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A Cidade dos Espelhos - Reflexo 6

Boa noite a todos.

Peço desculpas pela demora em postar a história, mas eu estou preparando algo que vai deixar vocês felizes.

Espero que curtam.


6. O Golem da Culpa

 

 

“Quantos salões mais eu terei de enfrentar?”, perguntou Davi, bastante inseguro coma possível resposta que viria.

“Alguns”, respondeu Lira, com a voz calma, mas carregada de um peso que Davi não soube interpretar de imediato. Aquela sala que ele havia enfrentado era apenas a primeira. O processo seria longo, doloroso e exigiria uma paciência que ele nunca teve consigo mesmo. Além disso, demandaria resiliência — algo que ele sempre acreditou não possuir.

“E não se assuste com o tamanho. Ele pode diminuir.”

A frase enigmática ficou ecoando na mente de Davi enquanto ele seguia Lira até a próxima sala. Diferente da anterior, que era mergulhada em escuridão absoluta, esta era clara, iluminada por uma luz suave que parecia vir de lugar nenhum. No centro, havia apenas um bloco de pedra, simples e silencioso.

“Você deve tocar o bloco e aguardar aparecer”, explicou Lira.

Davi respirou fundo. Ele havia aprendido a confiar nela. Por mais que o processo fosse difícil e machucasse, nada parecia pior do que a dor que ele carregava no coração. E, de certa forma, sua vida já estava um pouco melhor desde que não precisava mais ouvir aquelas vozes internas o torturando.

Ele estendeu a mão e tocou o bloco.

No mesmo instante, a pedra começou a crescer. Primeiro lentamente, como se estivesse despertando de um sono profundo. Depois, de forma abrupta, como se algo dentro dela tivesse explodido em vida. O som do crescimento ecoava pela sala, grave e ameaçador.

E então vieram as vozes.

Mas não eram como as anteriores. Não tinham sua voz. Não vinham de um sentimento de inferioridade.

Eram vozes do passado.

A primeira que ouviu foi a de sua mãe, quando ele ainda era muito pequeno.

“É culpa sua que não temos dinheiro. Mais uma boca pra alimentar… mais um gasto.”

A frase, que ele achava ter esquecido, voltou com força total, como um golpe no peito.

Depois veio a voz de um amigo de infância, gritando com raiva porque Davi havia furado sua bola sem querer.

“Você sempre estraga tudo!”

E outras vozes surgiram, uma após a outra, como se alguém estivesse abrindo gavetas trancadas dentro de sua mente. Cada lembrança trazia dor, vergonha, arrependimento. E, a cada nova acusação, o bloco crescia mais, assumindo forma, ganhando braços, pernas, tronco.

Até se tornar um golem.

Um gigante de pedra, formado por tudo aquilo que Davi carregava em silêncio.

Quando as vozes cessaram, o golem deu o primeiro passo em direção a ele. O chão tremeu. O ar pareceu vibrar. Davi recuou instintivamente, o coração disparado.

O golem atacou.

Era lento, mas poderoso. Cada golpe que desferia parecia capaz de destruir paredes. Davi conseguia se esquivar, mas com dificuldade. Ele não tinha força para contra-atacar. Não tinha armas. Não tinha preparo.

E, pior ainda, as vozes continuavam ecoando dentro dele, 0 enfraquecendo mais do que qualquer golpe físico.

Em determinado momento, uma acusação surgiu — a pior de todas.

A lembrança do dia em que foi acusado injustamente de abusar de uma garota no colégio. Ele nunca havia feito aquilo. Mas alguém precisava de um culpado, e ele foi o escolhido. A vergonha, o medo, a impotência… tudo voltou com força esmagadora.

O golem atacou no mesmo instante.

O golpe o acertou em cheio.

Davi foi lançado ao chão, o corpo ardendo de dor. Sangue escorreu pelo canto de sua boca. Ele tentou se levantar, mas suas forças o abandonaram.

A palavra ecoou em sua mente como um trovão.

A culpa.

[Então esse monstro é formado com o meu sentimento de culpa? Como eu posso vencer isso?]

O golem cresceu ainda mais, alimentado pelo pensamento. Ele se tornava quase indestrutível.

[Como vencer um adversário que se alimenta de algo que eu sinto há anos?]

A cada golpe recebido, Davi se sentia menor. Mais fraco. Mais culpado. Era como lutar contra o próprio coração — e perder.

Em algum momento, ele desmaiou.

Mesmo inconsciente, sua mente continuou sendo invadida por lembranças. Culpas antigas, recentes, pequenas, grandes. Lanches roubados. Brinquedos quebrados. Decisões não tomadas. Ações que não cometeu, mas que pelas quais foi responsabilizado. E, acima de tudo, aquela acusação injusta que marcou sua vida.

Ele chorou — no sonho e no mundo real.

Ele queria vencer. Queria se libertar. Mas não sabia como.

Até que algo mudou.

Ele percebeu que a culpa estava ligada à responsabilidade. A um desejo impossível de mudar o passado. E ele não podia mudá-lo.

Quanto mais tentava imaginar como tudo poderia ter sido diferente, mais o golem crescia.

O “e se” era seu inimigo.

“Deixe de se culpar por algo que não é sua responsabilidade!”, gritou Lira, sua voz atravessando a barreira entre o real e o mental.

A frase atingiu Davi como um raio.

Ele não podia mudar o passado.

Mas podia mudar o que fazia com ele.

A experiência era importante, mas não podia prendê-lo. Ele precisava se libertar da culpa que carregava — especialmente da culpa que não era sua.

Enquanto desmaiado, Davi encontrou uma versão de si mesmo. Seu eu antigo. Encolhido. Amedrontado. Amargurado. Um reflexo de tudo o que ele havia sido antes do primeiro teste.

Ele sentiu pena daquele garoto.

Mas entendeu que precisava parar de sentir pena de si mesmo.

Ele precisava se perdoar.

[Eu te perdoo, Davi], disse ele ao seu eu passado.

No exato momento em que o golem ergueu o braço para desferir o golpe final, seu corpo começou a se desfazer. A pedra se fragmentou, virou pó, e caiu no chão como areia.

No centro do monte de pó, estava o mesmo cubo de pedra do início. Pequeno. Inofensivo.

Lira correu até Davi, temendo encontrá-lo morto. Mas ele ainda respirava, embora estivesse coberto de feridas e com alguns ossos quebrados. Ele sobreviveria. Voltaria ao normal com o tempo.

O mais difícil ele já havia feito:

Perdoar a si mesmo.

A sala começou a curá-lo. A magia restaurou seus ossos, fechou suas feridas, devolveu-lhe o vigor. Quando abriu os olhos, viu Lira ao seu lado. Tão perto que ele corou, mas também se sentiu reconfortado. Nunca estivera tão vulnerável — e nunca tivera alguém ali por ele.

“Você acabou de enfrentar o Golem da Culpa”, explicou Lira. “Ele se alimenta dos seus maiores arrependimentos e das responsabilidades que você tomou para si sem precisar. Eu nunca vi um golem tão grande… não sabia quanta culpa você carregava. Como você ainda estava vivo?”

Ela estava genuinamente impressionada. Davi estava quebrado de maneiras que ela jamais imaginou. Mas seu instinto de sobrevivência era extraordinário.

E agora, seu espelho já não era tão turvo. Ainda havia nuvens cinzas, mas muito mais claras do que antes.

2 Comentários

  1. Posso dizer aqui o quantovocê estava inspirado ao escrever essa história. Tenho lido aqui uma versão sua que nunca tinha lido e confesso que estou curtindo.
    A escrita está mais madura, mais coesa, sem exageros ou coisas sem nexo, apenas pura e simples verdade narrativa, que eu classifico como um texto que dá prá perceber o cuidado e esmero ao ser escrito.
    Gostei bastante da forma como viocê mostoru a maneira da luta do Davi com o Golem da Culpa, uma ótima escolha de monstro, uma vez que, na maioria das vezes, os escritores optam por um dragão da culpa ou outros monstros mais conhecidos e populares.
    O título segue muito bom cara. Parabéns.

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    1. Fico contente que você tenha gostado. O conto tem fantasia, tem. Mas é bem low fantasy, o negócio é mais mental mesmo. Davi luta contra seus próprios medos e casos arraigados.

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