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A Cidade dos Espelhos - Reflexo 9

 


Bom dia, boa tarde, boa noite.

Espero que gostem.


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9. O Labirinto da Comparação

 

 

 

 

Davi e Lira voltaram ao Salão das Vozes. Era hora de enfrentar um dos testes mais difíceis pelos quais as pessoas costumavam passar. Mas, mesmo sendo guardiã experiente, Lira não fazia ideia do que o teste de Davi poderia se tornar. Ele já a havia surpreendido mais de uma vez — e ela sabia que aquilo não era comum. Cada sala reagia ao coração da pessoa que a atravessava, e o coração de Davi era um território complexo, cheio de feridas antigas e crenças distorcidas.

Ao passarem pela sala onde o corvo estivera, agora vazia e silenciosa, a entrada para o próximo desafio se revelou: uma passagem estreita, murada, quase claustrofóbica. Lira reconheceu imediatamente o tipo de teste que viria, mas não o efeito que teria sobre Davi. Cada pessoa enfrentava algo diferente ali dentro, e Davi, com sua mente marcada por tantos anos de dor, certamente teria uma experiência única — e intensa.

Assim que Davi atravessou a passagem, percebeu que estava sozinho novamente. A sala era maior do que parecia por fora, e, após alguns minutos caminhando, ele entendeu que estava dentro de um labirinto. As paredes eram altas, lisas, impossíveis de escalar. O silêncio era tão profundo que parecia absorver seus passos, como se o próprio ar estivesse atento ao que ele faria.

Mas, até aquele momento, ele não havia encontrado ninguém. Nenhuma memória. Nenhuma criatura. Nenhum desafio claro.

Foi então que encontrou o primeiro espelho.

Nele, viu Lira. Mas não a Lira que conhecia. A imagem refletida era de uma mulher mais alta, mais esguia, mais curvilínea — quase uma versão idealizada dela. Uma Lira perfeita, moldada pelos padrões que Davi, consciente ou não, carregava dentro de si. Uma Lira que não existia, mas que representava tudo o que ele achava que deveria admirar.

Ele se afastou, desconfortável, sentindo o estômago revirar. Aquilo não era real. Aquilo não era ela. Mas, ao mesmo tempo, era impossível não olhar.

Conforme avançava pelo labirinto, mais espelhos surgiam. Muitos. Dezenas. Cada um refletia pessoas que ele conhecera ao longo da vida — mas não como elas eram. E sim como ele as via: perfeitas, impecáveis, inalcançáveis. Pessoas que, em sua mente, sempre foram melhores do que ele. Pessoas que ele colocava em pedestais sem perceber.

Ele encontrou até mesmo uma versão idealizada de seus pais. Dois espelhos pareados, lado a lado, com um espaço vazio entre eles. Era como se o labirinto estivesse lhe mostrando o que ele sempre desejou: seus pais juntos, presentes, amorosos, melhores do que realmente foram.

Quando Davi se colocou no espaço entre os espelhos, as imagens ganharam vida. Seus pais apareceram diante dele, belos, fortes, sorridentes. Uma visão tão perfeita que doía. Uma beleza terrível, esmagadora, porque representava tudo o que ele nunca teve — e tudo o que sempre desejou.

Ele recuou, sentindo o peito apertar, como se estivesse sendo sufocado por um sonho impossível. Aquele reflexo era cruel justamente por ser tão bonito.

Ao final do labirinto, no centro, havia dois espelhos maiores. Um refletia uma versão idealizada de si mesmo — alto, forte, inteligente, confiante, sem falhas. O outro refletia sua imagem real: baixo, sardento, usando óculos, marcado por traumas, inseguranças e cicatrizes invisíveis.

A visão o atingiu como um golpe.

Sua depressão, que já havia sido instigada tantas vezes durante os testes, voltou com força total. Outra pedra angular de sua introversão estava ali, exposta: sua autoestima. Baixa. Frágil. Quase inexistente.

Foi naquele instante que Davi percebeu o quanto não gostava de si mesmo. O quanto desejava ser outra pessoa. O quanto se comparava com todos ao seu redor. Não havia nada em si que ele gostasse. Nada que considerasse digno. Ele se via como um erro ambulante, alguém que só ocupava espaço.

E, enquanto se perdia nesses pensamentos, o labirinto cumpria seu propósito: fazê-lo esquecer o caminho, esquecer sua essência, esquecer quem era, o quanto tinha melhorado com os outros testes. Ele começou a se pautar nos outros, a desejar ser qualquer pessoa que não fosse ele mesmo.

Heróis começaram a surgir nos espelhos. Modelos de perfeição. Pessoas que ele admirava, figuras que ele colocava em pedestais. Era como se o labirinto estivesse lhe dizendo: “Veja, é assim que você deveria ser.”

E, mais uma vez, Davi acreditou nisso.

Ele começou a se encolher, como no teste de dois dias antes. Começou a desejar desaparecer. Começou a desejar ser substituído por aquelas versões perfeitas.

Começou a desejar não existir.

Seu espelho — o verdadeiro, pendurado em seu pescoço — começou a desaparecer. Sua imagem refletida começou a sumir. Sua essência estava sendo apagada. Ele estava se desfazendo, como se nunca tivesse existido.

Davi queria sumir.

Queria deixar que aquelas pessoas perfeitas ficassem em seu lugar.

Queria que elas vivessem sua vida, porque acreditava que fariam melhor.

Mas, no fundo, ele sabia que aquele não era o propósito do teste.

Ele sabia muito bem o que os testes anteriores o haviam ensinado. Sabia que o maior inimigo sempre era o próprio eu interior. Sabia que precisava enfrentar aquilo.

[Como posso me comparar a seres tão perfeitos? Como eu, tão insignificante, posso ficar ao lado deles?]

A pergunta ecoou em sua mente como um lamento.

Mas, naquele momento sombrio, algo brilhou dentro dele — uma lembrança. Uma fagulha. Uma verdade que ele havia aprendido nos salões anteriores.

O propósito do teste era fazê-lo enxergar a si mesmo com clareza. Era trazer seus pontos fortes à tona. Era fazê-lo se aceitar.

Davi respirou fundo.

E começou a raciocinar.

[Eu sou assim. E posso melhorar. Posso olhar para dentro de mim mesmo e encontrar o que sempre procurei. Posso não mudar minha aparência, mas minhas atitudes, sim. Meu olhar sobre o mundo, sim. Afinal… se eu não gostar de mim, quem vai? Eu preciso melhorar nisso.]

Quando entendeu que gostar de si mesmo também era um ato de amor — e não de vaidade — sua imagem voltou a se tornar nítida. Seu corpo deixou de desaparecer. Seu espelho voltou a ganhar cor, e mais nitidez do que antes.

[Eu posso gostar de mim sem precisar buscar aceitação nos outros. Sem precisar ser outra pessoa.]

Com isso, as paredes do labirinto começaram a baixar, os espelhos desapareceram. O cenário se dissolveu, revelando uma sala ampla, iluminada, com espelhos comuns espalhados pelas paredes. E cada espelho refletia apenas Davi.

Não mais as versões perfeitas que ele sonhava ser.

Não mais os devaneios que o aprisionavam.

Mostravam apenas ele.

E, pela primeira vez, isso era suficiente.

Davi caiu de joelhos e chorou. Chorou como não chorava há anos. Chorou por tudo o que havia sido, por tudo o que desejou ser, por tudo o que finalmente estava aceitando.

Que estava se aceitando.

Lira também chorava.

Aquele havia sido o teste mais lindo que ela já testemunhara em toda sua vida como guardiã. Não era o mais fácil, longe disso; mas era o mais transformador, o mais tocante, o mais humano.

E ela sabia que o próximo teste seria, para Davi, o mais leve até então.

Porque o mais difícil ele já havia conquistado:

O amor-próprio.

“Eu posso me aceitar assim, Lira?”, perguntou Davi com os olhos úmidos de lágrimas.

“Não só pode como deve, Davi.”

E, pela primeira vez, ele acreditou.

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