso ser somos todos iguais… — A bela morena de cabelos longos e vestido verde começou já com sua mensagem forte.


— Então Gabriela, vamos começar com uma pergunta bem básica, afinal, o que é um neohumano?


— Ótimo começo… Ninguém sabe… São pessoas com a capacidade de se “transformar” em seres fantásticos com poderes extraordinários… Talvez os relatos que temos dos antigos deuses e criaturas se refiram a eles… Hoje os chamamos de heróis ou vilões..


— O que é um neohumano para você?


— Alguém com poder de escolha, que vai viver as consequências de seus atos, como qualquer um de nós.


— Você não acha que eles são perigosos?


— Qualquer homem com uma arma é perigoso ou não, depende do seu coração. Não podemos nos esquecer que os neohumanos são pessoas.


— Pessoas que se tornam monstros descontrolados…


— Nem todos… Veja o caso do Solarion, ele ajuda pessoas… Veja o meu caso…


Gabriela se levantou e diante das câmeras, mudou sua pele para metal verde e uma corrente elétrica passou a percorrer seu corpo. Todos aplaudiram e ela voltou a forma humana.


— Como você faz isso? 


— Eu apenas faço… Tem haver até com o controle das emoções. A primeira transformação é a mais difícil. Às vezes ela acontece durante um momento intenso em que as emoções se descontrolam.


— Daí a pessoa vira um monstro e sai quebrando tudo… — O apresentador deu uma risadinha.


— Nem sempre… Já falamos do Solarion e eu acabei de me transformar e destransformar ao vivo… Fora os casos em que a transformação é muito sutil, ou só uma deformação…


— O governo cirou a “Iorn Guard”, uma força de contenção contra neohumanos, o que você acha disso?


— É o governo usando violência como solução para violência. Entendo a necessidade de conter os descontrolados, mas não são todos os casos, como disse antes, há casos em que a transformação é muito sutil. A Iron Guard usa força extrema em todos os casos…


— Está certo… Nosso tempo hoje é bem curto, qual seu recado final para os nossos espectadores?


— Seja você quem for, ou o que for, escolha sempre fazer o bem.


— Ei, feioso, volte ao trabalho!!! — O dono do bar chamou Nicolas de volta ao seu mundo miserável.


— Sim chefe, vou servir as mesas… — Nicolas voltou a suas funções sem prestar mais atenção a TV.


Foi um dia duro, como sempre era. Foi explorado e humilhado. No caminho passou por pessoas que o olhavam e riam, outras demonstravam pena, de qualquer modo ele era uma criatura que chamava a atenção. Ao chegar em casa bateu a porta com força após entrar, só então mudou o semblante, deixando a raiva vir à tona, explodindo, chutando tudo o que aparecia na sua frente, como uma criança birrenta sem a mãe para dar conforto, acabou chorando de joelhos no chão. Adormeceu… Quando acordou estava tudo escuro e frio, como ele odiava o frio… Teve vontade de pôr fogo em tudo, pôr fogo na cidade inteira, no mundo…  


— Você está um lixo… — Disse olhando para o espelho do banheiro.


Olhou no fundo dos próprios olhos anormalmente vermelhos. Ele era a pequena parcela da população neohumana com nada mais que deformações. Queria ser um monstro… O vilão… Pôr fogo em tudo… Sorrir não pra disfarçar a dor, mas pela alegria da vingança… Vingança… Sua alma clamava por isso. Estava tão cansado, tão cansado… Lembrou da matéria na TV, de Gabriela se transformando em um ser invencível. “Momento intenso em que as emoções se descontrolam…”, lembrou dessas palavras.


— Vamos ter um momento intenso… — Nicolas teve um pensamento sombrio demais.


Morava num prédio onde ninguém ligava para ninguém, por isso quando saiu de seu apartamento para ir ao último andar ninguém notou, ninguém ligava. Chegou ao terraço, à beirada… Olhou o céu da noite prestes a chegar.


— Transformação ou morte!!! Hahahahahahaha!


Se jogou sem pensar em mais nada, gargalhando insanamente. Se arrependeu logo no começo da queda, nada mais podia ser feito. Descobriu que cair é um momento torturante e eterno. Bateu no chão, veio dor, muita dor e escuridão. Veio o silêncio…


— Que merda é essa? — Alguém disse.


— Essa coisa é o Nicolas? Não pode ser… — Alguém tentava entender.


Nicolas abriu os olhos e se alegrou vendo o corpo agora imenso de músculos poderosos. Ao seu redor estavam diversas pessoas, muitas eram rostos que ele já tinha visto debochando dele, agora estavam cheias de horror… Quando tentou sorrir, cuspiu um tipo de bola em chamas que explodiu ao tocar o solo. Muitas pessoas se machucaram. Começou uma corrida pela sobrevivência. 


O dia da vingança de Nicolas havia chegado…


PARTE II — Cidade em chamas


Do auto de um prédio, Solarion hora observa a cidade, hora olha o cair da noite. Pensava no porque fazia o que fazia. Gostava de ajudar as pessoas, dá adrenalina de ser um super-heroi, mas tinha outro motivo por baixo de tudo, a morte de seu irmão que se perdeu no mundo do crime e o fez jurar que tomaria um caminho diferente. 


Ainda estava de luto quando se transformou pela primeira vez. Ouviu uma mulher sendo abordada por um indivíduo que queria mais do que roubar… Quando a mulher estava prestes a ser assassinada, o coração de José acelerou e kabum… Se transformou pela primeira vez, sabendo utilizar seus poderes como se tivessem nascido com ele, como se Solarion fosse algo que já estava no fundo de sua alma, como uma pintura ou um projeto secreto.


Isso era ser um neohumano, despertar algo adormecido no fundo da alma, que tanto pode ser belo como abominável. Pensou que o irmão estaria feliz onde quer que estivesse, com certeza acharia Solarion o máximo. Amaria o visual inspirado em heróis clássicos, vestindo um colan azul celeste, botas, luvas, cinto, máscara de cabeça toda, capa e até a tradicional “cueca” por cima da calça na cor amarelo vivo, fora o símbolo de sol no meio do peito. Ficaria impressionado com os poderes sendo eles, super força, velocidade, voo e até disparar raios com as mãos. Solarion era um dos neohumanos mais poderosos e um dos poucos voltados para o bem… Isso o deixava triste, o fazia se sentir solitário. Não ligava em ter um visual retrô, até brega, mas ver a cada dia mais neohumanos se tornarem criminosos, se tornarem vilões, o preocupava demais.


Seu momento de devaneio não durou muito. Sua super audição identificou gritos de socorro e viu um princípio de incêndio não muito longe dali. A cidade precisava mais uma vez de seu campeão.


Pessoas corriam desesperadas, casas e carros estavam em chamas.


— Corram… Corram… Hahahahaha! — O monstro se divertia.


“Rindo, ele está rindo!”, Solarion notou ainda de longe que diante dele estava alguém perverso, seria melhor nocautealo de uma vez. O monstro estava de costas para ele, um soco bem dado na cabeça certamente findaria rapidamente aquela situação, já que uma vez desacordado ele voltaria a forma humana.


— Eu já te vi!!!! — Antes de ser atingido, o monstro se virou esmurrando Solarion com as costas do punho direito, num golpe tão forte que gerou uma pequena explosão de ar e jogou o herói violentamente para trás.


Solarion se levantou rapidamente e avançou contra seu inimigo, que disparou uma bola de fogo pela boca, acertando em cheio. Foi como ser atingido por uma granada, ainda mais forte do que o soco que havia recebido, para piorar aquela “chama”, era feita de algum tipo de energia capaz de machucá-lo severamente.  A dor intensa o fez cair de joelhos. A luta não seria fácil.


— Oba, minha festa vai ter churrasco de herói!


— Festa? Isso que você está fazendo é uma insanidade… É a transformação… Você não está pensando direito… Por favor… Pare já com essa maldade… — Solarion se pôs de pé e olhou no fundo dos olhos do monstro.


— Eu nunca estive mais lúcido… — O monstro avançou contra Solarion, ferido por suas palavras.


Solarion girou o corpo, esquivando-se de um soco ao mesmo tempo em que pegou impulso para um poderoso chute que acertou com força o rosto de seu inimigo. Um som muito alto se fez ouvir, acompanhado de outra explosão de ar. O monstro cambaleou. Solarion saltou e desferiu outro chute, dessa vez com ainda mais força, foi a vez do monstro cair de joelhos.


— Você não entende, a transformação mexe com a cabeça… Por isso você está assim… Descontrolado. Pare agora!!! — Solarion suplicou.


— Não!!! — Junto ao grito, o monstro dispara da boca uma imensa bola de energia, mais poderosa que a anterior, acertando Solarion, gerando uma grande explosão.


Solarion quase apaga, mas desperta a tempo de esquivar de diversos socos.


— Você sabe o que eu passei? Você sabe!!! — O monstro dispara outra super bola, mas dessa vez erra, acertando um poste que se estoura, como se atingido por uma bala de canhão. Cabos se partem, o transformador vai ao chão, uma escuridão que quase não pode ser vista por causa das chamas que estão por toda parte.


— Eu não quero te julgar! Eu quero ajudar… Vamos conversar… — Solarion para de lutar por um momento.


— Você quer ajudar? Saia do meu caminho… Eu não estou descontrolado por causa da transformação, pra mim ela é uma benção… É a resposta às minhas orações.


— Eu não entendo… Se você não está descontrolado porque tudo isso?


— Eu fui humilhado a vida toda por causa da minha aparência frágil… Eu fui humilhado… Agora eu sou forte… Muito forte… Eu quero vingança!!! — A forte emoção faz os músculos do monstro ficarem mais saturados, ele fica mais forte.


— Polícia!!! Parados os dois!!! — A polícia finalmente se faz presente, e começa a atirar nos dois heohumanos.


— Insetos!!! — O monstro dispara uma bola de energia nos policiais.


Solarion usa sua super-velocidade para se pôr na frente dos policiais, recebendo toda explosão, salvando suas vidas. Mais uma vez, Solarion cai de joelhos.


— Saiam daqui… Eu cuido disso… — Solarion diz ao policiais, que assustados se entreolham e se afastam sem dizer uma palavra, fica claro que nada podem fazer.


— Você os protege? Não seja ridículo… Eles não são nada… Nós somos superiores… Nós somos mais fortes… Porque você faz isso?


Solarion se levanta.


— Me diz uma coisa, senhor super forte, quando você era frágil, quantas vezes você rezou para que alguém te protegesse? Nós podemos ser essa resposta… Nós podemos proteger os mais fracos… Os mais frágeis… Como você já foi um dia… Como eu já fui um dia… O quê você me diz?


O monstro para por um segundo, as palavras de Solarion o fazem lembrar dos dias difíceis de Nicolas, que ainda está dentro dele.


— Eu quero vingança, herói! É só isso que me importa. Você realmente não faz ideia do que passei. Vá embora… É meu último aviso.


— Não… Eu ainda acho que você está fora de si… Deixe essas pessoas irem, lute só comigo… — Solarion se refere aos policiais que ainda estão na área de combate.


— Se você gosta tanto deles, morra com eles!!! — O monstro volta a disparar nos policiais.


Solarion outra vez se coloca na frente, recebendo o disparo, protegendo os policiais, não mais uma, mas duas, três vezes. O monstro  gargalha e dispara nos policiais, para acertar Solarion. Os policiais mal conseguem se pôr de pé, devido às explosões seguidas. Solarion começa a sangrar pela boca e nariz.


— Hahahahaha… Seu otário! É a sua bondade que vai acabar te matando! — O monstro continua a disparar.


Um raio elétrico atinge o monstro, impedindo sua maldade.


— Já chega!!! Pare com isso agora mesmo! — Gabriela Esmeralda surge no campo de batalha, transformada na heroína “Amazona Esmeralda”. Usando um collant azul com detalhes em verde, com sua pele esmeralda e raios elétricos percorrendo o corpo.  


— Você… Eu tevi na TV… Saia daqui, ou vai apanhar também… — O monstro ameça.


— Esqueceu de mim!!! — Solarion aproveita a oportunidade para dar um super-soco no monstro, jogando-o um pouco para longe.


— É um prazer conhecê-lo, Solarion… Vamos conversar depois de nocautear esse cara!


— Está certo… Ele é perigoso demais, vamos pra cima dele com tudo…


Solarion e Amazona Esmeralda, partem pra cima do monstro que não consegue se defender. Assim que Solarion o acerta, Amazona vem o acerta do outro lado. Por ser muito forte, muitos golpes são necessários para derrubar o monstro. Ao cair, ele volta a ser o pequeno e feio Nicolas.


— Os incêndios que ele causou… Vou resolver! — Solarion faz voos rasantes que apagam as chamas.


Enquanto isso, Amazona vai verificar como estão os policiais.


— Vocês estão bem, rapazes? 


— Estamos sim… Não estamos acostumados a sermos salvos. Ainda bem que vocês apareceram — o superior dos oficiais toma a frente.


— Ainda bem que ela apareceu, eu já tinha dado a luta como perdida… — Solarion pousa.


— Pois é meu amigo, não gosto de agir como heroína, mas não tive escolha. Esse neohumano fez muito estrago… — Amazona sorri para Solarion.


Enquanto todos relaxam, baixando a guarda, Nicolas desperta e se levanta, pronto para se transformar de novo e recomeçar o caos. Surpreendentemente ele é atingido na cabeça por um artefato no formato de aranha. Uma forte corrente elétrica o faz desmaiar, impedindo sua transformação.


— Mas o que é isso? — Solarion é pego de surpresa.


— Quem foi que o acertou? — Amazona compartilha do espanto. 


— Fui eu… Agente Iron 001, da nova “Iron Guard”— Um homem usando uma armadura negra com “jetpack”, portando um tipo de rifle high-tech se aproxima.


— Que coisa é essa que você disparou na cabeça dele? — Amazona pergunta, mostrando uma certa indignação.


— Um contensor… Vai impedir que a aberração volte a ser uma ameaça. Também exijo que vocês se rendam agora mesmo… Estão todos presos conforme a lei de crimes especiais.


— Só um minuto, agente… Eles salvaram nossas vidas… Eles inclusive já tinham neutralizado a ameaça. — O tenente intervém em favor dos heróis.


— Solarion, pode ir. Eu tenho uma equipe de advogados só pra esse tipo de situação. Assim que você puder, vá ao meu escritório, daqui pra frente vou estar na cidade e gostaria de conversar com você. — Amazona pede a Solarion.


— Certo… Não tenho mais o que fazer aqui… Até mais! — Solarion levanta voo. 


— Volte aqui, aberração… — O agente 001 tenta impedir a partida de Solarion.


— Deixa ele em paz… Eu já falei pra você! — O tenente vai pra cima do Agente.


— Você vai me pagar, tenente… Juro que vai.


— O importante que tudo acabou e você chegou atrasado, 001…  Os bombeiros e os meus advogados já vão chegar, melhor você se comportar. — Amazona também encara o agente.


Voando para casa, tomando cuidado para não ser mais visto, Solarion parte, sabendo que logo novas ameaças vão surgir.


FIM

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